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Sem consumismo na hora de brincar

Feiras de trocas ou aluguel de brinquedos são alternativas para uma diversão sustentável

kaboompics / Pixabay / CC0 Creative Commons

Nas feiras de trocas, crianças exercitam autonomia, desapego e aprendem a lidar com frustrações

Que tal trocar, alugar e doar brinquedos em vez de comprar e comprar? As crianças crescem, os interesses mudam e elas naturalmente aposentam alguns de seus brinquedos. Para não transformar essas mudanças em mais um pretexto para consumir, empresas e organizações não governamentais oferecem alternativas a pais interessados em uma mudança de atitude na hora de brincar. São parceiros que ajudam as famílias a reutilizar brinquedos e dar-lhe um novo uso.

Existem sites especializados em ajudar pais e crianças a doar os brinquedos, como o Brinquedos para Todos, Lalec e Graacc. A prática estimula a percepção de diversidade, o respeito aos diferentes e a generosidade. A ela, somam-se duas alternativas à compra: o aluguel e a troca de brinquedos. Todas oferecem às crianças aprendizados valiosos e lançam um novo olhar sobre o tema.

Feira de trocas

O Instituto Alana, de São Paulo, promove divulga feiras de trocas de brinquedos que acontecem pelo Brasil. “Muito mais do que trocar brinquedos que já não interessam como antes, a experiência é enriquecedora por dar novos significados a objetos antigos e possibilitar entrosamento e socialização”, divulga a página do instituto.

Slow kids

O instituto ensina em um manual online o passo a passo para interessados em promover este tipo de evento. Em 2012, quando a ideia surgiu, houve 50 feiras concomitantes no país. Em 2013 o número duplicou.

“Percebemos aprendizados no processo de troca porque a criança precisa se comunicar, praticar a autonomia, desapegar de algum brinquedo e lidar com a frustração quando não consegue o que quer, além de conhecer crianças de diferentes realidades”, afirma Renata Franco, coordenadora da feira de trocas de brinquedos do Instituto Alana. “Esses conflitos e negociações podem ajudar na construção de um futuro mais consciente para as crianças”, acrescenta.

Não é de se espantar ver a criança trocar um robô por um boneco inerte. Os pequenos gostam de descobrir e de exercitar a inventividade. O ideal é que os pais orientem seus filhos antes da feira, não interfiram durante a troca e se despreocupem com equivalência de preços. Essa é a graça do evento: o valor dos objetos deixa de ser comercial e passa a ser simbólico.

Meu por tempo determinado

Criança no patinete

O desejo das crianças por novidades é um apelo atendido também pelo sistema de aluguel de brinquedos. A paulistana Camila Moreno, mãe de uma bebê de um ano, adotou a ideia. “Nessa faixa etária, a criança se entretém e logo se desinteressa pelo brinquedo. Passa de um para outro em pouco tempo”, diz. Moreno lista as vantagens do aluguel: reduz o consumo, permite o acesso a itens mais caros; oferece alta variedade de brinquedos e, consequentemente, estímulos mais variados. “Evito o empilhamento de brinquedos no canto do quarto”, resume a mãe.

Neste ponto está embutida uma questão mais profunda. A cada natal ou aniversário, junto com os presentes pode vir embutida a ideia de quanto mais, melhor. Que conceito uma profusão de brinquedos a cada festa passa aos pequenos que já têm outros tantos no quarto?

“O aluguel de brinquedos é uma alternativa de consumo compartilhado e mais responsável”, afirma Valéria Tavares, criadora do site Baú Verde, que aluga brinquedos no Rio de Janeiro. Ela observa que seus clientes entendem a importância de cuidar bem dos produtos para poderem ter acesso a outros brinquedos, novas descobertas e possibilidades.

“O cuidado com o brinquedo ajuda a despertar uma consciência coletiva, comunitária, em que a criança se percebe integrante de uma rede de relações que só funciona à base do respeito: este brinquedo veio direitinho de um colega, e eu vou cuidar para chegar direitinho a outro colega”, diz Tavares. “Claro que essa consciência não é despertada por causa dos brinquedos alugados, mas eles dão subsídios aos pais para ensinarem isso aos filhos. Deixa de ser só um discurso, uma teoria, para ser algo colocado em prática", acrescenta.

Vale ressaltar que é normal criança pequena estragar brinquedo. “Devemos entender que, ao desmontá-lo, a criança está trabalhando as descobertas. Ela quer saber o que há lá dentro e isto é positivo”, diz a educadora Claudia Frackiewicz Wady. “Destruir é algo bem diferente e os pais têm senso crítico para avaliar um comportamento agressivo”, complementa a pedagoga.

Há variabilidade em tempo de locação, que pode ser renovada. As empresas sugerem a devolução do brinquedo por conta dos outros conceitos envolvidos na prática.

Brincar sustentável

Criança na cozinha
Crianças entre 2 e 5 anos compõem a maioria dos clientes da Joanninha, empresa de aluguel de brinquedos

“A gente acredita que a qualidade, variedade e quantidade de brincadeiras durante a infância estão fortemente ligadas ao desenvolvimento físico, psíquico, intelectual e emocional de todas as crianças", afirma a pós-graduada em educação infantil Alessandra Sevzatian. Em 2011, ela e a sócia Anna Fauaz lançaram o site de aluguel Joanninha com o propósito de incentivar um brincar sustentável que desenvolvesse as habilidades infantis e, ao mesmo tempo, promovesse o reuso e o consumo compartilhado de brinquedos. “A cultura da Joanninha não se baseia no ter um brinquedo, mas no proporcionar um brincar mais puro, que incentive o momento da brincadeira, despertando nas crianças, amigos, pais e familiares valores como companheirismo e cidadania”, afirma Fauaz.

A maioria das crianças que alugam brinquedos na Joanninha tem entre 2 a 5 anos. Nessa idade, a criança interage melhor com as brincadeiras. Clientes mais velhos, com 8 e 10 anos, costumam alugar jogos para brincar em família.

Criança brincando
Isabel, filha da criadora do Baú Verde, Valéria Tavares, é testadora de brinquedos da empresa

Conceitos em xeque

Ser velho é um defeito? E ser usado, é algo negativo? Reavaliar conceitos é um dos objetivos de gente que estimula as crianças a trocar ou doar a primeira posse real das crianças. É bom lembrar que os brinquedos são os principais representantes do universo infantil nas sociedades de consumo.

A trilogia de filmes Toy Story mostra a relação de uma criança com seus brinquedos: há um ou dois preferidos e muitos coadjuvantes. O garoto cresce e abandona seus ex-parceiros como se fossem lixo. Na vida real, crianças que descobrirem não precisar de tantos itens desimportantes para viver serão adultos mais conscientes.

Aluguel:

Clube do Brinquedo
Quintal de Trocas

Fotos: Divulgação


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