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Conversa que dá samba

De Freud a Martin Cooper: o psicanalista influenciou seus pares com a ‘cura pela conversa’. O americano, com a invenção do primeiro celular. Mas como fica esta conversa?

John Haslam / Flickr / CC BY 2.0

Conversa de bar rendeu clássicos da MPB e da literatura

Uma rápida pesquisa na internet pela palavra "conversa" resultará em aproximadamente 52 milhões de resultados. Entre os melhores, surgem alguns sobre conversas com bebês, animais ou estátuas. Imagens certamente que chamam a atenção, justamente, por sua contradição. Pois, conversar é um ato exclusivo dos seres humanos.

Conversa fiada, conversa afiada, conversa séria, conversa engraçada, conversa idiota, conversa de doido, conversa mole, conversa formal, informal, cruzada, compartilhada, de boteco, de analista, conversa para boi dormir. Uma boa conversa em Minas Gerais, por tradição, acontece na cozinha. Se você perguntar a um mineiro se ele conhece fulano, certamente ouvirá como resposta: sim, mas não de cozinha. 

Freud explica

O psicanalista austríaco Sigmund Freud (1856-1939) revolucionou o tratamento de sintomas psíquicos com sua proposta de “cura pela conversa” entre analista e analisando, ação que lhe valeu o título de pai da psicanálise. Com sua descoberta, influenciou muitos de seus pares, que aderiram ao método e avançaram em suas teorizações, como o psicanalista francês Jacques Lacan (1901-1981), que deu segmento aos estudos freudianos, mantendo a palavra como método de investigação da mente humana. A conversa entre quatro paredes é marca do início do século 20.

homens conversam num restaurante

Conversa de bar

Essa conversa parece estar ficando pesada. Vamos jogar conversa fora? Em um boteco, claro, regada a cerveja e ao som de lendários compositores que embalaram noites e noites da autêntica boemia carioca, mas exportada para muitos bares país afora até hoje. Entre os botecos de sucesso, do último verão de Maceió (AL), o Conversa de Botequim traz em sua parede principal as caricaturas dos sambistas cariocas Noel Rosa (1910-1934) e Cartola (1908-1980), do pai do samba paulista Adoniran Barbosa (1910-1982) e de Pixinguinha (1897-1973) - carioca que consagrou o chorinho. O nome do bar é uma homenagem à canção homônima e antológica, que Noel compôs com Oswaldo Gogliano, conhecido como Vadico, em 1935, e que reproduz uma típica conversa de botequim: 

“Seu garçom, faça o favor de me trazer depressa
Uma boa média que não seja requentada
Um pão bem quente com manteiga à beça
Um guardanapo e um copo d'água bem gelada
Feche a porta da direita com muito cuidado
Que não estou disposto a ficar exposto ao sol
Vá perguntar ao seu freguês do lado
Qual foi o resultado do futebol”

Entre tantas obras históricas da MPB, destaca-se a canção De conversa em conversa, elaborada pelo cantor e compositor mineiro Lúcio Alves, aos 13 anos, em 1940. No livro Chega de saudade, o escritor mineiro Ruy Castro conta que a letra teve apenas um copidesque de Haroldo Barbosa e, em 1970, ganhou gravação de João Gilberto no belo disco João Gilberto en Mexico

“Oi de conversa em conversa
Você vai arranjando um modo de brigar
Oi de palavra em palavra
Você está querendo é nos separar
Parece até que o destino
Uniu-se com você, só pra me maltratar
Cada dia que passa, mais uma tormenta
Que eu deixei ficar.”

pessoas conversam em piquenique

Conversa no Catedral

Qualquer bar é cenário para todo tipo de conversa e, talvez, por isso o escritor peruano Mario Vargas Llosa tenha escolhido um deles como cenário de seu romance preferido, Conversa no Catedral. É um nome de primeira para um boteco de quinta, que talvez não ocupe três das 581 páginas do livro, mas é o palco de conversas estonteantes sobre abusos políticos e sexuais, crimes, corrupção e a impunidade durante a ditadura militar no Peru, entre 1948 a 1956. 

Smartphones

O engenheiro norte-americano Martin Cooper inventou e testou o primeiro telefone celular nas ruas de Nova York, há 40 anos. A partir dos anos 1990, a telefonia móvel, hoje coroada com os samrtphones alterou de forma substancial a dinâmica das conversas. Se por um lado o aparelho facilitou a conversação, por outro bloqueou o encontro, o debate e a longa discussão sobre um tema. Tudo ficou reduzido a um número limitado de caracteres de alguma mensagem de texto ou voz.

Uma pessoa ao lado da outra não conversa mais, manda mensagem. Segundo cálculo da União Internacional de Telecomunicações, a agência de telecomunicações da Organização das Nações Unidas, em 2014 o número de telefones móveis chegou 6,9 bilhões de aparelhos. Qual o impacto disso na sociedade? Só um novo Freud poderia esclarecer.

Foto 1: Igor Schutz / Flickr / CC BY 2.0 
Foto 2: Drew Coffman / Flickr / CC BY 2.0