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No tai chi a dor nem sempre é vilã

Mecanismo básico de defesa do organismo, a dor ajuda a impedir que você ultrapasse seu limite

franciscojcesar / Pixabay / CC0 Creative Commons

Com gestos contínuos, o tai chi estimula canais e pontos pelo corpo por onde circula a energia vital

A dor é um mecanismo básico de defesa interna porque pode servir de ajuda no diagnóstico de doenças. No tai chi, é um indicativo de que a prática está sendo feita além do limite pessoal, forçando alguma parte do corpo, ou alertando que algo está desorganizado, ou ainda de que existe algum nível de desarmonia emocional ou mental.

Com a prática do tai chi podemos alterar nossa postura corporal em benefício de uma correção que envolverá todo o organismo. O desconforto poderá ser inevitável em algum momento, pois faz parte do processo que evidencia o realinhamento e recuperação do estado natural.

Mecanismo da dor

Ao realizarmos uma prática de tai chi para compensar uma vida sedentária, os músculos poderão estar contraídos por falta de exercícios e a mente, ansiosa. Essa contração pode comprimir algum nervo, que por sua vez pode sofrer uma inflamação se os movimentos não forem naturais e dentro dos limites pessoais (suaves e moderados). O nervo atingido, em geral, provoca ainda mais contração muscular. O ciclo contínuo se instalará e a dor, a princípio aguda, pode tornar-se crônica.

Quando a dor se intensifica, pode alterar a função da parte afetada. A parte afetada, na continuidade do processo de dor, influenciará outras partes do organismo. Ao mesmo tempo, a preocupação constante com a dor contribuirá com o desequilíbrio do sistema nervoso, agravando o quadro de desconforto.

A repetição frequente da movimentação harmoniosa do tai chi pode ajudar no desbloqueio dos caminhos da energia e do sangue, contribuindo para recuperar o estado de equilíbrio do local lesionado. A dor que envolvia a parte física do corpo tende a diminuir na medida em que o chi (energia) circula e a mente relaxa. Quando o estado emocional se estabiliza e se distancia da possibilidade da dor, o tai chi pode desenvolver-se com mais naturalidade.

Na continuidade da prática do tai chi, gradativamente a memória corporal desvincula-se da ideia de que alguma vez houve dor naquele local, afastando a possibilidade de seu retorno (no curto ou longo prazo). Por isso, ao desbloquear a energia estagnada, a chance de haver dor deverá ser menor, pois o sistema nervoso poderá deixar de reconhecer tal evento (o bloqueio e a dor).

Nossa força vital

Uma das características básicas da medicina tradicional chinesa é o conceito de chi ou energia vital. O tai chi, cujo significado da palavra indica o movimento contínuo do chi, pode ser uma das práticas de harmonização desta energia mantenedora da vitalidade.

Para os chineses, chi pode ser definido como bioeletricidade, força vital, vitalidade ou simplesmente energia. O chi está presente desde o nascimento, quando adquirido da ancestralidade, e durante toda vida. O chi também está na essência do alimento que comemos e do ar que respiramos, é o verdadeiro nutriente do corpo.

No nosso corpo, cada célula é nutrida por essa energia que permeia todo o universo e que também está presente na corrente sanguínea. Através do sangue que circula pelas artérias, o organismo é oxigenado e nutrido e mais células são banhadas por elementos nutritivos, promovendo uma interdependência de colaboração conjunta.

Relação de ajuda mútua

No tai chi, os movimentos estruturam-se sobre uma base firme e enraizada nos pés. Assim, o chi (a energia) nasce nos pés, se desenvolve pelas pernas, é direcionado pela cintura e chega suavemente às extremidades superiores, em um movimento de expansão. Antes de chegar ao limite da expansão, inicia-se seu trajeto de retorno, fazendo o mesmo percurso em sentido oposto, quando o movimento se recolhe juntamente com o chi.

Desde o pisar firme no solo até o soltar as mãos no ar estimulam-se constantemente canais e pontos pelo corpo que refletem cada parte do organismo e suas funções orgânicas e emocionais, promovendo contínua massagem em toda a extensão corporal e aquietando mente e emoções com a suavidade meditativa dos gestos contínuos e arredondados.

O caminho natural

Sangue e energia nutrem células, células nutrem organismo, organismo nutre mente, mente nutre emoção. De outro modo, se o sangue e a energia restringem a nutrição do organismo, uma desarmonia pode instalar-se. Se o organismo funciona de maneira desordenada, a mente é perturbada também. Com a mente perturbada, o estresse tende a se manifestar e o caos, a se alojar.

O sangue e a energia fluem deficientemente quando há barreiras que os impedem: os bloqueios e estagnações, que nem sempre acontecem involuntariamente. Um estilo de vida que dificulta a vitalidade do corpo (físico, mental e emocional) compromete o fluir natural do chi e da própria vida.

Equilíbrio e vitalidade

Ao praticar o tai chi, o chi que acompanha o sangue e os elementos nutritivos circula pelo corpo também através de canais específicos chamados meridianos (canais de energia), abastecendo o organismo e a mente. A rede de meridianos permite ao chi atingir todos os tecidos e órgãos fornecendo nutrição, calor e energia a todas as partes do corpo.

Durante a prática, é possível aumentar a concentração mental e o controle respiratório, melhorando a circulação sanguínea. Quando a postura está mais alinhada, ela facilita o fluxo sanguíneo que, por sua vez, auxilia o bom funcionamento das articulações, músculos e tendões, gerando um sistema nervoso regulado e livre de desconfortos.

Quando o chi flui livremente, o equilíbrio e a vitalidade se estabelecem. Se o chi é bloqueado, estagnado ou desequilibrado de alguma maneira, tensão, desconforto e dor se seguirão. Da mesma maneira, o reequilíbrio também poderá causar algum sofrimento ou dor.

O legado de Chuang Tzu (ou Zhuangzi), grande divulgador do taoísmo do século IV, transformou o budismo indiano na China em budismo ch’an, doutrina que no Japão é conhecida como zen. É atribuída a ele a seguinte reflexão: “Em todas as coisas, o caminho não deseja ser obstruído, pois se há obstrução, há colisão; se a colisão não cessa, há desordem; e a desordem fere a vida de todas as criaturas.”

Com o caminho mais desobstruído, haverá menos obstáculos e atritos. O chi poderá fluir, facilitando as funções de todas as partes do corpo. A mente torna-se mais livre para usufruir da criatividade que lhe é peculiar. O coração se alegra e constrói um ambiente sereno ao seu redor.

Foto: Brian Robinson / Flickr / CC BY 2.0


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