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Acessibilidade na hora do rush

Nossa reportagem acompanhou o caminho de um cadeirante utilizando trem e metrô no Desafio Intermodal 2014

Sandra Adami

O paracanoísta Kal Brynner encarou metrô e trem lotados e fechou o percurso em pouco mais de uma hora

A impressão que se tem ao chegarmos na hora do rush na estação Pinheiros, que faz a interligação entre trem e metrô na cidade de São Paulo, é a de que estamos em meio a um formigueiro humano. Se para qualquer pessoa o trajeto exige cuidado e paciência, imagine então para alguém em uma cadeira de rodas. Essa foi a experiência de um dos 11 participantes do Desafio Intermodal 2014. Eles foram da Praça General Gentil Falcão, na região da Berrini, até a sede da Prefeitura de São Paulo, no centro.

O escolhido para o desafio foi Kal Brynner, de 24 anos, atleta da seleção brasileira de paracanoagem e 1º lugar no pan-americano do México, realizado neste ano. Natural de Brasília, o jovem perdeu o movimento das pernas após um acidente de carro em 2008. Morando em São Paulo há pouco mais de um ano, ele não tinha o costume de se locomover de transporte público pela cidade e fez o percurso pela primeira vez.


O Desafio Intermodal contou com 11 participantes que fizeram o trajeto em modalidades de transporte diferentes

Trajeto

A saída aconteceu às 18 horas, e já nos primeiros momentos do desafio, no caminho entre a praça e a Estação Berrini da CPTM, Kal se deparou com dificuldades para se locomover entre as pedras das calçadas portuguesas da cidade. Nenhuma novidade para os cadeirantes que transitam por São Paulo. A solução foi descer um degrau e andar pela rua por alguns momentos.

Dentro das estações, o percurso foi mais tranquilo e contou com a gentileza de outros passageiros tanto para entrar quanto para sair dos trens. Kal também foi seguido por alguns acompanhantes e funcionários da CPTM e do Metrô. Na estação Pinheiros, os elevadores garantiram agilidade e permitiram que o cadeirante não precisasse se encurralar em meio ao “mar de gente”.

Na transição entre as linhas vermelha e amarela da estação República, a falta de indicação nos elevadores atrasou a viagem em cerca de 10 minutos. “A sinalização deixou a desejar e a gente bateu um pouco de cabeça até chegar no lugar certo. Peguei um elevador mas caí no lado errado da plataforma e tive subir de volta e pegar um outro, mais distante, para ir em direção ao Anhangabaú”, contou Kal. Com a estação muito cheia, o trajeto ficou ainda mais demorado.

Por fim, o desafio final: a rampa de saída da estação Anhangabaú em direção à Libero Badaró. Íngreme, a subida não foi um grande empecilho para o canoísta, dada sua experiência com os remos e a força nos braços. Uma outra pessoa naquela situação provavelmente precisaria contar com a ajuda de outros usuários ou funcionários do metrô. Antes de chegar, no caminho para a Prefeitura, uma ‘grelha de ventilação’ no meio da rua exigiu que Kal passasse com a cadeira de lado para garantir que não ficasse presa entre os vãos.

O trajeto foi finalizado com uma hora e três minutos de duração, cerca de 10 minutos a mais do que o tempo alcançado na edição passada do Desafio, explicados pelo atraso na estação República. “Valeu, achei que teve uma acessibilidade legal, foi tranquilo, só faltou mesmo a indicação nos elevadores. Fora isso, a maior dificuldade foi andar nas calçadas”, afirmou o jovem.

Kal sabe, no entanto, que a realidade é bem mais dura. Encarar esse trajeto diariamente, sozinho, poderia ser uma experiência muito menos agradável. Segundo números cedidos pela Secretaria de Transportes Urbanos de São Paulo, no Metrô, todas as estações são acessíveis e possuem uma equipe de funcionários para auxiliar pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida. Já a CPTM apresenta condições adequadas para esses usuários em menos da metade das 92 estações. A companhia garante estar investindo para mudar essa situação.


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