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Ecovilas: dos anos 70 ao século 21

Agricultura orgânica, construções ecológicas e decisões circulares permeiam a vida nesses assentamentos

Ruth Slinger

Há mais de 20 nacionalidades entre os moradores da Ecovila Piracanga, situada em Itacaré (BA)

Descendentes diretas das comunidades hippies das décadas de 60 e 70, as ecovilas surgem por todo o mundo e levam a sério o ideal de um estilo de vida de baixo impacto ambiental. Se antes ocupavam lugares ermos e rurais, hoje elas são cada vez mais populares em áreas urbanas.

Permacultura

Os ideais e a ética da permacultura norteiam os rumos das ecovilas modernas. São três os seus princípios: cuidar da terra, cuidar das pessoas e partilhar os excedentes ao limitar o consumo. O termo permacultura origina-se de do inglês permanent agriculture (agricultura permanente), técnica criada pelos ecologistas Bill Mollison e David Homgren na década de 1970 na Austrália.

Com o tempo a ideia foi ampliada para “um sistema de planejamento para a criação de ambientes humanos sustentáveis”. A cultura da sustentabilidade gerou modelos de assentamentos baseados na permacultura e na valorização da economia regional para promover a cultural local, ao aliar tecnologias de baixo custo e decisões circulares.

No Brasil, diversas iniciativas de ecovilas, centros de permacultura, coletivos e redes sociais correlacionadas estão implantadas em uma rede significativa. Muitas estão reunidas na Rede Permacultura Social Brasileira, iniciativa voltada para estudantes, professores, pesquisadores e amantes da natureza.

O empreendedor social Ricardo Bortolato, cocriador e gerente da rede afirma que há 5.074 integrantes registrados, com 5.839 fotos, 660 vídeos e 1.581 postagens de blog. “O principal objetivo é informar e mostrar caminhos alternativos ao capitalismo, novas formas de se relacionar em rede, estimulando o comércio colaborativo e social, mapear pessoas e locais que fazem na prática essa mudança sustentável que queremos para o planeta”, explica.

Práticas sustentáveis

Enquanto a geração hippie perseguia apenas o ideal da “paz e amor” em suas comunidades alternativas, hoje a busca por um estilo de vida de baixo impacto ambiental, utiliza toda a tecnologia disponível para assegurar que esses assentamentos sejam realmente sustentáveis.

“O mundo muda, as pessoas mudam, nossas necessidades e anseios são outros. As comunidades dos anos 1970 experimentaram e inovaram no que podiam no momento, os recursos e tecnologias eram mais difíceis. Hoje temos a internet e o celular, portanto o mundo ficou menor no sentido da comunicação”, diz Bortolato.

Além do forte ativismo ecológico, as práticas adotadas nesses assentamentos passam pela produção orgânica local de todo alimento consumido, o uso de fontes de energia renováveis, a adoção de construções de baixo impacto ambiental, a prática da economia solidária e cooperativismo, preservação do ecossistema local, sistema de apoio social e familiar, incentivo à diversidade cultural e espiritual, entre outras.

“Não existe um ideal. O caminho é identificar, resgatar e promover a cultura local onde está inserida a ecovila ou comunidade. Uma ecovila pode produzir ou apenas prestar serviço”, define Bortolato.

Piracanga

Há quase dois anos a videomaker Ruth Slinger deixou a vida na cidade e se instalou na Ecovila Piracanga, localizada no município de Maraú, Bahia. Ela define a escolha do lugar como “sincronicidade”, já que tinha o plano de mudar para um lugar de frente para o mar, com coqueiros e vizinhos amigos, até seu aniversário de 50 anos. “Vi o site do lugar, descobri que podia pagar minha vinda, conheci e pedi meu canto. Voltei, medi e construí. Não procurei muito. Toda minha vida tive sorte para encontrar minhas casas”, conta.

Para ela, o melhor de tudo em Piracanga é a vida mais simples, “as cores mais vivas, o tempo, o céu, o vento. Adoro os pássaros, as árvores, andar por aí, encontrar pessoas”.

Praia na ecovila Piracanga, em Maraú, Bahia
Praia da Ecovila Piracanga, em Maraú, Bahia

Hoje a Ecovila Piracanga reúne pessoas de mais de 23 nacionalidades em 72 terrenos. Muitos apenas visitam o lugar, passam temporadas ou fazem trabalho voluntário. Em 2013, viviam efetivamente em Piracanga cerca de 120 pessoas, sendo pelo menos 35 crianças ou bebês.

Praia em Maraú, Bahia, vista a partir da ecovila Pircanga
Praia em Maraú, Bahia, vista a partir da ecovila Pircanga

Mas nem tudo é perfeito. A estrada de acesso é ruim e a dependência de energia solar cria algumas restrições, como “ter de desligar a geladeira à noite ou bombear a água em alguns dias”, conta Slinger. “Cada um tem seu próprio sistema de luz e água, que é muito caro. A maioria das pessoas nem tem geladeira, são veganas, então não sentem falta de coisas que gosto, como queijo e coisas mais mundanas”, brinca.

Ela mora no chamado “fundão”, uma área independente, tem a própria casa e carro. Na frente do terreno há um centro de desenvolvimento humano, onde ocorrem retiros e encontros. Também existe um grupo ligado a este centro, com seus lideres ou guias espirituais. “E todo dia tem muito trabalho de campo, plantar e colher”, diz ela.

Coqueiros e palmeiras na ecovila Piracanga, em Maraú, Bahia
Coqueiros e palmeiras na ecovila Piracanga, em Maraú, Bahia

Slinger conta que o lugar ainda é novo e está amadurecendo. Ela acredita que a tendência é que melhore a cada dia e destaca o novo empório de produtos orgânicos e o laboratório de permacultura.

“Aqui chega gente todo dia, umas vem outras vão, uns visitantes, outros habitantes. Há um fluxo contínuo, que gera muitos novos conhecimentos. Assim como tudo, em constante transformação”, diz Slinger. “Ecovila são as pessoas”, define Bortolato.

Fotos: Ruth Slinger