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Em busca do parto ideal

Novo filme irá discutir a violência obstétrica e apresentar experiências de sucesso na assistência às gestantes

Carol Lara / Flickr: Brick Haus Photography / CC BY 2.0

"Vamos mostrar o que é o ideal na humanização do parto no serviço público de saúde", afirma Chauvet

A luta do diretor Eduardo Chauvet contra a epidemia de cesarianas no Brasil continua. Agora, ele volta suas lentes para o tema da violência obstétrica e para apresentar as experiências de sucesso na gestão de hospitais, no Brasil e no exterior. “Estamos buscando elementos para resguardar os direitos da mulher de não fazer uma cesariana se assim ela não quiser”, afirma.

Chauvet se tornou conhecido após produzir o filme O Renascimento do Parto, lançado em 2013. No documentário, feito pelo cineasta e pela educadora perinatal Érica de Paula, especialistas falam dos riscos, prejuízos e mitos envolvendo essa prática cirúrgica cujos índices de ocorrência se tornaram epidêmicos no país. Enquanto a recomendação da Organização Mundial de Saúde é de que apenas 15% dos partos sejam realizados por meio desse procedimento, a pesquisa Nascer no Brasil revelou que 52% dos partos feitos por aqui são cesáreas, número que sobe para assustadores 90% quando consideramos apenas o universo dos hospitais privados brasileiros.

O primeiro filme de Chauvet cumpriu seu papel. Foi o documentário nacional com a segunda maior bilheteria nos cinemas do país em 2013, com mais de 30 mil espectadores. No total, o longa percorreu 50 cidades durante 22 semanas. O sucesso foi tão grande que O Renascimento do Parto foi selecionado para festivais dentro e fora do país. Acabou sendo reconhecido pelo Palácio do Planalto e ganhando inúmeros prêmios. Porém, para o cineasta, mais importante foi ter estimulado o debate e ajudado a ampliar a consciência da população, que passou a discutir e pensar mais sobre as práticas adotadas em maternidades e hospitais brasileiros.

O próximo desafio de Eduardo Chauvet será ampliar esse debate e lutar contra um certo corporativismo existente na área médica. Para ajudar a viabilizar financeiramente o filme, foi criado um projeto no Benfeitoria, que levantou mais de 117 mil reais. O cineasta, que concedeu entrevista exclusiva ao Portal NAMU, falou sobre seu novo filme e as questões que ele aborda.

Quase dois anos após o lançamento, como você avalia o impacto do documentário O Renascimento do Parto?
A linguagem audiovisual é bastante impactante e tem um poder que poucas outras ferramentas possuem. Alguns pensadores contemporâneos apontam que um minuto de vídeo vale mais do que milhões de palavras. Por isso, é mesmo muito significativo você ter acesso a um documentário como é O Renascimento do Parto, com informações tão impactantes. Há uma resistência muito grande com o documentário no cinema brasileiro, o público é muito pequeno. Pensando nisso, nós desenvolvemos uma linha para que a gente pudesse ter um impacto maior e acredito que realmente conseguimos contribuir para mudar a mentalidade de várias pessoas em relação a essa questão do parto.

Que mentalidade era essa?
Basicamente é a ideia de que as mulheres não sabem, não podem e não dão conta de parir por si próprias. No geral, acho que a gente acabou contribuindo sim para o debate, para conscientização e para desmistificação desse grande folclore. Essa mentalidade geralmente vem de uma sequencia de mitos, de fatores culturais, de sistema, de indústria. Nos últimos 30, 40, 50 anos a gente foi bombardeado de diferentes maneiras. Fomos levados a acreditar em coisas absurdas, completamente folclóricas e nada científicas. Basta uma pesquisa básica na Organização Mundial de Saúde para conhecer estudos sérios, que incluem mais de 500 mil partos, como foi feito na Holanda.

Ou seja, estamos falando aqui de um universo gigantesco, não daquele caso da sobrinha da prima da tia, que passou por uma situação horrível. A fala do filme é nesse sentido, não viemos trazer casos individuais, não podemos fazer isso, temos de falar sobre grandes grupos, de um universo de 500 mil partos. Isso é necessário para trazer uma visão estatisticamente respaldada.

Você acha que houve avanços no debate após o lançamento do filme?
Eu acho que há um avanço sim, mas isso não deixa de ser o resultado de um processo do próprio movimento pela humanização do parto no Brasil, que já vem há anos. Eu sou um ativista dessa causa desde 2011, sou novinho, caí de paraquedas porque a minha ex-exposa, pesquisadora e educadora perinatal, trabalhava com isso e eu fui aprendendo dentro de casa. Mas eu sou produtor audiovisual, sou cineasta. O que aconteceu é que eu tive a oportunidade de produzir um filme sobre um assunto que começou a me instigar muito. Mas esse movimento começou lá atrás, na década de 1960. Esse movimento foi ganhando força, atraindo vários nomes e pessoas muito fortes que começaram a brigar muito e criar toda uma situação.

De tanto a gente bater nessa tecla, do cenário alarmante que se criou no Brasil, acho que a população começou a entender isso melhor. Até pouco tempo atrás, quando se falava em violência obstétrica, pensava-se que era uma grande viagem da cabeça das pessoas. Na verdade não é, a OMS reconhece a violência obstétrica como algo absolutamente real, factível. Se você pegar a lista do que é violência obstétrica, existem várias situações que comprovam claramente que essa mulher, esse bebê e essa família são influenciados por aquilo que está acontecendo ali naquela hora.

Qual a principal bandeira desse movimento e onde se espera chegar com toda a mobilização?
Estamos buscando elementos para resguardar os direitos da mulher de não fazer uma cesariana se assim ela não quiser. 70% a 80% das mulheres começam uma gravidez querendo parto normal, e no fim, 90% na rede privada terminam na faca. Alguma coisa está acontecendo no processo desse pré-natal e a gente sabe bem o que é: terrorismo. Há um interesse corporativo, industrial, sistêmico e financeiro que se sobrepõe aos interesses daquela mulher num momento importantíssimo da vida dela. Não estamos oferecendo o básico do básico, porque os direitos humanos, o direito reprodutivo daquela mulher não é respeitado. Por isso, todas essas ações.

Eu acho que gente vai conseguir reverter esse quadro, mas eu não consigo dizer quando. É um trabalho que vai levar um tempo, porque o negócio está enraizado há 40, 50 anos. São tantas mulheres que ainda não tem informação e acreditam que a cesariana é a coisa mais linda do mundo. Na verdade é mesmo, mas para quem precisa. Para quem não precisa, é uma coisa esquisita de se pensar. Você não precisa de uma cirurgia pra ir ao banheiro fazer uma necessidade fisiológica. Fisiologicamente falando, cerca de 90% das mulheres não precisam de uma cirurgia de grande porte, que vai cortar sete camadas do seu corpo para tirar uma criança lá de dentro. A cesariana é fantástica quando bem indicada e necessária.

E agora você está produzindo o O Renascimento do Parto 2. Qual a necessidade que você sentiu para produzir um novo filme e quais serão os temas abordados?
São vários eixos condutores. Vamos dar muita atenção à violência obstétrica, que gente toca no primeiro filme, mas não há um aprofundamento necessário, que nos permita entender melhor o que é isso. Estamos desenvolvendo um roteiro com depoimentos de mães e situações bem específicas. É um tema pesado porque envolve mutilação vaginal, que é a episiotomia não autorizada, que deveria ser abolida. Pesquisas científicas apontam para o fim dessa prática. Então, na verdade, é um filme pesado nessa questão da violência obstétrica, assim como o primeiro filme também é em alguns momentos.

Tem o caso da posição da litotomia, em que a mulher é obrigada a ficar deitada e ainda é amarrada. Quer dizer, é uma posição nada favorável pra expulsão desse bebê, criada unicamente para satisfazer o médico, para que fique mais fácil pra ele, porque se essa mulher tiver de cócoras, ele vai ter que ficar no chão. Mas há os casos nos quais a mulher fala: eu não estou aguentando, eu só aguento ficar deitada. Então que ela seja respeitada. O parto é dela, do começo ao fim. Então há menos intervenções médicas, menos violência obstétrica, menos cesáreas desnecessárias.

Existe ainda uma situação calamitosa, que é a cesárea eletiva, quando você marca uma cesárea sem indicação médica. E aí você pode estar colocando no mundo um bebê prematuro. A prematuridade tem crescido cada vez mais. Se o bebê ainda não disparou o trabalho de parto e você já está tirando aquela criança lá de dentro, há grandes chances de o pulmão dele ainda não estar pronto, o sistema respiratório também. Nesses casos, ele pode ter que ir para uma UTI. Tem toda uma preocupação com o bebê. Em uma cesárea eletiva você está correndo sérios riscos de ter um adulto com problemas respiratórios para o resto da vida. São rinites, alergias, asmas, que são problemas desencadeados pela não maturidade do sistema respiratório.

Eduardo Chauvet

Que outros temas serão discutidos além da violência obstétrica?
O contraponto é algo que não entrou no primeiro filme, que é a questão do atendimento público. Vamos mostrar o que é o ideal na humanização do parto no serviço público de saúde. A melhor referência que temos hoje no Brasil, disparado, é o hospital Sofia Feldman, em Belo Horizonte. Lá, existe toda uma estrutura de médicos quando a gestação é de alto risco. Há também equipes de enfermeiras obstetras e parteiras quando a gestação é de baixo risco. É um modelo internacional de humanização de parto e nascimento que esse hospital conseguiu imprimir. Nós vamos acompanhar as gestantes atendidas por esse hospital para mostrar que é possível termos um parto e um nascimento marcante e saudável, com direito a uma linda cesariana quando necessário. Isso não deve ficar restrito apenas para aqueles com condições de pagar.

Há também outros dois eixos muito importantes. Pretendemos apresentar dois modelos de referência internacional de qualidade em atendimento em parto e nascimento humanizado, onde a mulher é a protagonista da história. Vamos mostrar os modelos da Inglaterra, que oferece um atendimento público, e da Holanda, uma parceria público-privada, em um modelo misto. Queremos que isso sirva de modelo e de exemplo para que políticas públicas municipais e estaduais possam ser implementadas em qualquer lugar do Brasil. Na verdade, não é complicado. Precisamos apenas criar um sistema favorável.

O sistema hoje é completamente oposto ao que a gente precisa. É uma mentalidade que nós temos de mudar. Envolve planos de saúde. O ideal seria que nós não precisássemos disso, que fosse público, de graça, para todos, como é na Inglaterra. E além de apresentar esses modelos, devemos dar uma reforçada nas recomendações, diretrizes e pesquisas da OMS. Então, como foi feito no primeiro filme, não somos nós falando o que nós achamos, estamos oferecendo conteúdo de qualidade baseado em evidências científicas nacionais e internacionais.

O que esses modelos referência que vocês irão apresentar no filme têm em comum e merecem ser destacados?
Basicamente o que se coloca são as premissas da humanização do parto. É o protagonismo restituído à mulher, ela precisa ter informação de qualidade para poder fazer as suas escolhas. Se a mulher quiser parir no hospital porque ela se sente mais segura, ela vai para o hospital. Se ela quiser ir pra uma casa de parto, ela vai pra casa de parto. Se ela quiser parir em casa e é uma gestação de baixo risco, que ela venha a parir em casa. Isso é oferecer para a mulher o poder de escolha, mas para isso você precisa também oferecer informação de qualidade, não essa informação enviesada e deturpada que se pauta em mitos. Outro pilar fundamental que se fala nessas experiências exitosas é a da medicina baseada em evidências científicas. São prerrogativas de pesquisas com mais de 500 mil partos, Elas evidenciam como deve ser feito um atendimento sem intervenções médicas desnecessárias.

O que dispara o trabalho de parto é o bebê. A mulher e esse neném trocam fluxos hormonais, os quais vão fazer com que ele tenha uma qualidade de nascimento maior e melhor. Então são todos esses cuidados que dizem respeito aos procedimentos médicos éticos e científicos no atendimento de qualidade. Tudo voltado para o melhor resultado tanto para a mãe quanto para o bebê. Isso é o que há de comum nessas experiências e é isso que queremos mostrar no filme.

Em que fase da produção o projeto se encontra e quando o filme deve ficar pronto?

A gente ainda está na fase de captação de recursos, registrando em Ancine, em algumas frentes de incentivo fiscal, o que na verdade é fundamental para o cinema brasileiro, em vários países é assim. A gente emplacou ele no ProAC de SP, que é isenção de ICMS, de 100% de até 4% do IR da empresa. Estamos entrando também com a lei do audiovisual, que é a lei tradicionalíssima já via Ancine.

Essa plataforma que a gente registrou na Benfeitoria é mais pra que a gente pudesse ter uma situação que foi bem satisfatória no primeiro filme que é o fomento que causa a pré-estreias, a grande mídia, e aí a gente sai na Globo, na Folha de S.Paulo, no Estadão, em todas as principais cidades. Esse é um caminho muito saudável que a gente encontrou, de fazer com que as pessoas apareçam nas pré-estreias. O nosso planejamento inicial de lançamento da obra é para o segundo semestre de 2015.