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As razões das nossas emoções

Entenda por que as técnicas de atenção plena atuam na regulação dos sentimentos e ajudam a manter a mente calma e focada

Flickr / martinak / CC BY 2.0

A regulação das emoções no cérebro pode ser feita pelos mecanismos ligados à concentração e meditação

Imagine a seguinte situação: você encontra sua mãe e diz “essa mulher é igual à minha mãe. Mas não é ela, só pode ser uma impostora”. Conforme uma palestra proferida pelo neurologista indiano Vilayanur Ramachandran, no TED Talks, esse é um quadro neurológico de uma condição chamada Capgras delusion (síndrome de Capgras), na qual um indivíduo que sofreu um dano cerebral em uma rota específica do cérebro deixa de reconhecer outra pessoa conhecida ou a si mesmo.

A uma característica importante dessa condição neurológica é que tanto a área responsável pela visão e reconhecimento de faces, o córtex visual e o giro fusiforme, respectivamente, estão intactos. A falha encontra-se na rota que liga este último à amígdala cerebral, região responsável pela interpretação emocional dos estímulos. Não basta ver algo ou alguém, é necessário integrar a visão ao colorido emocional que caracteriza o objeto em questão.

Essa condição, assim como a de pessoas que possuem algum dano na amígdala cerebral, ajuda a mostrar a importância da emoção para a adaptação e socialização humana. Contudo, se a falta do colorido emocional, ou a distorção do reconhecimento de emoções, tem o potencial de gerar prejuízos, o descontrole da experiência emocional, como excesso de medo, raiva, tristeza, entre outros, pode ser igualmente problemático. Um dos focos de estudo da psicologia cognitiva e das neurociências é entender como, por meio do controle voluntário e cognitivo (top-down), o ser humano pode exercer maior domínio sobre a forma com que processa, interpreta, sente e reage às emoções, cujo processo é conhecido como um tipo de regulação emocional.

O processamento das emoções

Se controlar as emoções nem sempre é uma tarefa fácil, tampouco é estudar e definir comportamentos tão complexos de forma objetiva. Do ponto de vista da psicologia cognitiva e da neurociência cognitiva, entende-se que a experiência emocional resulta de diferentes fases de processamento. Na base desta cadeia estaria a resposta de orientação da atenção a pistas ou gatilhos percebidos como emocionais que podem ser geradas internamente ou vir do meio externo. Essas pistas produzem uma mudança na dinâmica, ou seja, na comunicação e na função, dos sistemas neurais, o que leva a uma nova organização cerebral. Dessa configuração surgem níveis complexos de interações que resultam em estados internos (a experiência mental e psicológica).

Esses estados, quando perduram, transformam-se em aprendizagens, que por sua vez facilitam respostas automatizadas aos estímulos geradores desta cadeia. As pistas passam a ser ainda mais facilmente percebidas como estímulos emocionais, com maior probabilidade de desencadear uma resposta. Muita vez as pessoas podem aprender a ser mais responsivas a determinados estímulos de forma desadaptativa, ou seja, com algum tipo de problema ou sofrimento.

Outra característica do processamento emocional refere-se à configuração natural do cérebro, especialmente da amígdala cerebral, para processar estímulos emocionais de forma muito automática mesmo que uma aprendizagem ainda não tenha ocorrido ou forma não consciente. Nesse sentido, que diz-se que há uma automaticidade inerente ao processamento da amígdala cerebral com relação a algumas classes de estímulos emocionais (por exemplo, você não precisa aprender que a cobra é perigosa para ter uma resposta reflexa de fuga ou paralisia caso encontre uma na sua trilha). Portanto, parece que o cérebro está programado a dar respostas instintivas que auxiliam na nossa sobrevivência.

Contudo, para que isto ocorra de forma completa e efetiva, não basta apenas a amígdala cerebral entrar em ação. Quando tal região é rapidamente ativada, ela também ativa outras áreas do cérebro que serão importantes para o processamento consciente do estímulo emocional. Assim, sabe-se que a amígdala cerebral influencia outros sistemas, entre os quais estão as áreas visuais (a fim de amplificar o processamento desde um estágio sensorial inicial), as áreas envolvidas na orientação (ou seja, processos atencionais necessários para detectar e perceber a situação) e na sustentação de um estado de alerta (para podermos monitorar a situação e selecionar uma resposta).

A relevância da atenção

Com base na dinâmica de funcionamento exposta acima, fica clara a importância de que possamos ter maior controle sobre o estágio inicial de orientação e seleção dos estímulos emocionais, já que essa fase pode desencadear uma série de processamentos, reações internas, aprendizagens e comportamentos subsequentes. Por esse motivo, no caso de pistas emocionais, o controle do seu processamento, mesmo em uma fase inicial, tem sido interpretado como uma habilidade de regular as emoções.

Assim, não surpreende que cada vez mais o controle atencional venha sendo considerado um recurso que pode facilitar a regulação das emoções. Um maior controle tanto da orientação como da atenção seletiva tem sido considerado chave, pois esses processos atencionais estão envolvidos na cadeia de processamentos de estímulos (sejam eles emocionais, ou de outro tipo) desde um estágio precoce. Portanto, a ideia é que quanto mais precoce for a fase em que se busca desempenhar um maior controle cognitivo, maior pode ser a chance de regular uma cascata de processamentos subsequentes que influenciam a experiência completa (e talvez duradoura) da emoção.

Ao considerar que um processamento automático caracteriza-se justamente por não depender da consciência, entende-se que treinar um maior controle da atenção e do automonitoramento pode constituir um dispositivo essencial para que um processamento mais controlado e voluntário se sobreponha ao automatizado. É por esse motivo que atualmente, na psicologia, existem várias intervenções terapêuticas baseadas em treinos atencionais.