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Indústria cultural: educa ou aliena?

A ideia de que tudo pode se transformar em mercadoria contribui para a perda de identidade dos dias atuais

Ricardo lago / Flickr: tv / CC BY-SA 2.0

A quantidade de informações a que é submetido o individuo na atualidade mais confunde do que esclarece

A Escola de Frankfurt foi um grupo alemão de pensadores da primeira metade do século 20 que, entre outros assuntos, discutiu a questão da indústria cultural e da cultura de massa. Em tempos que a mídia influencia o comportamento e o espaço de lazer – o entretenimento – discutir a respeito é mais que necessário. Apesar de as redes sociais não existirem à época da discussão desses temas pelos estudiosos, eles conseguiram antever um aspecto muito conhecido por nós: o do patrocínio e a transformação da cultura em mercadoria.

Excesso de poder

Sobre a alienação, a filósofa alemã Hannah Arendt concluiu que as sociedades automatizadas e reféns da produção e do consumo eficientes são induzidas a se comportarem como animais orientados por leis naturais e por uma história que torna os indivíduos supérfluos e abre espaço para um totalitarismo diferente daquele associado ao uso da força. A diferença entre regime e governo democrático é bom conhecida: não é porque um país tem um regime não ditatorial que seu governo será democrático no exercício do poder.

Um grupo que manobre os demais poderes por meio de distribuição de cargos ou suborno governa de modo não democrático e transforma a política em objeto de consumo. Pelo marketing eleitoral, os políticos são apresentados à população como um produto qualquer. Isso mostra que o excessivo valor atribuído ao dinheiro nos enreda em num processo acelerado de produção e consumo. Essas novas formas de poder induzem a sociedade de massa a não mais querer a cultura, mas o lazer e o entretenimento imediato.

Escola de Frankfurt

Ao lado de temas como a indústria cultural, a cultura de massa, o entretenimento e a publicidade, o consumo e a alienação têm destaque central nos estudos da Escola de Frankfurt. Essa corrente de pensamento surgiu na década de 1920 na Alemanha e se dividiu em duas fases. Na primeira, seus maiores expoentes foram Walter Benjamin, Theodor Adorno, Max Horkheimer e Herbert Marcuse. Na segunda, depois da Segunda Guerra Mundial teve a contribuição de Jürgen Habermas e Erich Fromm.

As diferenças teóricas de seus integrantes a transferência para os Estados Unidos em razão da perseguição nazista colaborou para a dissolução do grupo na década de 1950. Marcuse e Fromm juntaram os conceitos marxistas a uma crítica da teoria da psicanálise, o que modificou a orientação inicial da Escola. Habermas, também radicado nos Estados Unidos, passou de discípulo a crítico mais feroz das ideias de Adorno. O projeto inicial era fazer uma análise crítica das ciências sociais ao defender que a liberdade em relação a uma situação surge da tomada de consciência e a revelação da ordem dominante ocorre quando as falsas aparências são desmascaradas.

Ilusão de escolha

A cultura de massa é o produto ideológico perfeito, pois distrai, satisfaz os desejos incomuns, promove a passividade do espectador e o aliena. Ao tirar a capacidade de pensamento crítico, ela desfaz as fronteiras entre consumo, entretenimento, informação e política. Em sua configuração, as relações entre as pessoas se baseiam ou são comandadas por processos econômicos e o consumo e interesse das empresas se transformam em fenômenos sociais. Esses processos determinam o modo de vida e estão estreitamente ligados à globalização.

Uma das ilusões vendidas pela cultura de massa é que ela fortalece a democracia, pois faz as pessoas se sentirem incluídas, mais felizes e à vontade nos espaços públicos. Esses lugares, contudo, são destinados ao consumo, já que a intenção da indústria cultural é sempre vender alguma coisa. A mídia induz o cidadão a acreditar que assistir aos mesmos programas e consumir os mesmos produtos é sinônimo de valor comum. A ideia é criar a ilusão de que se está decidindo de modo autônomo.

Cultura na gôndola

A indústria cultural é o sistema econômico e político que transforma a cultura em mercadoria para vendê-la, lucrar com isso e alienar os consumidores. A cultura, contudo, é anterior à lógica de mercado e é por isso que ela não pode ser monetizada. O que se configura como indústria é, na verdade, o acesso à sua manifestação e apreciação. Quanto mais disfarçada de entretenimento e fácil de digerir, mais serve como instrumento de dominação econômica e política. Assim, as manifestações culturais (páginas da web, revistas, livros, filmes, novelas, programas de variedades, música popular, turismo de massa, esporte), cujo valor é originariamente ligado ao seu conteúdo simbólico, são instrumentalizadas pela mídia e pelos grandes grupos de comunicação e transformados em produto-espetáculo.

Da mesma forma, o tempo de lazer das pessoas é objeto das investidas desse sistema cultural que marginaliza os que recusam ser enquadrados. A sociedade de consumo somos nós: aquela que não quer pensar, mas apenas consumir e se satisfazer com isso. Para Adorno e Horkheimer, os meios de comunicação se configuram como uma perversão dos ideais iluministas. O progresso da razão e da tecnologia que promove uma sociedade livre de superstições e crenças coloca a máscara da simplicidade e do entretenimento, da democracia dos costumes, do “todo mundo faz assim” e esconde o fato de venderem assuntos importantes como meros artigos.

Foto: Paul Falardeau / Flickr: pfala / CC BY-ND 2.0


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