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Uma economia baseada na colaboração

Otto Scharmer, economista do Massachusets Institute of Technology, propõe sistema "eco-cêntrico"

PublicDomainPictures / Pixabay / CC0 Creative Commons

“Somos a favor de adotar modelos econômicos em que o acesso seja amplo e colaborativo”, diz Scharmer

Colaborar em vez de explorar é a proposta do economista Otto Scharmer para as trocas de riqueza no futuro. O professor sênior do Massachusets Institute of Technology (MIT) defende que a solução para a crise econômica global que vivemos é investir menos em títulos bancários e mais em soluções que beneficiem as comunidades.

A ideia é transformar o formato atual, baseado na mais-valia, em um sistema sustentável, onde não haja explorados e todos ganhem.

O economista detalha a abordagem, chamada de Teoria U, no livro Liderar a partir do futuro que emerge - A evolução do sistema econômico ‘ego-cêntrico'para o ‘eco-cêntrico’. A Teoria U é a ideia que norteia o Presencing Institute, do qual o economista é fundador.

Scharmer pesquisou 150 líderes de diversas áreas e concluiu que aqueles atrelados a antigos modelos (especialmente para tomadas de decisões) prendem-se ao passado e não prosperam como poderiam. Já os empreendedores que se mantêm abertos para captar respostas sem prejulgamentos têm mais sucesso, de modo geral.

A receita sugerida por Scharmer para captar respostas é manter-se em observância com o todo. Para isso, diz o economista, é necessário um processo de conexão profunda consigo, por meio da meditação, por exemplo, que leva à expansão da consciência.

Mercado da colaboração

Para Scharmer, a expansão da consciência traz criatividade, o que gera ideias inovadoras capazes de beneficiar ou, no mínimo, não prejudicar, empresa, comunidades onde elas estão localizadas, a sociedade e o meio ambiente.

Em vez de viver em uma cadeia egocêntrica, na qual o lucro pessoal é mais importante, esses empreendedores devem promover formas de dar acesso a bens materiais sem que seja necessário adquiri-los. Scharmer enxerga os princípios ecocêntricos em algumas formas de colaboração já existentes, como redes de carona, feiras de trocas de objetos e o uso de bicicletas coletivas. Outro exemplo é o couchsurfing, sistema em que viajantes se hospedam na casa de desconhecidos – a moeda de troca é oferecer a casa para outros.

“Somos a favor de se sair do sistema de repetição e adotar diferentes modelos econômicos, em que o acesso seja amplo e colaborativo”, afirma o economista, que chamou o sistema de "ecocêntrico". É bom lembrar, o prefixo eco vem da palavra grego oîkos, que significa 'casa', 'habitação' e 'família'.

O valor do dinheiro

“Não somos contra o capitalismo, porque dinheiro tem uma dimensão energética importante, viabiliza processos”, afirmou Scharmer. Para o economista, no entanto, o dinheiro tem se afastado cada vez mais do valor real das coisas. Scharmer afirma que 95% da já intangível moeda são apenas números – commodities, ações, títulos bancários.

Segundo Scharmer, o conceito traz uma nova forma de utilizar o dinheiro: em vez de restringi-lo à aquisição de bens materiais ou ao acúmulo em um banco, utilizá-lo em prol de uma comunidade, por exemplo. E ter, além de rendimentos, satisfação pessoal.

Mudança de paradigma

“Sentimos forte mudança nos valores sociais. É evidente que o capital hoje tem outro sentido: as novas gerações querem conquistas materiais e imateriais, querem ter mais conhecimento – viagens, relacionamentos, cultura – e se importam menos com o fim, e mais com o fluxo”, afirma Ricardo Ruffo, especialista em empreendedorismo e inovação e sócio idealizador da escola Design Thinking. “O movimento atual segue a direção do fazer algo de impacto positivo, que transforme para melhor o indivíduo e o coletivo”, observa ele.

“A evolução econômica proposta por Scharmer condiz com nossa evolução de consciência”, define Juliana Proserpio, sócia de Ruffo. “Tudo o que não é criado pela natureza é criado pelo homem, então, se algo não está dando certo, podemos mudar: recriar os modelos para chegar ao que queremos e no que acreditamos”, afirma ela.

"A mudança é uma questão de sobrevivência para o sistema econômico", faz coro Marina Cançado, idealizadora da consultoria Flow Brasil. Ela conta que atende casos em que as novas gerações não querem se envolver com empresas da família, exatamente porque não aceitam repetir padrões antigos.

Para Scharmer, a profunda renovação social não se faz de uma década para outra, e depende da intenção comum. Práticas de autoconhecimento seriam o meio mais eficaz para se chegar a este paradigma ideal.

Meditação e riqueza

Essa junção inusitada de economia e coração começou a ser formatada quando Scharmer e seu colega do MIT, Peter Senge, investigaram o comportamento de 150 pessoas que promoveram alguma transformação importante – seja no governo, educação ou em negócios. A dupla percebeu que todas estas pessoas não se baseavam em métodos do passado, mas eram conectadas a uma fonte maior de energia e criatividade. Esta energia que amplia a percepção, concluiu-se, provém de uma profunda conexão interna, a partir da qual o indivíduo ganha consciência do todo.

“A meditação é uma prática que auxilia no desenvolvimento da capacidade interna de se conectar com o seu ser e com o todo, o que gera empatia e compaixão para com o outro”, afirma Cançado. “A prática promove uma transformação pessoal, que atua como um portal para transformações em empresas, instituições e governos.”

“Temos o hábito de agir mecanicamente” comentou a economista Debora Degenszejn. “A proposta de Otto Scharmer tenta desconstruir este pensamento tradicional, sugerindo uma jornada para dentro do indivíduo. E a meditação é o meio mais eficaz, porque promove a integração entre as inteligências da mente, do corpo e do coração”.


Scharmer em palestra durante lançamento do livro '"Liderando a partir do futuro que emerge" na FGV

A evolução das empresas

Para Scharmer, existem quatro modelos de sistemas econômicos no mundo. O modelo 1.0 baseia-se em comando e controle centralizado. Ainda presente em muitas empresas e famílias, não tem trocas, apenas exploração. Em termos históricos está relacionado à época da escravidão.

O sistema 2.0 é hierárquico e menos autoritário em relação ao 1.0, mas ainda vítima de competição extremada e individualismo exacerbado. O trabalho passa a ser trocado por dinheiro, e há a busca pelo excedente.

No modelo 3.0, as pessoas começam a perceber que o sistema egocêntrico e individualista gera consequências ruins na sociedade. Para minimizar danos sociais, surgem processos reguladores e instituições do terceiro setor, como organizações não-governamentais. O outro é percebido e a cadeia de fornecedores passa a ser considerada, mas ainda com ótica fragmentada - ainda não se vê o todo. Pode-se traçar um paralelo com o livre mercado que, ao surgir, parecia uma solução, mas logo se mostrou uma nova forma de manter o lucro nas mãos dos mesmos poucos.

O estágio 4.0 é o ideal proposto por Scharmer. Essa fase presencia a economia da consciência do coletivo e das relações de interdependência. Ocorre a transformação do sistema egocêntrico para o ecocêntrico.

A mudança de patamar é feita em etapas, e sociedades, comunidades e empresas podem apresentar aspectos de mais de um estágio. "Aos poucos, o novo paradigma vai se expandindo e alcança uma escala maior", diz a consultora Marina Cançado. "Na próxima década viveremos uma grande mudança do sistema 'ego' para o 'eco', e as empresas com comportamento eco terão as melhores respostas", acrescenta.