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Lacan e o avanço das teorias de Freud

O estudioso reformulou a psicanálise e a reintroduziu em seu debate com a ciência, religião, arte e filosofia

thierry ehrmann / Flickr: Jacques Lacan, painted portrait _DDC1356 / CC BY 2.0

Na abertura dos Escritos, único livro propriamente publicado por Lacan, em 1966, encontra-se a seguinte afirmação: “O estilo é o próprio homem, repete-se sem nisso ver malícia e sem tampouco preocupar-se com o fato de o homem não ser mais uma referência tão segura”.

Nada melhor que a noção de estilo para apresentar as relações entre a vida e a obra de Jacques Marie Émile Lacan, nascido em Paris em 1901. Depois de reformular a psicanálise de Freud e atravessar quase todas as correntes intelectuais de sua época, bem como reintroduzir a psicanálise em seu debate com as ciências, as religiões, as artes e a filosofia, Lacan reorganizou a prática psicanalítica com as suas sessões de tempo variável, seus inusitados critérios para formação de novos psicanalistas e sua personalidade especial.

Vida

Nascido em uma família católica de comerciantes de vinagre, Lacan teve formação escolar jesuítica, com forte ênfase em línguas clássicas, como grego e latim, além de muita matemática e ciências. Em 1932, defendeu sua tese de doutorado em medicina intitulada “Da psicose paranoica em suas relações com a personalidade”. Em 1934, casa-se com Marie-Louise Blondin, com quem teve três filhos.

Nessa mesma época, entra em uma crise pessoal que o leva definitivamente à psicanálise. Depois de estudar neurologia e psiquiatria, Lacan começa a ter contato com surrealistas como Salvador Dalí e René Crevel; pintores de vanguarda, como Picasso, de quem foi médico pessoal; e os poetas Paul Éluard, Michel Leiris e Raymond Queneau, que tentavam renovar a literatura francesa. Ao mesmo tempo estuda língua chinesa, a filosofia alemã de KantHegel Heidegger, a nova antropologia francesa de George Bataille e a renascente matemática francesa do grupo Bourbaki.

O exame do tema do estilo nos leva a duas constatações complementares que nossas relações intersubjetivas comportam: Uma ilusão permanente de que estamos falando com o outro que pensamos conhecer e que conhecemos os objetos e seu sistema de interesses no mundo de tal forma que podemos prever e intervir sobre seu funcionamento.

Uma ilusão insidiosa que somos os senhores de nossa própria fala e que ela é apenas a expressão de nossa intencionalidade interior. A noção de que nossos desejos são transparentes a nós mesmos e se realizam na forma de planos, metas e objetivos de vida.

O imaginário

Lacan, em seu conhecido artigo de 1938 sobre o conceito de “estádio do espelho”, nomeou de “imaginário” o sistema de funcionamento articulado dessas duas formas de ilusão. O imaginário não é uma substância, mas um efeito de ilusões compartilhadas nas relações inter-humanas. Ele foi deduzido com base na teoria freudiana do narcisismo. Para Lacan, Freud não teria distinguido suficientemente o sujeito em sua acepção psicológica daquele em sua acepção epistemológica.

É pelo imaginário que provemos uma identidade, uma unidade e uma substância que imaginamos preservar-se além de toda forma de representação ou aparência. Talvez essa seja uma das ilusões trazidas pela noção de estilo: “Mas se o homem se reduzisse a nada, ser além de um retorno de nosso discurso, não nos voltaria a questão de para que lho endereçar?”. Lacan formula o conceito de imaginário com base em três referências principais: a paranoia, o fascínio narcisístico e a alienação.

O simbólico

Ao criticar os princípios do poder na ação clínica e sua sustentação no imaginário, Lacan consolida um outro conceito fundamental em sua obra. O que ele nomeou de simbólico o conjunto é a solução encontrada para resolver o impasse da autenticidade do outro imaginário, uma expectativa de ilusão, oscilação entre paixão e agressividade e reversão perpétua entre amor e ódio, não reside nem no conhecimento nem no desconhecimento, mas no reconhecimento.

O estilo é o homem a quem me dirijo, porque somente nesse instante eu o introduzo em uma dialética que conta com o Outro e o ato de reconhecimento simbólico está além do falso reconhecimento narcísico. A distinção crucial reside no fato que o reconhecimento verdadeiro não toma por conteúdo qualquer atributo, traço ou signo do outro, mas as mediações que tornam possível que um se dirija ao outro: a linguagem, o desejo, o trabalho, a lei, a cultura e a sociedade.

O real

A noção de real em Lacan é primitiva e deriva de sua leitura de Hegel e Meyerson ainda nos anos 1930. Contudo, a partir dos anos 1960, com criação do conceito de objeto e da teoria dos nós nos anos 70, Lacan apresenta um entendimento transformador sobre esse conceito em psicanálise.

Em textos como Radiofonia, de 1970 e em seus últimos seminários e intervenções Lacan repensa o real pelo que ele chamou de estrutura de nó borromeu, ou seja, três anéis entrelaçados com o objeto em seu centro de tal forma que, se separamos um deles, os três se soltam. Se com o imaginário Lacan dissolve a ilusão de identidade e com o simbólico ele decompõe a ilusão de transparência, com os discursos ele destitui nossa ilusão sobre relações. Quando estamos com o outro, no interior de um discurso, somos envolvidos por uma espécie de impossível ou de modo de relação “cronicamente inviável” que jamais realizará a proporcionalidade e a reflexividade que poderíamos esperar de uma “relação”.

O real não corresponde aos objetos, mas ao tempo que decorre até que eles apareçam ou desapareçam. Não corresponde à realidade, mas se depreende de coordenadas simbólicas no interior das quais ele pode ser parcialmente reconhecido e simbolizado. Isso leva a uma definição curiosa do real. Se ele é o que resta ser simbolizado ou imaginado, não pode ser representado nem fixado em uma imagem. O real é sempre deduzido do simbólico e do imaginário. Não equivale a uma categoria primitiva, pré-representacional, pré-linguística ou pré-reflexiva.

Foto: Frank Lindecke / Flickr: Frank Lindecke / CC BY-ND 2.0


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