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O lixo que dá lucro

A reciclagem movimenta cerca de R$ 12 bilhões por ano no Brasil, gera empregos e ajuda a preservar o meio ambiente

Giula Afiune

A cooperada Rosimeire de Lima, 46 anos, separa papel de vidro, metal e plástico

Fim de tarde em São Paulo, um sedan preto, modelo 2013, move-se lentamente no congestionamento da avenida quando o condutor freia bruscamente, assustado com uma chuva de buzinas. O motorista engravatado avista, lá na frente, o motivo: uma carroça de madeira, abarrotada de papelão e decorada com penduricalhos diversos, atrapalha o trânsito andando devagar, arrastada por um tranquilo condutor.

Esta cena, que ocorre muitas vezes todos os dias em São Paulo, poderia ter como protagonistas dois trabalhadores do lixo. Assim como carros do ano e carroças de madeira disputam o asfalto, empresas de reciclagem concorrem com cooperativas de catadores de papel, vidro e latinhas de alumínio no mercado da gestão de resíduos sólidos. Para muitas pessoas, esse é apenas um nome pomposo, mas para esses trabalhadores ele significa a possibilidade de lucro – resíduos sólidos são todos os materiais que podem ser reciclados, enquanto lixo traz a ideia de que aquilo não pode ser reaproveitado.

Bom negócio

Os engravatados podem mergulhar em um mercado que movimenta cerca de R$ 12 bilhões por ano, segundo o governo federal. Já os catadores conseguem uma oportunidade de melhorar sua situação financeira. Gerar trabalho e renda para essas pessoas, além de organizar o setor da gestão do lixo, foram os objetivos da Política Nacional dos Resíduos Sólidos, de acordo com o advogado José Valverde Machado Filho, coordenador técnico da lei federal aprovada em 2010, após 20 anos de tramitação no Congresso.

“O Brasil tem hoje 600 mil catadores e a Política Nacional dos Resíduos Sólidos não podia desprezar essa quantidade de gente que já cumpre um papel eficiente e reconhecido nesse mercado”, explica o advogado. Segundo os Indicadores de Desenvolvimento Sustentável do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgados em 2012, o índice de reciclagem do alumínio atingiu 98,2%, em grande parte graças aos catadores de latinhas. Já os índices de outros materiais variam entre 22,2% e 55%. “O pífio patamar que a gente chegou de reciclagem se deve muito às cooperativas”, observa Valverde.


O catador Luciano Lotero Alves, conhecido como Babalu, abre espaço entre os carros 

Apesar da prioridade dada aos catadores, Valverde considera que a aliança entre cooperativas e empresas é necessária para dar conta da crescente demanda pela reciclagem dos resíduos sólidos. “Pelo volume ser muito grande, eu acredito que tenha que ser um modelo que também favoreça empresas privadas a atuarem no sistema de recolhimento.”

Méritos e problemas das cooperativas

Em São Paulo, cada um dos 20 mil catadores coleta uma média de 83 kg de resíduos sólidos por dia, de acordo com dados da Rede Cata Sampa, ligada ao Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis, o MNCR. Isso equivale a 33,2 mil toneladas de resíduos sólidos coletadas por mês.

Fundada em 1989, a Coopamare é a cooperativa de reciclagem mais antiga do Brasil. Os resíduos sólidos, trazidos tanto por dois catadores conveniados, quanto por moradores dos prédios vizinhos, são separados em vidro, plástico, metal, papel e embalagens TetraPak em um longo balcão por16 cooperados. Depois, eles prensam os materiais em fardos para serem comercializados.

Mas enquanto a equipe consegue processar e vender de 60 a 70 toneladas de resíduos por mês, 50 toneladas permanecem no local. “Nós não damos conta de [separar e vender] tudo”, explica Walison Borges, diretor da cooperativa. “Somos uma referência mundial, então não fechamos as portas para ninguém. Faça sol, chuva, feriado, Natal, fica aberto, então muita gente traz material para cá.”,

Entre os principais problemas que atrapalham o trabalho, Borges destaca a falta de parcerias com a prefeitura para melhorar a infraestrutura do local, que fica embaixo de um viaduto, na Rua João Moura, em Pinheiros, São Paulo. “O chão não ajuda, a elétrica é um caos. Quando chove, alaga e nós perdemos parte do material. Se melhorasse a infraestrutura, ia ajudar muito o operacional da cooperativa”, desabafa o diretor. Entre os 124 grupos organizados que realizam coleta seletiva em São Paulo, apenas 20 são conveniados com a prefeitura. A Coopamare não é um deles.

Além disso, com o crescimento da cultura da reciclagem, as cooperativas passaram a concorrer com empresas que oferecem o serviço, que ele chama de “atravessadores”. “Os grandes geradores de resíduos sólidos, como shoppings e supermercados, que são o ‘filé’ dos resíduos sólidos, hoje fazem a venda direto para atravessadores. Os supermercados Pão de Açúcar, por exemplo, são uma grande indústria que já prensa e revende todo o papelão que usa. Antigamente, isso vinha para nós”, explica.

Carroça com carga de papelão aguarda em um galpão de triagem de materiais para reciclagem
Chuvas e defeitos em instalações elétricas estão entre os problemas enfrentados pela Coopamare.

Apesar das dificuldades, os 18 cooperados da Coopamare conseguem lucrar por volta de R$ 900 por mês, descontando as despesas da empresa e o INSS referente ao salário de cada cooperado. Para Borges, a cooperativa mantém um compromisso social com seus membros. “Nós damos prioridade a pessoas de albergue porque a cooperativa surgiu deles, de moradores de rua, de quem morava embaixo do viaduto”, conta. “Nós damos mais ou menos três meses para as pessoas conseguirem uma casa, um aluguel e se chegam móveis aqui, nós doamos para eles. Tentamos ajudar quem quer se inserir na comunidade.”

“Vale muito a pena”

Enquanto isso, o mercado do lixo atrai cada vez mais empresas, como o Instituto Muda, responsável por implementar a coleta seletiva em condomínios residenciais de São Paulo. A empresa oferece os equipamentos adequados, treina moradores e funcionários domésticos para separarem corretamente os materiais e ainda transporta os resíduos até cooperativas conveniadas com a prefeitura, para onde são doados.

Alexandre Furlan, sócio-fundador da empresa, conta que o Instituto surgiu em 2009 como fruto de uma necessidade pessoal. “Queríamos implementar coleta seletiva no meu prédio. Antes eu levava os resíduos para o Pão de Açúcar, mas pensamos ‘por que não fazer no condomínio inteiro e já levar de todo mundo?’. Começamos a procurar empresas e cooperativas e não achamos ninguém que fizesse isso.” Apesar de não informar o faturamento da empresa, ele garante: “Vale muito a pena”.

Cresce a demanda por coleta seletiva

Em São Paulo, das 16 mil toneladas de resíduos sólidos produzidas diariamente, apenas 1,4% é reciclado, de acordo com a Secretaria de Serviços da Prefeitura. No Brasil, 64% da população não têm acesso à coleta seletiva, segundo pesquisa do Ibope, feita a pedido da ONG WWF-Brasil, em 2011. Dessas pessoas, 85% estariam dispostas a separar os materiais em casa, o que mostra a enorme demanda por esse serviço. Tudo indica que o número de carros do ano dirigidos por empresários do lixo e carroças de catadores só tende a aumentar, já que cada vez mais gente vai lucrar com esse poderoso mercado.