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Chi kung para conectar corpo e mente

Rodrigo Palma e Renata Maitino atualizam a prática chinesa para unir Oriente e Ocidente

antonika / Pixabay / CC0 Creative Commons

A prática do chi kung propõe três ajustes: da postura, da respiração e da mente

Em tempos globalizados, em que nos conectamos rapidamente através de ondas cibernéticas e satélites com o outro lado do mundo, não nos conectamos assim tão facilmente com as diversas partes de nosso próprio ser. Esta falta de conexão com nós mesmos pode afetar nosso sistema imunológico e aparecer sob a forma de sintomas variados e doenças.

Tendo observado estes aspectos da saúde integrada, em que corpo, mente e espírito se alinham e se transformam, há milênios o chi kung desenvolve-se como uma prática de consciência e saúde calcada na história da filosofia e medicina tradicional chinesa que ganha mais e mais adeptos no Ocidente.

Em São Paulo, dois pesquisadores unem os conhecimentos orientais e ocidentais propondo o chamado chi kung somático, em que os fundamentos da educação somática auxiliam na prática e entendimento dos tesouros do chi kung. Esta nova abordagem foi desenvolvida pela parceria de Rodrigo Gentil Palma e Renata Maitino quando perceberam que tinham pesquisas e experiências similares.

"Aproveitamos o conhecimento e metodologia moderna da educação somática para dar suporte e aprofundamento ao aprendizado do chi kung", observa Rodrigo Gentil Palma. Ele é acupunturista formado pela Escola de Medicina Oriental de São Paulo (Emosp), com aprimoramento na China em medicina tradicional chinesa, chi kung e tui ná. Em 1999, fundou com amigos o Instituto Ser Humano, uma organização não-governamental voltada para “a criação de espaços externos e internos onde o ser humano possa expressar seu pleno potencial em harmonia com o todo”.

Ajustes para o século 21

"Esta proposta do chi kung somático nasceu da necessidade de criarmos um sistema que pudesse acolher todas as jóias que colhemos nestes vários sistemas de conhecimentos somáticos em uma abordagem mais atual, porque somos ocidentais e acreditamos que o conhecimento pode se atualizar. Estamos pensando em como fazer funcionar no dia a dia, na frente do computador. É uma síntese daquilo que acreditamos que possa ajudar as pessoas, com o intento de fazer o aluno apreender o que é essencial", detalha Palma.

A prática do chi kung propõe três ajustes: da postura, da respiração e da mente. O objetivo é ajudar o praticante a perceber seu corpo, alinhamento, postura, articulações e órgãos. Depois vem o ajuste da respiração. Para a medicina tradicional chinesa, respiração e energia são sinônimos.

Em seguida, vem o ajuste da mente, para estar presente aqui e agora, aprendendo a refinar o foco da atenção, usando fluxos específicos da energia dentro do corpo. Um dos princípios fundamentais do chi kung consiste em aprender a captar e harmonizar no corpo energias que vêm da natureza, do céu e da terra.

O chi kung somático é organizado nestes mesmos princípios, começando com o corpo físico para depois entrar no energético e depois no mental/emocional. A educação somática mapeia vários destes sistemas. Comparado à medicina tradicional chinesa, o chi kung somático inova em aspectos como a didática e o aprofundamento na consciência corporal.

”Atualmente, temos uma capacidade intensa de comunicação. Imagine que na China essa tradição foi passada de mestre para discípulo, ou de pai para filho, com informações que circulavam apenas dentro da pequena estrutura familiar ou entre alguns poucos discípulos e de uma forma meio severa. Além disso, muitas pessoas que fazem o chi kung não estudam a medicina chinesa. Então, modernizamos a relação com este conhecimento, que é transmitido agora em uma sala de aula para pessoas interessadas.”

Refinar a prática

Palma diz também que a educação somática se utiliza de imagens, estudos da anatomia e da fisiologia, visualizações, exercícios de toque e atividades lúdicas, para que seja possível o que chama de construção corporal.  “Aprender a sentir os órgãos, seu volume, peso, como se adaptam durante os movimentos. São experiências específicas que dão conteúdo e vivência para a pessoa poder fazer a prática do chi kung com mais integridade, aplicando este conhecimento interno e mais profundo, que na prática do chi kung é natural, mas que vai sendo adquirido com o passar dos muitos anos. Nós trazemos desde o início”.

Outra inovação, completa, é a capacidade de transformar a prática do chi kung na percepção dos mecanismos da psique em relação às emoções e relações com os outros.

Chi kung e xamanismo

Uma das contribuições dessa síntese entre conhecimentos orientais e ocidentais proposta por Palma a partir de sua trajetória profissional é relacioná-lo ao xamanismo. "A origem de todo o conhecimento de cultivo interior da medicina chinesa é o xamanismo, que é um conhecimento natural. O chi kung é um desenvolvimento da tradição do xamanismo na China", afirma Palma.

"Na China, durante séculos, a abordagem foi mais xamânica. Se uma pessoa estivesse doente, por exemplo, acreditava-se que ela poderia ter um espírito maligno consigo, uma doença ligada a intenções perversas de pessoas, lugares ou espíritos inimigos, crença muito comum antigamente. E a medicina chinesa foi se distanciando disso. Esta concepção evoluiu com o tempo e chegou um momento em que o não se considerava mais uma gripe como um problema causado por um espírito maligno. Talvez o doente estivesse com uma invasão de vento frio, uma condição que na medicina tradicional chinesa aponta para um desequilíbrio energético."

Doenças e fatores climáticos

A medicina tradicional chinesa não contava com microscópios e não pesquisava  microorganismos. Relacionou, então, doenças com fatores climáticos. De acordo com essa tradição, as doenças têm causas externas, como os fatores climáticos - vento, frio, calor, secura - e causas internas, emocionais e mentais. Uma gripe é considerada uma invasão de vento frio ou vento calor. “Para a medicina tradicional chinesa, o resfriado é isto, o corpo está com a proteção fraca, toma uma lufada de um frio forte e este frio invade o corpo e se torna doença”, exemplifica Palma.

Animais xamânicos

“O xamanismo inca e maia tem três animais que representam os três níveis de desenvolvimento espiritual do ser. O primeiro é o puma, o segundo é a serpente, e o terceiro, a águia. No chi kung há três tesouros: corpo, energia e mente/emoções. O corpo físico, chamado de jing, significa essência. O corpo energético é chamado de chi. E corpo mental é chamado de shen, que significa mente, espírito e também coração. O corpo energético é o que liga a mente ao corpo físico.”

Palma relaciona o puma ao jing, essência, a serpente ao chi, energia, e a águia ao shen, mente/espírito. “Existem muitas relações entre estas práticas, o chi kung tem uma grande sincronicidade com o xamanismo. Nesta história dos animais encontramos o número três. Mas o número mais usado no xamanismo é o quatro, que é o número da terra, das quatro direções, que também vai ser bastante usado no chi kung, as quatro direções e a relação de cada direção com um elemento e um órgão", compara.

Elementos e o corpo

O leste é relacionado ao fígado, à primavera, ao elemento madeira e à cor verde. O norte, no hemisfério sul, é relacionado ao coração, ao verão, ao elemento fogo e à cor vermelha. O oeste é relacionado ao pulmão, ao outono, ao elemento metal e à cor branca.

O sul é relacionado ao rim, ao inverno, ao elemento água e à cor azul escuro. O centro das quatro direções é onde as quatro energias vão buscar força para se transmutar e está relacionado ao baço, ao período entre as estações, ao elemento terra e à cor amarela.

Excesso de emoções e o desequilíbrio

Para Rodrigo, "se pensarmos em uma pessoa iluminada, desperta, ela tem um corpo energético, físico e mental equilibrados, limpos das toxinas físicas, emocionais e mentais, para que a consciência possa se expressar livremente, plenamente. Esse movimento ocorre tanto para fora como para dentro, ao mesmo tempo criamos e recebemos o mundo de volta”.

Ele explica que estas toxinas são padrões de pensamentos negativos que abaixam a vibração pessoal: julgamentos, críticas internas, crenças limitantes. “As emoções são naturais aos seres humanos, mas o excesso de emoções negativas se torna um problema”, comenta.

Alquimia taoísta

Uma pessoa que está sempre irritada, cheia de fúria, raiva ou deprimida pode estar cheia de toxinas liberadas por estes padrões desequilibrados, segundo o terapeuta. “Alguém muito ansioso, por exemplo, criará um sistema mental para sustentar este padrão, corporalmente sentirá o peito mais oprimido, pode apresentar pressão alta, taquicardia constante, desenvolvendo padrões corporais que sustentam e são sustentados pela emoção e pelo pensamento negativos, tudo junto e misturado. Uma pessoa com corpo energético mais limpo também vai sentir raiva, mas a emoção vem e vai rapidamente.”

O terapeuta explica que chineses fazem esta limpeza nos três níveis: físico, energético e, depois, mente/emoções. “Existe uma teoria do taoísmo que é assim: o jing/essência se transforma e chi/energia. A energia se transforma em shen/mente/espírito. E o shen retorna ao Tao. É um processo alquímico interno, é alquimia taoísta.”

Jing é a fonte

Palma lembra que na visão taoísta que rege o chi kung, a pessoa precisa se desenvolver fisicamente se quiser aperfeiçoar-se no autoconhecimento. “O jing, a essência da vida, vai se transformar energia em chi, que vai se transformar em shen. Toda nossa vida depende de jing, que é a base yin e yang do corpo, que uma vez trabalhado aumenta nossa capacidade energética como também nossas possibilidades de crescimento", aconselha ele.

Foto: Divulgação; 


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