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Tomar sol durante a gravidez faz mal?

Diversos trabalhos comprovam a relação da deficiência de vitamina D com o risco de parto pré-maturo, diabetes gestacional e até aumento da incidência de cesáreas

DDW Fotografia / Flickr: Gravidas (69) / CC BY-ND 2.0

A exposição à luz solar de forma moderada durante quinze minutos traz benefícios para o organismo

Alimentação adequada, atividade física, descanso e acompanhamento pré-natal. Essas são as principais recomendações que uma futura mamãe recebe quando ela busca por uma gravidez tranquila e segura. Mas se depender de alguns pesquisadores que estudam os efeitos da vitamina D no organismo, em breve um novo conselho será inserido nas consultas de obstetras e profissionais que cuidam da saúde da mulher: o banho de sol.

“Infelizmente, hoje em dia mais de 80% da população urbana sofre com deficiência de vitamina D, incluindo gestantes e recém-nascidos, mesmo em países tropicais como o Brasil”, explica a endocrinologista clínica e nutróloga Haládia Simião. Segundo ela, a “pandemia” de falta de vitamina D é resultado do estilo de vida da sociedade moderna. Atualmente, as pessoas passam a maior parte do dia em locais fechados e ainda utilizam o protetor solar em excesso.

Portal NAMU: Por que razão a vitamina D vem sendo tão pesquisada e sua falta sendo associada a uma série de doenças?
Haládia Simião: A vitamina D na verdade é um hormônio e não uma vitamina. Por ter uma ação hormonal, ela participa da regulação do funcionamento de praticamente todas as nossas células, da mesma forma que os hormônio tireoidiano, o estradiol, a progesterona, a testosterona etc. Portanto, ela é fundamental para o funcionamento saudável do nosso organismo.

Há milhares de trabalhos científicos comprovando que a falta desse hormônio está relacionada direta ou indiretamente a problemas de saúde como doenças autoimunes (esclerose múltipla, artrite, lúpus, tireoidite e outras), doenças neurológicas (como autismo, demência, déficit de atenção, fadiga) e doenças endocrinológicas e cardiológicas como infertilidade, desregulação do ciclo menstrual, diabetes (incluindo o diabetes gestacional), hipertensão. Ele também participa da diferenciação celular e por isso diminui o risco do desenvolvimento de câncer de mama, intestino, próstata, entre outros.

Isso ocorre porque esse hormônio é responsável por regular direta ou indiretamente 5% de nosso código genético. Se tivermos uma deficiência, nossas células ficarão desreguladas.

Existe algum problema em manter níveis insuficientes de vitamina D durante a gestação? Isso pode influenciar na qualidade do parto?
Em razão de toda essa importância, é claro que a falta desse hormônio pode trazer consequências graves durante a gestação, tanto para a mãe quanto para o bebê. Diversos trabalhos comprovam a relação de sua deficiência com o risco aumentado de parto pré-maturo, pré-eclâmpsia e eclampsia, aborto, diabetes gestacional e aumento da incidência de cesáreas.

Além disso, esse hormônio é responsável pela nossa absorção intestinal de cálcio dos alimentos, ou seja, se o nível hormonal de vitamina D estiver baixo, a gestante absorve menos cálcio – mesmo que esteja tomando leite ou comprimido de cálcio – e o cálcio necessário para a formação do bebê pode passar a ser retirado dos ossos. Ela ainda pode ter dificuldade de contração uterina durante o parto, e caso essa deficiência continue, ela pode ter diminuição da produção de leite e um aumento do risco de desenvolver osteomálacia ou osteoporose.

E para a criança, isso também traz consequências?
Há diversos estudos demonstrando que crianças que nasceram com baixos níveis de vitamina D e que continuam com deficiência nos primeiros anos de vida apresentam risco maior de desenvolver asma, infecções e baixa massa óssea durante a infância, além de déficit de desenvolvimento intelectual, déficit de crescimento e doenças autoimunes.

Gestante

Qual seria a postura ideal da gestante e dos médicos que cuidam dela? Que tipo de exames fazer e como suplementar?
O ideal seria, antes de engravidar, realizar a dosagem de vitamina D no sangue para detectar se há deficiência. Consideramos atualmente que níveis abaixo de 40 ng\ml caracterizam essa condição. Se o nível hormonal estiver baixo, devemos orientar a futura gestante a tomar sol sem protetor nos horários entre 9 e 15 horas, por pelo menos 15 minutos diários, expondo uma grande área do corpo como pernas, braços, abdome ou costas para que ela mesmo mantenha uma produção hormonal.

Entretanto, como a maioria das mulheres hoje em dia trabalham em ambientes fechados, ou não querem se expor ao sol pelo medo de ter manchas ou rugas, é necessário realizar uma suplementação via oral com uma dose de pelo menos 4 a 6 mil Unidades Internacionais (UI), devendo ser repetido o exame dentro de um mês para verificar se a grávida já atingiu o nível adequado, entre 40 e 100 ng/ml.

Caso não tenha atingido o nível normal, a dose deve ser aumentada pelo médico. Pode ser necessário ingerir 10 mil unidades por dia ou mais, principalmente entre pacientes obesas ou para aquelas que fizeram cirurgia bariátrica. Após alcançar o nível ideal, a dose via oral deve ser mantida ao longo de toda gestação e na fase de amamentação, e só pode ser suspensa caso a mãe tome sol diariamente, sem protetor solar e expondo uma grande área do corpo.

E os cuidados para que o recém-nascido não desenvolva deficiência? Deve suplementar também? Quanto?
Se a mãe estiver com níveis adequados de vitamina D, ela irá transmitir o hormônio para o bebê intra-útero através da placenta e, após o nascimento, pela amamentação. Porém, para garantir níveis ótimos, devemos deixar o bebê em banho de sol por pelo menos cinco minutos diários, claro que sem protetor solar, mas com o cuidado para não deixar ficar vermelho ou ardendo.

Foto: Victor /  Flickr / CC BY 2.0