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O papel do ócio na criatividade

Dispor de tempo livre para não fazer nada pode ser importante para manter o equilíbrio mental

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Condenado durante muito tempo, o ócio atualmente tem se mostrado um aspecto importante para o desenvolvimento de novas ideias e questionamento da lógica de produção intensiva

Com o advento da Revolução Industrial, tornou-se cada vez mais comum dedicar-se quase que exclusivamente ao trabalho. Bombardeados com estímulos para consumirmos mais e mais, a cultura de acumulação tornou-nos, em boa parte, workaholics. Em março de 2012 uma pesquisa do IPEA demonstrou que 45,4% dos entrevistados não conseguiam se desconectar totalmente do trabalho em suas horas de lazer. O principal motivo: estar de prontidão caso fosse solicitada alguma atividade extra. O resultado não poderia ser pior: hoje passamos por uma crise generalizada na criatividade mundial.

A professora de filosofia política Suzana Guerra Albornoz, em seu livro Jogo e trabalho: do homo ludens, de Johann Huizinga, ao ócio criativo, de Domenico De Masi, afirma que é cada vez mais claro que o descanso e o ócio, sim, possuem um papel primordial no processo de criatividade humana. Em 1938, o historiador holandês Johan Huizinga escreveu a obra Homo ludens (o homem que brinca), que discute a importância dos jogos na cultura e na sociedade. Como os animais também brincam entre si, para Huizinga o jogo seria anterior à própria cultura, que é resultado da brincadeira.

Muitos anos se passaram até a polêmica tese do sociólogo italiano Domenico de Masi sobre o ócio criativo. Desde então, cresce o número de estudos que demonstram que o lazer e o ócio possuem importante papel no processo de criatividade humana.

Qualidade x quantidade

Segundo Huizinga, todas as formas de arte, inclusive as do pensamento, surgem da brincadeira. O movimento contrário, que visa à produtividade em detrimento ao descanso, vai contra isso. Embora gere grande produção, a qualidade de inovação fica cada vez mais comprometida.

Um reflexo se pode observar na história de Beethoven. Conforme se tornou famoso em Viena, o grande grau de exigência por novas composições fez com que o músico entrasse em uma crise criativa na década de 1810. Mas, conforme a cobrança sobre si diminuiu, Beethoven surgiu em 1822 com a Nona Sinfonia, considerada por muitos como a sua maior obra.

É muito difícil irmos contra o movimento hegemônico da cobrança por produtividade em detrimento à criatividade. A música popular, feita para vender, está cada vez mais parecida entre si; os roteiros de filmes, peças e livros, feitos para render bilheteria, contam sempre a mesma história. Vemos sempre os mesmos comerciais e trocamos apenas a marca do produto. São as mesmas roupas em um desfile de moda. E até nas universidades, lugar que até pouco se exigia o ineditismo para as teses de doutorado, hoje existe discussão sobre até que ponto as teses são, de fato, inéditas.

Equilíbrio hoje

Nesse sentido, é crescente o número de retiros de meditação zen, budista e iogues no Brasil para auxiliar-nos a encontrar não apenas a paz interior, mas um estado de descanso ou pausa das atribulações do dia a dia. Muitas pessoas acreditam que o termo “lazer” significa apenas “diversão”. Na obra Horizontes latino-americanos do lazer, os pesquisadores Christianne Gomes e Rodrigo Elizalde citam que há um preconceito na sociedade ocidental ao lazer em virtude da oposição ao ideal de produtividade a qualquer custo. Algumas pessoas consideram o lazer um tempo perdido.

Contudo, a dedicação a uma atividade prazerosa em nosso tempo livre é necessária para a nossa própria saúde mental. E nesse sentido, cresce o número de brasileiros que encontram na meditação um caminho de alcançar esse descanso das atribulações da modernidade.

Se não aprendermos a afrouxar as amarras da cobrança e a tirar o foco dos resultados, correremos o risco de nos perdermos no abismo do marasmo criativo. Conforme os dados do IPEA, cerca de metade da população urbana não sabe o significado do que é lazer.

A trajetória da humanidade até os dias atuais, como aponta Arbonoz, se deu em razão do jogo e da brincadeira. Reconhecer esse papel em nossas vidas e respeitar o próprio ócio é fundamental para crescer intelectualmente e florescer a criatividade.