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Os mitos da luta contra a corrupção

As manifestações de março evidenciam uma polarização mais calcada no preconceito do que na reflexão política

JulianiPhotos / Flickr / CC BY 2.0

As cores verde e amarela surgiram nas manifestações como atributo de defesa da ética e da moralidade

Ao que tudo indica, chegamos ao fim do ciclo iniciado pelo ex-presidente Fernando Collor de Mello da “abertura os portos”, que seguiu oscilante e redefiniu um novo modelo de Brasil entre os governos dos ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso, Luís Inácio Lula da Silva e da atual presidenta Dilma Rousseff. Esse intervalo aparentemente deu certo no âmbito de seus objetivos e premissas em torno da redemocratização do país. E porque deu certo, também deu errado e se acabou. Como todo ciclo, voltamos ao ponto de início. Afinal, não foi o afastamento de Collor, em meio à corrupção e ao aparelhamento do Estado, que deu origem a este novo momento da República brasileira?

Analisar as manifestações de março de 2015 é um trabalho difícil. Elas trouxeram para os analistas políticos e para os teóricos da sociedade alguns fatos estranhos. Um deles é: as grandes lideranças associadas a tais movimentos são, ao mesmo tempo, repudiadas por boa parte das pessoas comuns que neles tomaram parte. Os sinais contrários, formados em torno da rejeição unânime do Governo Federal e da corrupção, não assumiram uma forma partidária e institucionalizada. Pode-se dizer que elas retomam o espírito de indeterminação das passeatas desencadeadas em torno da redução da tarifa de ônibus em São Paulo, em 2013, e do Movimento Passe Livre, que, após sua vitória em primeira instância, também deixou em aberto os motivos de sua agregação.

Apesar dessa similitude genérica com os movimentos de 2013, uma grande novidade pode ser percebida nessas últimas manifestações: a aparição de cartazes com mensagens de ódio que se situam entre o humor involuntário, a ingenuidade reveladora e a soberba ignorância. Com base em cartazes, palavras de ordem e ideais presentes nas manifestações, elaborei uma espécie de roteiro para os que estão “perdidos” em meio ao tiroteio de uma “noite suja”. O objetivo não é encontrar alguma ordem, muito menos progresso, mas mostrar do que é feita essa espécie de lógica do desentendimento generalizado que tomou conta do país:

1. “People emanate: constitutional military intervention already”

Em um dos cartazes mostrados durante a manifestação de 15 de março de 2015 em São Paulo era possível ler a seguinte frase em inglês: “People emanate: constitutional military intervention already”. Uma tradução generosa diria: “O povo emana: intervenção militar agora”. Contudo, a construção denuncia um problema nacional lendário, a saber, que é a valorização do “estrangeiro” como índice de classe ou posição social superior. Um cartaz em inglês ou francês, como se viu em profusão, se endereça a qual público? A pretensão de superioridade cultural cria situações ridículas como esta, uma vez que a palavra “already” é usada em vez de “now” para designar o agora. Sugere ainda que a intervenção militar já se deu, pois requer o tempo verbal no passado, nunca no imperativo. Além disso, a ideia de que o povo “emana”, no sentido de “exalar” ou “aflorar”, reforça esse nosso típico e bem brasileiro desencontro com a língua, que ao escolher uma palavra complexa e rara imagina que ninguém vai de fato levar a sério a impropriedade pronunciada.

2. Sou coxinha porque trabalho duro e pago meus impostos

A igualdade criada pelo fato de que todos nós pagamos impostos é uma antiga tradição norte-americana pela qual o fisco representa uma espécie de lei inexorável da qual ninguém escapa, imortalizada no ditado “like death and taxes” (como a morte e os impostos). Contudo, o tipo social recém-estabelecido em torno da figura do “coxinha” jamais seria criticado por sua dedicação ao trabalho, muito menos por sua observância da lei. Um “coxinha” é alguém que justamente não consegue discernir muito bem entre a obediência às normas e a importância da crítica dos costumes. Por isso, ele incorre na subserviência a ideais e práticas puramente imaginários de convivência tradicional. A crítica ao “coxinha” é de que se trataria justamente de alguém excessivamente conformado, submisso e incapaz de crítica. Dizer que paga impostos, considerados altos no Brasil, e que trabalha duro, admitindo-se o trabalho como valor consensual de nossa norma social, apenas confirma que o “coxinha” é “coxinha”.

3. Basta de Brasília: o Sul é o meu país

Uma declaração separatista. Imagina-se que os problemas do país diminuirão se nos livramos do lugar geográfico onde está sediado nosso governo e outras partes mais pobres do país. Externaliza-se o raciocínio de que o mal tem a estrutura de um “objeto intrusivo”, que uma vez eliminado, separado ou purificado, nos levará de volta à harmonia e à bem-aventurança que antes reinava heroicamente. O raciocínio não apenas é obviamente falso, mas ressoa também com o que há de pior em termos de preconceito: o sul contra o norte, os puros contra os impuros. Uma lógica que só pode terminar com o pensamento de que o Brasil deve se resumir ao condomínio dos ricos e civilizados de um lado e os bárbaros corruptos e segregados para além dos muros ou nas prisões.

4. Se a situação não muda, o Brasil vira o GTA

Como se já não vivêssemos em uma versão do videogame norte-americano Grand Theft Auto (GTA), conhecido pelo fato de que os heróis são na verdade bandidos que cometem violências que vão desde ataques a policiais até estupro, ganha força a célebre frase do escritor italiano Giuseppe Lampedusa: “algo deve mudar para que tudo continue como está”. Afinal, se Dilma Rousseff sair, quem entrará? Michel Temer ou Eduardo Cunha? Parece-me que continuamos na mesma fase do videogame.

5. Antes 7 da Alemanha do que 8 da Dilma

Essa é uma colocação que remete à atualidade do rebaixamento de nosso orgulho nacional. A derrota para a Alemanha pelo placar de 7 a 1, na Copa do Mundo realizada no Brasil, poderia ter reativado nosso antigo complexo de vira-lata, descrito pelo dramaturgo Nelson Rodrigues, depois da derrota na Copa de 1950. Nós brasileiros temos uma paixão pela inferioridade que torna difícil nos autorizarmos a vencer. A ideia era promissora. Mostrar que não nos orgulhamos de nossa presidenta, que ficará oito anos. Sentimo-nos humilhados por ela, sua presença nos impinge o sentimento de derrota. Contudo, não foi o jogador alemão Bastian Schweinsteiger que elegeu Dilma Rousseff para mais quatro anos. Depois da derrota para a Alemanha, na hora em que podíamos dizer clara e abertamente nosso desejo de mudança, chamamos novamente o técnico Dunga para dirigir a seleção. Em meio ao mar de indignação, nenhum cartaz dizia: “Reforma na CBF já”. Realmente, ainda não aprendemos a perder.

6. Prisão para o Karl Marx de Guaranhuns

Chamar o ex-presidente Lula de Karl Marx de Guaranhuns é uma comparação bizarra. O filósofo alemão nascido em uma família burguesa, que passou a vida redigindo para jornais conteúdos filosóficos e econômicos e morreu na pobreza, é comparado com um torneiro mecânico, nascido na região Nordeste do Brasil e que chegou à presidência pelo voto direto. A frase sugere uma impropriedade total no sentido da comparação. Pensemos em algo como “O Hegel de Pirapora” ou “O Freud da Freguesia do Ó” para termos uma ideia de como a tentativa de estabelecer uma comparação agressiva pode ser apenas uma autodenúncia involuntária sobre o mal uso de metáforas em meio ao nosso complexo de grandeza linguística.

7. Se eu sou um coxinha você é um enroladinho

Aqui o problema do caso anterior foi superado. A comparação é boa, porque coxinhas e enroladinhos são dois tipos de quitutes que encontramos na padaria. A formulação funciona também porque sugere que você está sendo enganado, ou melhor, “enrolado” por nosso sistema político. Mas a coisa desanda, porque em tese o cartaz é mostrado para as outras pessoas da manifestação, que estão na mesma posição enunciativa do “coxinha”. Os “enroladinhos” seriam aqueles que votaram em Dilma e não participaram das manifestações.

8. Chega de doutrinação marxista: basta de Paulo Freire

A frase, contestada até mesmo pela ONU, retoma uma antiga ideia usada para degradar o pensamento de esquerda, ou seja: “os comunistas comem criancinhas”. A ideia reúne nossa antiga paixão totemista (sistema de crenças em que indivíduos desenvolvem afinidade ou relacionamento místico com uma entidade espiritual, como uma planta ou animal, e que interage com grupo ou pessoa para servir como seu emblema ou símbolo) pela qual o Brasil possui uma cultura antropofágica, que devora outras culturas, aliada a uma segunda paixão nacional, aliás um pouco estranha para outros povos: a infância. Não é apenas o fato de que gostamos de crianças, mas vivemos em uma espécie de estado de demissão permanente de nosso presente. O que nos resta é o futuro, logo, as crianças nos representam. O educador Paulo Freire criou um modelo educacional que suspende a doutrinação e a opressão de um mundo (o letrado e dominante) sobre outro (o iletrado e inculto) que deveria ser colonizado pelo primeiro. A ideia de reconhecer o ponto de vista de quem aprende, com seu contexto e seu momento próprio na relação com o saber, tornou-se um consenso de quase todas as escolas pedagógicas. Assim, nada é mais estranho do que chamar a teoria de Paulo Freire de “doutrinação”.

9. Aborto não: PT não

Outro tema caro à divisão entre esquerda e direita é o aborto. O uso e direito das mulheres sobre seus próprios corpos é uma das teses mais consensualmente progressistas no mundo. Imaginar que os defensores do aborto se concentram no Partido dos Trabalhadores (PT) é atribuir a esse partido a defesa exclusiva da “liberdade de escolha” sobre o prosseguimento de uma gravidez. O curioso é que essa tese jamais foi apresentada à votação ou defendida como projeto de lei ao longo dos nove anos de governo petista.

10. O Brasil verde e amarelo jamais será vermelho

Uma declaração típica de nosso nacionalismo moldado na alternativa: “Brasil, ame-o, ou deixe-o”. O curioso nessa mensagem é que ela apregoa uma valorização do nacional que sempre foi defendida pela esquerda e pelo PT em particular. Nossos liberais e nossos conservadores é que apregoavam nossa internacionalização e o gosto natural pelo “estrangeiro”. Por aqui, o nacionalismo foi sempre uma coisa meio suspeita, de quem é dono do poder e não está disposto a negociá-lo, porque se sente de fato dono do país. Dizer que a pátria jamais será vermelha retoma a retórica anticomunista, aposentada com a queda do muro de Berlim, em 1989. Moral da história: o comunismo acabou, mas ele ainda é a nossa principal ameaça.