A distinção precisa entre filosofia e teologia é um conceito chave no pensamento kantiano. É possível encontrar elementos supostamente teológicos que atuariam como fundamento de seu criticismo?

Um problema apontado na filosofia kantiana é o fundamento da reflexão humana. Uma ressalva importante que se faz é a de que Kant não teria se esquivado totalmente da crítica humana, como pretendera. Hume salientava que a fuga de todo dogmatismo implica pensar uma proposição filosófica sem se inscrever uma “razão universal”. Kant, assim, teria apenas deslocado a razão universal. A estratégia de Kant foi mudar os registros da atuação da razão, que ao invés de ser presente no material sensível, estaria deslocada para o domínio da reflexão. Ou seja, a razão deixa de estar no mundo, para estar na consciência do homem. No entanto, no fundo Kant ainda teria apostado numa fórmula da razão universal, de modo disfarçado, como fundamento reflexivo que só existe para o homem. Ou seja, em última instância, Kant apela para uma noção de suprassensível que parece evocar uma razão universal, partilhável entre os homens, mas também com um teor dogmático tradicional. A teologia, que aparentemente estaria deslocada da metafísica, tenta sustentar o jogo entre as faculdades transcendentais do homem, o que conduziria a dizer que na filosofia kantiana a “reflexão” ocuparia o papel que outrora a metafísica destinava a “Deus”.