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Desafio Intermodal aponta para possíveis soluções para São Paulo, uma megalópole completamente tomada pelos veículos particulares

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O transporte público em São Paulo não é para iniciantes. A dificuldade para se locomover na cidade na hora do rush é inegável. Essa sensação ficou evidente na largada do 9º Desafio Intermodal, na Praça General Gentil Falcão, no Brooklin, na zona sul.

Organizado pela CicloBR, o Desafio Intermodal propôs que os participantes utilizassem diferentes meios de transporte. A aventura se resume a sair da região da Avenida Luís Carlos Berrini e se locomover até o prédio da Prefeitura de São Paulo ao lado do Viaduto do Chá, no centro da cidade, no ápice do horário de pico que entope a capital paulista. Segundo o organizador Felipe Aragonez, o evento não é uma competição, mas uma tentativa de analisar a eficiência dos meios de transportes urbanos. No total, as 11 pessoas inscritas oficialmente foram andando, correndo, de bicicleta, metrô, skate, carro, moto, ônibus e trem. Alguns fizeram parte do percurso com um tipo de transporte e parte com outro, como foi o caso do ciclista Thiago Benicchio, que foi de bike dobrável e metrô.

Animados, os participantes falavam do desafio de enfrentar o trânsito paulistano às seis da tarde como se estivessem prestes a embarcar em uma aventura semelhante a escalar o Monte Everest ou disputar o Rali dos Sertões.

Tudo isso porque, dependendo do meio de transporte escolhido, o jogo é duro. Tanto é que poucos se aventuram. Na verdade, havia mais pessoas da imprensa do que participantes na largada. O grupo maior presente no desafio é o das bicicletas e isso tem uma razão óbvia: elas são mais rápidas, muito mais rápidas.

Na edição desse ano, o ciclista Ricardo Bruns percorreu os 12 km do desafio em apenas 20 minutos. Venceu até a moto, que chegou em segundo lugar com um tempo de 23 minutos.

O desafio é dominado pelas bikes. Elas estão sempre nas primeiras colocações. Há uma obviedade latente no uso das magrelas em São Paulo. Elas são mais rápidas, ágeis, não poluem e, quando há uma rede razoável de ciclovias, podem ser um meio de transporte seguro e saudável.

Elas são a resposta mais razoável que parte dos moradores da cidade — aquela atendida pela rede de ciclovias — pode dar para o caos constante gerado pela insistência da maioria dos paulistas em utilizar um meio de transporte que as ruas da cidade não suportam mais: o carro.

Cidade dos automóveis

Durante muitas décadas, a cidade de São Paulo fez uma opção pelo carro particular. Isso produziu uma frota gigantesca, impossível de ser atendida por uma oferta maior de ruas. Para se ter uma ideia, entre 2003 e 2012, a frota de automóveis da cidade praticamente dobrou (aumentou 92%). No mesmo período, o crescimento da extensão de ruas foi de apenas 16%. Hoje, o número de veículos particulares da capital paulista supera os 5,4 milhões e as ruas não têm mais para onde crescer.

O resultado é um trânsito diário enlouquecedor. Ficamos horas e horas dentro dos carros. Uma pesquisa realizada pela Rede Nossa São Paulo, em 2013, apontou que os paulistanos perdem um mês do ano no trânsito da cidade.

O NAMU acompanhou alguns dos participantes do Desafio Intermodal. A equipe da qual eu fiz parte fez o percurso ao lado das duas pessoas que foram caminhando até o centro da cidade. Os participantes, Luciana Nascimento e Edson Nunes, levaram 1 hora e 45 minutos para completar o trajeto.

Calçadas detonadas

Os problemas enfrentados por quem prefere caminhar são a péssima sinalização, a falta de faixa de pedestres e as condições das calçadas. Em muitos casos, os dois participantes foram obrigados a andar na rua porque a calçada era intransitável. Também é preciso tomar muito cuidado com os motoristas que insistem em dirigir falando ao celular. Eles são um perigo para os pedestres.

Em alguns trechos do desafio – principalmente na região da Berrini –, Luciana e Edson percorreram calçadas cheias de gente, a maioria em direção a alguma estação de trem. Depois, na Avenida 9 de Julho, os dois pedestres, mesmo na subida, vão mais rápido que a gigantesca, barulhenta e poluidora fila de carros parados. O mesmo ocorreu na Avenida Faria Lima.

Após a região da Praça 14 Bis, pouco a pouco, quando nos aproximamos do centro, as calçadas se tornam vazias. Muitas delas são largas, mas o medo da violência, a falta de iluminação e a opção de quem prefere os carros, ônibus, trens e metrôs torna as calçadas um espaço vazio. Elas transmitem a impressão de uma cidade assustadora e deserta. Já quando há gente nas calçadas, o clima é completamente diferente, a cidade fica muito mais acolhedora.

A caminhada do desafio foi cansativa, afinal não é fácil percorrer 12 km a pé. No entanto, o passeio ofereceu alguns segredos à pequena comitiva. Há locais que só descobrimos quando estamos andando. São detalhes que humanizam a cidade e desvendam aos mais atentos a alma encantadora das ruas, tão rara nos dias atuais.

Participantes do Desafio Intermodal perfilados para largada

Resultados do 9º Desafio Intermodal SP 2014

1º Bike por vias rápidas - Ricardo Bruns - 20min09s
2º Moto - Victor Campos - 23min07s
3º Bike dobrável + Metrô - Thiago Benicchio - 46min15s
4º Ônibus - Paulo - 53min58s
5º Carro - Roberto Sekya - 59min45s
6º Trem + Metrô - Maria Salete - 01h02min19s
7º Cadeirante + Transporte Público - Kal Brynner - 01h03min24s
8º Pedestre correndo - Tatiana Lowenthal - 01h04min55s
9º Ciclista vias calmas - Jilmar Tatto - 01h27min03s
10º Skate - Eduardo Arcas - 01h32min45s
11º Pedestre caminhando - Luciana Nascimento - 01h45min08s

Confira os resultados dos outros anos


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