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Radiação no ouvido do seu filho

Existe um possível aumento de 40% no risco de câncer, no cérebro e no ouvido, dos usuários que utilizam o aparelho celular por mais de 30 minutos por dia, por dez anos ou mais

Richard Leeming / Flickr / CC BY-SA 2.0

OMS alerta para aumento de 40% no risco de câncer no cérebro em quem usa o aparelho

A Organização Mundial da Saúde (OMS) classifica como possivelmente cancerígena a radiação emitida pelos celulares, mesmo considerando a existência de contradições nos estudos científicos. Constatou-se, segundo a OMS, um possível aumento de 40% no risco de câncer no cérebro e no ouvido nos usuários que usam o aparelho por mais de 30 minutos por dia por dez anos ou mais.

Esses efeitos colaterais podem ser ainda mais perigosos para as crianças porque elas absorvem dez vezes mais radiação do que um adulto, segundo pesquisa divulgada em 2012 pelo Departamento de Engenharia Elétrica e Computacional da Universidade de Utah, nos Estados Unidos (1).

“O cérebro da criança tem maior conteúdo de um líquido salino que o de um adulto, o que favorece a dissipação de energia eletromagnética”, explica, em entrevista ao Namu, Álvaro Augusto de Salles, pesquisador brasileiro que participou do estudo da Universidade de Utah.  

“Nas crianças, além disso, a reprodução das células é mais frequente do que nos adultos e muitos dos efeitos de baixo nível de exposição ocorrem durante a fase de multiplicação das células”, afirma Salles, que conduziu e orientou diversos trabalhos sobre radiação e celular.

Quando perguntado se presentearia ou não um filho ainda criança com um celular, responde: “Certamente não”.

Ondas eletromagnéticas

O celular é um rádio que transmite ondas bidirecionais provenientes das duas fontes que participam do diálogo. Os aparelhos enviam e recebem sinais de torres de operadoras telefônicas por meio de ondas de radiofrequência (RF), uma forma de radiação não ionizante. O aparelho ainda pode funcionar como um computador, acessar a internet, compartilhar fotos, vídeos e documentos, o que aumenta ainda mais o tráfego de ondas eletromagnéticas que ocorre por meio dele.

Faz mal?

A resposta para essa pergunta ainda não é unânime dentro do âmbito científico. Segundo a Sociedade Americana do Câncer (2), as ondas RF são mais fracas do que as radiações ionizantes, presentes nas máquinas de raios-X. Dessa forma, elas não teriam energia suficiente para causar câncer ou para danificar diretamente o DNA humano.

A instituição relata que a maioria dos estudos publicados sobre celular e câncer não encontrou dados suficientes para comprovar a ligação entre eles. Cita como exemplo um estudo de longo termo realizado na Dinamarca que teve início em 1982 e sua última atualização em 2007. A pesquisa não achou nenhuma relação entre o uso de celular e o aumento de incidência de tumores no cérebro, mesmo após tanto tempo de exposição.

Álvaro Augusto Salles explica que existem críticas ao estudo dinamarquês. Em 2012, os pesquisadores Fredrik Söderqvist, Michael Carlberg e Lennart Hardell, do Departamento de Oncologia do Hospital Universidade de Orebro, na Suécia, publicaram uma revisão da pesquisa (3). No documento, eles alegaram não haver provas de quanto tempo os participantes foram expostos à radiação ou de qual a intensidade da exposição.

Segundo os pesquisadores suecos, um participante que usou o celular por 5 minutos por semana teria sido analisado da mesma forma do que outro que usava o celular por duas horas durante o dia. O fato de ser pouco ou muito exposto à radiação teria sido irrelevante para o estudo dinamarquês. Söderqvist, Carlberg e Hardell criticam esse descaso, dizendo ser de extrema importância o grau de exposição para avaliar o risco de tumor cerebral.

Possivelmente cancerígeno

Na primeira metade de 2011, a Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC)  classificou como possivelmente cancerígena a radiação emitida pelos aparelhos de celular, alterando sua classificação para 2B. O grupo engloba agentes cancerígenos com provas limitadas em humanos e poucas provas em animais (4). A decisão tomada por 31 cientistas reunidos em Lyon, na França, resultou em uma alteração de posicionamento da Organização Mundial da Saúde em relação ao assunto.

Até 2010, a organização havia declarado não possuir nenhum efeito colateral na utilização dos aparelhos, mas após a publicação da IARC, ela decidiu revisar estudos até então publicados. Em 2013, divulgou um documento sobre os riscos associados aos celulares e suas torres de transmissão (5).

O comunicado divulgado pela OMS constatou um possível aumento de 40% no risco de câncer no cérebro (glioma) e no ouvido (neuroma do acústico) nos usuários que usam o celular por mais de 30 minutos por dia por 10 anos ou mais. Para chegar a essa conclusão, os pesquisadores levaram em conta resultados de pesquisas epidemiológicas que incluíram as radiações emitidas por aparelhos telefônicos, wi-fi, wi-max, bluetooth, rádios AM e FM, entre outros (5).

Risco para crianças

O número de celulares usados por crianças de 10 a 14 anos cresceu 12,6% entre 2009 e 2011, segundo informações divulgadas em maio de 2013 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).  No mesmo período, o aumento foi de 15,7% entre adolescentes de 15 a 17 anos (6).

Os mesmos pesquisadores que revisaram a pesquisa dinamarquesa analisaram - com a ajuda de mais dois colegas - a relação entre o uso de celulares por crianças e o aumento do índice de células cancerígenas. Os suecos revelaram que usar celulares desde pequeno pode aumentar o risco de câncer de cérebro em quatro vezes, comparando dados antigos com informações coletadas após a exposição aos aparelhos (7).

A pesquisa detectou ainda que a radiação emitida pelos telefones pode aumentar a probabilidade de problemas de concentração, autismo, insônia e distúrbios do sistema nervoso.

Muitos pais acabam recorrendo aos aparelhos para distrair os filhos, já que a disponibilidade de jogos e aplicativos para crianças é enorme. Contra essa opção, existem outros argumentos, além dos riscos da radiação. A Academia Americana de Pediatria alerta para o fato de que elas precisam de mais contato com elementos da realidade para se desenvolver de forma adequada. É aconselhável que explorem, toquem, cheirem, vejam e ouçam pessoas reais (8).

Ligações breves

Segundo a Organização Mundial da Saúde, uma boa maneira de reduzir os efeitos da radiação é limitar o tempo das ligações e manter uma distância mínima de 30 cm entre o celular e a cabeça, evitando assim um contato longo com o dispositivo.  Usar o viva-voz, um fone de ouvido ou digitar uma mensagem de texto são formas de reduzir a exposição às ondas RF.

Controvérsias

Mesmo com tantos estudos que evidenciam possíveis riscos trazidos pelos celulares, um contraponto deve ser considerado: a tecnologia. A indústria de celulares vem investindo em aparelhos com menor emissão de ondas RF. Como a radiação varia de aparelho para aparelho, é difícil avaliar riscos causados pelo uso.

Viva-voz como aliado 

Artigo publicado no Jornal da Academia Americana de Pediatria (8) recomenda:

  • Não permitir que as crianças brinquem ou usem os celulares, principalmente se tiverem menos de 2 anos.
  • Se for necessário que as crianças usem o aparelho, colocar um fone de ouvido ou ligar o viva-voz para que o celular não entre em contato direto com sua cabeça.
  • Quando for dormir (e sempre que possível), desligar a função wireless do celular. Isto faz com que a radiação emitida diminua. 

Referências

(1) GANDHI, Om ; MORGAN, Lloyd ; SALLES, Augusto ; HAN, Yueh-Ying; HEBERMAN, Ronald ; DAVIS, Devra. Exposure Limits: The underestimation of absorbed cell phone radiation, especially in children. Eletronic Biology and Medicine, vol. 31, p.34-51, 2012. Disponível em <http://informahealthcare.com/doi/abs/10.3109/15368378.2011.622827> Acesso: 29 ago. 2013

(2) American Cancer Society: Cellular Phones. Disponível em <http://www.cancer.org/cancer/cancercauses/othercarcinogens/athome/cellular-phones> Acesso em: 16 set. 2013

(3) SÖDERQVIST, F.; CARLBERG, M.; HARDELL, L.  Review of four publications on the Danish cohort study on mobile phone subscribers and risk of brain tumors. Environmental Health Review, 2012. Disponível em <http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/22755267> Acesso em: 16 set. 2013

(4) International Agency for Research on Cancer: IARC Classifies Radiofrequency Electromagnetic Fields as Possibly Carcinoge NIC to Humans. Disponível em <http://www.iarc.fr/en/media-centre/pr/2011/pdfs/pr208_E.pdf> Acesso em: 1 out. 2013

(5) World Health Organization:  What are the health risks associated with mobile phones and their base stations? Disponível em <http://www.who.int/features/qa/30/en/> Acesso em: 1 out. 2013

(6) Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística: Acesso à Internet e posse de celular. Disponível em <http://teen.ibge.gov.br/en/noticias-teen> Acesso: 29 ago. 2013

(7) HANDELL, L.; CARLBERG, M. ; SÖDERVIST, F.; MILD KH; MORGAN LL. Long-term use of cellular phones and brain tumours: increased risk associated with use for > or =10 years. Department of Oncology, University Hospital, Orebro, Suécia. Occupational and Environmental Medicine, 2007. Disponível em <http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/17409179> Acesso: 29 ago. 2013

(8) Pedriatrics: Media Use by Children Younger Than 2 Years. Disponível em <http://pediatrics.aappublications.org/content/128/5/1040.full> Acesso: 29 ago. 2013