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Minhocão: mais um parque em SP?

O Plano Diretor prevê a desativação do viaduto e deixa duas saídas: o desmonte ou a criação de um parque

Alessandra Haro

Ativistas do Parque Minhocão lutam para que o viaduto continue a ser palco para lazer e manifestações culturais

Qual será o futuro do Minhocão? Há anos essa pergunta suscita discussões cada vez mais acaloradas sobre o que fazer com essa “cicatriz paulistana”. A desativação gradual do Elevado Costa e Silva para o tráfego de carros foi estabelecida como meta no Plano Diretor Estratégico (PDE) de São Paulo, aprovado em 30 junho de 2014. O mesmo documento propõe duas saídas de utilização: demolição ou transformação parcial ou integral em um parque linear.

Poucos meses antes da aprovação do PDE, vereadores apresentaram na Câmara o Projeto de Lei (PL) 10/2014 que pretende criar o Parque Municipal do Minhocão. De autoria de José Police Neto (PSD), o PL também prevê a desativação gradual do elevado para veículos individuais motorizados. O projeto já foi aprovado na Comissão de Constituição e Justiça e espera por votação dos vereadores no plenário.

Pessoas caminhando sobre o Minhocão

O desejo pela construção do Parque Minhocão, no entanto, está longe de ser unanimidade entre os moradores da região e também entre os especialistas. Em 2013, foi criada a Associação Parque Minhocão para defender os interesses de quem acredita na proposta de transformar o local em um parque. A iniciativa recebe apoio de artistas e ativistas como a jornalista Renata Falzoni. Em contrapartida, surgiram os movimentos Desmonte Minhocão e SP Sem Minhocão.

A ideia do desmonte não é nova, gestões anteriores dos prefeitos Gilberto Kassab, Marta Suplicy e José Serra já consideraram essa hipótese. Como o Minhocão foi construído em partes, a alternativa que causaria menos impacto seria desmontar o viaduto e não implodi-lo.

Para que o diálogo fosse expandido e todas as visões analisadas, foram agendados fóruns de diálogos na Câmara Municipal sobre o futuro da estrutura. Houve, até o momento, dois encontros. A solução parece estar longe de ser alcançada.

Pessoas caminhando sobre o Minhocão

Um ponto fundamental a ser mais considerado é a participação no debate de todas as partes envolvidas. "Qualquer que seja o destino do Minhocão, falta escutar a população vulnerável que vive ou transita pelo entorno do viaduto. Essas pessoas existem e as necessidades delas são históricas e urgentes”, enfatiza a jornalista Sabrina Duran, que faz reportagens investigativas sobre processos de gentrificação (valorização de uma área por meio da remoção direta ou indireta dos moradores mais pobres) na cidade.

Segundo a jornalista, a questão é assumir o que queremos: uma cidade democrática para a classe média ou uma cidade realmente acessível a todos. “Como não gentrificar a cidade quando se faz uma melhoria urbana? Eu não tenho a resposta, mas a primeira coisa a se fazer é ouvir quem nunca é ouvido”, sentencia Duran.

Faltam estudos técnicos para avaliar quais seriam as consequências para a cidade do desmonte ou da construção do parque. O que aconteceria com o mercado imobiliário na região? Quais seriam os custos de cada operação? Os problemas de saúde gerados pela poluição sonora e atmosférica poderiam ser solucionados com o parque ou apenas com a remoção do viaduto? Esses questionamentos continuam sem respostas efetivas.

Criança brincando com cães no Minhocão

A diretora do Movimento Desmonte Minhocão, Yara Goes, afirma que os problemas de saúde e segurança causados pelo Minhocão não serão resolvidos com o projeto do parque. “Haverá gastos na elaboração do projeto, na implantação, na manutenção da estrutura do parque sem resolver nenhum problema dos moradores”, diz Goes.

“O Minhocão já tem a vocação de parque”, contesta Athos Comolatti, fundador da Associação Parque Minhocão. “Ele atrai uma quantidade enorme de pessoas e manifestações culturais espontâneas sem nenhum incentivo, além de já ser utilizado por milhares de pessoas à noite durante a semana e aos domingos. Não se pode desconsiderar isso. Não é como a antiga Via Perimetral no Rio de Janeiro que sem carros perde totalmente sua utilidade. Ele é único, porque é central, tem acesso fácil pelos metrôs e está ligado à Praça Roosevelt”, argumenta Comolatti.

“Dizer que o Minhocão já é um parque espontâneo prova que isso não soluciona nada. Haverá novos problemas com ele, pois prefeitura terá de investir de forma pesada em uma manutenção absurdamente cara para manter uma feirinha de bugigangas ali em cima”, afirma Goes.

Minhocão à noite

A realidade é outra. Há diversas manifestações culturais que usam o Minhocão como palco. O grupo Esparrama, por exemplo, realiza peças de teatro da janela de um apartamento para o público que passeia pelo viaduto. Além disso, os cerca de 3 km do elevado são usufruídos como pista para caminhar, andar de bicicleta, skate, patins e, sobretudo, são desfrutados como um espaço para convivência. Um exemplo disso é o Minhocães, grupo que reúne moradores do entorno que costumam passear com seus cães no elevado.

“Aquilo que era o pior lugar da cidade passa a ser um dos melhores instantaneamente. É transformar o veneno em antídoto”, defende o crítico de arquitetura e membro da Associação Parque Minhocão, Fernando Serapião. Ele ainda reforça que há uma simbologia muito forte na transformação de uma peça urbana feita para o automóvel em uma área de lazer para população.

Os defensores do desmonte sugerem que sejam construídos espaços na Avenida São João para atender a demanda por lazer. “A solução é simples: desmontamos totalmente o Minhocão e fazemos várias áreas de lazer em pontos diferentes para contemplar a todos”, acredita Goes.

Arte na pilastra do Minhocão

“Um parque linear é uma área sem interrupção. Desde o Largo Péricles até a Praça Roosevelt há quinze faróis. Não seria a mesma coisa que um parque no viaduto”, diz Comollati.

A questão pode ser ainda mais complicada. Alguns moradores não concordam nem com o uso do Minhocão para lazer, já que ele foi fechado inicialmente em 1976 para propiciar silêncio aos que vivem no entorno. Segundo Serapião, os incômodos acontecem porque ainda não existem regras. “Todo parque necessita de regras. Há horário definidos para abertura e fechamento, além da guarda municipal. Ele teria as mesmas regras que qualquer parque”, pontua o crítico de arquitetura.

“Não adianta colocar apenas regras e normas de uso na parte de cima do Minhocão, porque, mesmo com elas, a poluição do ar estará presente, a poluição sonora é cada vez pior e a degradação da parte inferior continua sem solução”, contra-argumenta Goes.

As reclamações são muitas. São comuns casos de moradores que têm suas janelas atingidas por pedras e ovos. Além disso, o Minhocão é responsável por elevar a temperatura nos apartamentos dos primeiros andares dos prédios. Outra queixa é o barulho do trânsito na avenida abaixo do viaduto, que segundo alguns moradores, é ensurdecedor. Além desses fatores, há falta de privacidade para aqueles que têm as janelas próximas ao elevado. “Não é possível você admitir como razoável um viaduto na janela de qualquer cidadão”, diz a arquiteta e professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Mackenzie Anne Marie Summer.

Apartamento à venda próximo ao Minhocão

"A falta de privacidade é um problema, mas é possível criar barreiras com coberturas vegetais, por exemplo. O viaduto pode ainda ser estreitado nos pontos mais rentes aos apartamentos. O projeto do parque deve contemplar essas reclamações", sugere Comolatti.

“É uma obra viária em que o pedestre, o ciclista e o transporte coletivo, nossas prioridades do ponto de vista de mobilidade urbana, não fazem parte. Em termos viários, o Minhocão não faz sentido para nós”, afirma Ronaldo Tonobohn, Superintendente de Planejamento da CET-SP. A única certeza até agora é que após quase 45 anos de existência, o Elevado Costa e Silva, entregue em 1971 na gestão do ex-prefeito Paulo Maluf como promessa de desenvolvimento para a cidade, já não cumpre mais sua função.

Enquanto o tráfego de carros no Minhocão não é interditado de vez, espera por votação no plenário o PL 22/2015 que determina o fechamento permanente aos veículos motorizados todos os sábados, além dos atuais domingos, feriados e períodos noturnos durante a semana. O PL, também de autoria do vereador José Police Neto, já foi aprovado na Comissão de Constituição e Justiça.

Qualquer que seja seu futuro, é essencial e urgente considerar a necessidade das pessoas por mais espaços que permitam uma vida mais saudável e prazerosa na cidade São Paulo.

Fotos: Alessandra Haro

 

O primeiro Fórum de Diálogo sobre o futuro do Minhocão aconteceu no dia 3 dezembro de 2014 na Câmara Municipal e o segundo no dia 15 de abril de 2015. O terceiro ainda não tem data prevista.