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Psicoterapia breve na emergência

A difícil missão de levar acolhimento para traumas físicos e psíquicos em um cenário de dor e desespero

YJ-Lee / Flickr: 아름다운 사람들 / CC BY-ND 2.0

A vida pulsa em um ritmo diferente em um hospital que atende vítimas de trauma e emergência. A relação entre os diferentes indivíduos passa pela dor e pelo sofrimento físico, entrelaçados com o desespero psíquico daquele que agoniza com uma lesão e ferimento graves.

No intervalo entre o trauma físico e psíquico, surge o espaço da psicoterapia breve. Dar voz ao desespero e deixar brotar o pedido de ajuda escondido no sofrimento e na dor é o trabalho do psicólogo em um espaço institucional de vida e de morte.

Passo a passo do acolhimento

Vamos considerar uma unidade de tratamento intensivo para queimados. Os gritos de dor de alguns pacientes ocorrem em razão da destruição dos tecidos da pele, a epiderme e a derme. Como a inervação permanece intacta, ela traz a percepção de uma dor inominável.

Após ser medicado para diminuir a dor, o paciente é submetido a um procedimentos médicos, de enfermagem e fisioterápicos durante sua internação. Isso sem contar a possibilidade de ele falecer, algo comum nesses tipos de casos.

O trabalho do psicólogo em uma terapia breve é acompanhar a trajetória desse tipo de paciente. O primeiro passo é fazer uma entrevista com os familiares para obter dados sobre hábitos, personalidade, estrutura familiar, relacionamento social, traumas anteriores (em caso positivo saber como reagiu), além de informações importantes ao longo da internação, como histórico de doença mental, abuso de substâncias psicoativas etc.

Depois, com o paciente em melhores condições, inicia-se a abordagem com questionamentos sobre suas dúvidas, dores, medos etc. Se a relação com a equipe da unidade for afinada, o psicólogo poderá falar das diferentes etapas do tratamento (banhos diários, enxertia e outros procedimentos pertinentes) e reforçar o que já tenha sido dito pelos demais profissionais.

Aos poucos o psicólogo realiza uma entrevista clínica que envolve saber a história de vida do paciente e gradativamente estruturar o pensamento clínico, que envolve as etapas de elaboração de hipótese diagnóstica, prognóstica, objetivos e plano terapêuticos.

Suporte para formação de vínculos

Como inicia-se de forma gradativa um vínculo de confiança entre as partes, é importante que o psicólogo, juntamente com a equipe médica, forneça ao paciente dados precisos sobre as diferentes etapas do tratamento. Isso permite ao profissional aompanhar o desenvolvimento do paciente tal como lhe foi explicado.

Tal procedimento fornece ao paciente uma noção de continuidade e menor impotência sobre o processo de recuperação. Também permite que ele colabore com os diferentes procedimentos a que é submetido, como banhos e medicação, por exemplo.

Além do atendimento ao paciente e aos familiares, o psicólogo deve muitas vezes intermediar a relação entre eles e os demais profissionais, pois a demanda psicológica intensa às vezes se sobrepõe à biológica, o que prejudica a ajuda necessária no processo de recuperação. Essa intermediação pode ser feita em entrevistas conjuntas para esclarecer atritos, diminuir dificuldades de comunicação e buscar o bem-estar do paciente.

Essa melhora pode ser observada na adaptação do paciente às rotinas da unidade, na colaboração ativa nos procedimentos médicos e de enfermagem, na diminuição da percepção da dor, além da aderência à alimentação e à medicação dada com mínimo desconforto e sofrimento possíveis. A consultoria da equipe é fundamental, pois auxilia a desenvolver um melhor acolhimento.

Visão além da dor

O processo de recuperção do paciente, que envolve compreender o sofrimento do paciente e incentivá-lo a descobrir formas ativas de auxiliar em sua recuperação, só é possível se o profissional não se intimidar com o trauma físico.

É necessário enxergar além da lesão, entrar em contato com a pessoa que estava ali antes do trauma (personalidade pré-mórbida), seus anseios, sofrimentos, desejos e sonhos, para que seja possível fazer emergir um indivíduo capaz de ter esperança e lutar por sua vida em um momento de muita dificuldade.

O objetivo da psicoterapia breve é mobilizar todos os recursos de personalidade saudáveis do paciente o mais rápido possível para que ele possa enfrentar o trauma psíquico, que na maioria das vezes se estrutura em uma situação de emergência. Essas situações e dificuldades são vistas diariamente em hospitais, como nos casos de amputação traumática de um ou mais membros, lesões de para ou tetraplegia, ente outras.

Tratamento personalizado

A psicoterapia breve é o instrumento que o psicólogo dispõe para auxiliar a promover a união do pensar com o sentir em um ambiente onde fazer brotar vida e esperança por entre sofrimento e morte é um grande paradoxo e desafio.

Não há uma técnica padrão para todos os casos. Cada paciente e situação exige uma abordagem única. A criatividade e a qualificação técnica são os ingredientes fundamentais na união entre fazer ciência de forma artesanal e fazer arte cientificamente.