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Natal do consumo ou da celebração?

Christian Dunker explica como as épocas festivas criam uma reflexão sobre a mercantilização das tradições

Kevin Dooley / Flickr: Christmas from the present's perspective / CC BY 2.0

A crítica vazia à alienação e ao consumismo dos outros reflete uma falta de compreensão dos próprios problemas

Há um grande valor negativo que organiza nossa política de criação e educação: a recusa ao consumismo. Em tempos nos quais é difícil saber exatamente como queremos que nossos filhos sejam, podemos nos agarrar ao consenso de que não queremos vê-los alienados, vinculados a estereótipos de consumo ou personificados como seres interesseiros que fazem tudo por um objeto. Façamos uma distinção preliminar: o consumo é um fenômeno universal que se opõe ao processo de produção, associando-se ao uso de um objeto e satisfação que este provê.

O consumismo é uma atitude diante a vida que mede e compara nossas aspirações de felicidade na capacidade de adquirir objetos, possuir bens e praticar escolhas de compra que acompanham a tendência do momento. A separação é semelhante à que existe entre o indivíduo, forma não coletiva de existência, e o individualismo, conjunto de valores e práticas que se consagram no cultivo da identidade, propriedade e amor-de-si.

Consumir é bom ou ruim?

Inventar uma forma de educar, de viver e de amar que não esteja baseada em presentes e recompensas tornou-se uma preocupação crescente. Com o declínio de grandes narrativas que organizavam o sentido de nosso trabalho e de nosso sacrifício, tornou-se cada vez mais difícil justificar formas de vida que não estejam orientadas pelo pragmatismo dos resultados, pelo utilitarismo do consumo e pela abundante e excessiva, ligação entre amor, respeito e autoridade, com práticas de consumo ou posse de objetos. Ou seja, o consumismo parece uma atitude ruim ainda que adequada para nossa época.

As datas de consumo, como Páscoa para chocolates, dia das crianças para brinquedos, aniversário para o presente “especial” e Natal para a mistura de todos os anteriores, são o momentos nos quais examinamos com maior detalhamento nossa atitude diante do consumo. Isso ocorre porque supostamente são momentos nos quais devemos olhar para nossa própria vida e a dos que nos cercam como algo mais do que um amontoado de trocas vantajosas orientadas para uma finalidade útil. São datas que intercalam uma suspensão na lógica da produção e consumo e nos fazem perguntar se há algo mais do que trabalho e lazer em nossa experiência mundana.

Foto tirada com a câmera na altura de um piso de madeira com presentes de Natal próximos a alguns móveis
Dar presentes na época de Natal é um ato de bondade ou um hábito arraigado de consumo?

Nada mais estéril e pobre do que o discurso ressentido de que o Natal é uma invenção da Coca Cola e por isso o Papai Noel é vermelho e branco e não verde e marrom, como o St. Nikolaus dos europeus. Um verdadeiro natal germânico ou eslavo envolve semanas de preparação, cerimônias preparatórias aos domingos que antecedem o evento (Advent), momentos meditativos no dia de Reis, montagem de presépios, pequenas peças teatrais e ensaios musicais, sem falar na leitura de extensos volumes sobre a tradição. Não sei se aqueles que reclamam do trabalho de montagem de uma árvore e do tempo de preparo de um peru, estariam realmente dispostos a dedicar-se ao trabalho de retorno a uma contracultura como esta, supostamente mais original.

Muita vez esta atitude de denúncia da alienação reflete apenas a auto-recriminação de quem acha que deveria ter ganhado mais dinheiro, ou o ressentimento que atribui o próprio insucesso ao triunfo dos outros. Para os cristãos, o Natal do consumo nega ponto a ponto os valores originários do cristianismo: altruísmo (e não a cobiça com os presentes), sobriedade (e não a ostensão de árvores, luzes e enfeites), a felicidade imaterial gerada pelo amor como renúncia (e não a o prazer material com prazeres terrenos), o individualismo e concorrência entre diferentes modalidades, mais ricas ou mais pobres de convivialidade (e não a comunidade de iguais e fraternos diante do Senhor).

Percepção de si

Os consumistas viveriam em estado de falsa felicidade, gerada pelo apego a valores transitórios. Ora, os que denunciam a alienação natalina, muitas vezes praticam um natal por procuração, porque afinal os filhos querem ou precisam deste teatro. Ora, se você faz árvore, tem a ceia, reúne a família e troca presentes, sendo você um consumista ou não, você acredita em Natal. A crença não são seus sentimentos íntimos, suas boas intenções, ou a suas ideias geniais sobre como o mundo deveria ser. A crença é o que você faz. Portanto, se você faz Natal, você acredita em Natal.

Muitos que combatem a alienação consumista argumentam que não precisam de datas especiais, inventadas pelo comércio, para mostrar seu amor pelos entes queridos. Na mesma linha argumentarão que os ritos são formas de alienação e que as reuniões de família são chatas, isso quando não misturam perigosamente bebida e ressentimentos arqueológicos entre irmãos, pais, primos e assemelhados. Nada mais alienante do que denunciar a alienação sem reconstruir suas razões, causas e motivos. A saída da alienação se dá pelo reconhecimento do desejo que lhe deu causa. Não adianta odiar a alienação dos outros, aliás, a presença do ódio sugere que ela está casando com a sua alienação.

Compreensão do significado

Chegamos assim ao que poderia ser um antídoto mais poderoso diante das seduções e apelos consumistas. Em vez de demonizá-lo ou combatê-lo, como se fosse um inimigo poderoso, e em vez de aceitar a derrota em nome do bem-estar da colmeia, é necessário colocar o consumo em seu lugar. E nesse caso, o sentimento que melhor lhe cabe é a indiferença. Afinal, não é assim que aqueles que têm distância suficiente para ver o conjunto da vida com mais clareza, ou seja, os idosos, se relacionam o consumo?

Em vez de demonizá-lo ou combatê-lo, como se fosse um inimigo poderoso, e em vez de aceitar a derrota em nome do bem-estar da colmeia, é necessário colocar o consumo em seu lugar. E nesse caso, o sentimento que melhor lhe cabe é a indiferença.

A indiferença relativa ao objeto, nos diz que no fundo o consumismo é uma banalização de nosso prazer. A indiferença relativa ao contrato, no assegura que apostamos na capacidade de autonomia e juízo para distinguir interesses em situação de consumo. A indiferença diante das ilusões realistas ou idealistas nos salvaguarda contra nossa alienação do processo de consumo. Ninguém deveria ser considerado a mais ou a menos pelo padrão de consumo que mantém, pelo tipo de marca na qual se aliena, nem pelo tipo de prazer que prefere. O que o consumo diz sobre alguém deveria ser pensado como uma espécie de espelho de como esta pessoa trata seus sonhos. Sonhos podem se tornar pesadelos quando são tratados como metas, objetivos e finalidades. Podem ser insonsos quando vividos solitariamente ou meras expressões de um desejo pendente no dia anterior. Eles podem mover ou até mesmo acabar com o mundo.

O paradoxo do consumismo pode ser resumido na declaração de um congressista americano, na década de 1920, quando se discutia a proibição do consumo de vinho, nos primórdios da lei seca: “se você está chamando de vinho esta substância que faz as pessoas exaltarem-se, libertando suas piores disposições agressivas, fazendo a pessoa degradar e humilhar sua própria família ou envergonhar seus entes mais queridos, sou completamente contra a venda de vinho. Mas se por vinho devemos entender esta substância que nos torna mais alegres e nos aproxima de outras pessoas, como na comunhão, servindo de pretexto para que velhos amigos se encontrem e famílias se reúnam, sou totalmente a favor da venda do vinho.”

Fotos: Till Westermayer / Flickr: tillwe / CC BY 2.0; Alan Cleaver / Flickr / CC BY 2.0