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Identidade: script ou improviso?

Qual é a sua escolha entre representar o que deseja ser ou o que realmente é?

Marc Bernat Madrid / Flickr: La mascara / CC BY-ND 2.0

Quanto maior a lacuna que separa nosso verdadeiro eu de nossa miragem, maior o sofrimento do indivíduo

Quando um sujeito pensa a respeito do rumo de sua vida e em suas realizações do passado, é possível que ele se sinta satisfeito, feliz e considere que acertou na maioria de suas escolhas. Pode, contudo, avaliar também que pouco realizou de seus sonhos e expectativas e sentir-se frustrado e amargurado consigo e com o mundo.

Nessa última hipótese, surgem duas possibilidades. Na primeira, o sujeito avalia o que deu errado, o que não funcionou e tenta-se corrigir a rota. Na segunda, a frustração leva à paralisia ou sensação de uma situação difícil ou irremediável.

Essa sensação é acompanhada por um negativismo que se repete ao longo da vida em decisões sempre semelhantes e sem alteração significativa. Em geral, quem pensa dessa forma não cria, nem arrisca, apenas reproduz o antigo. Busca freneticamente por seguranças e certezas e sofre por repetição.

Jogo de espelhos

É possível detectar a razão dessa letargia e submissão a destino fatídico? A resposta pode ser alcançada no conceito que denominamos personalidade ou identidade, mais precisamente sobre a parte da personalidade que contém a ideia de quem o indivíduo acha que é. É importante ressaltar que essa última encontra-se subjugada por outra estrutura da personalidade, ou seja, quem ele pensa que deveria ser. Chamarei a primeira de miragem e a segunda de ideal de si mesmo.

Entre ambas, há um saldo geralmente muito negativo, pois a miragem se encontra em dívida com seu ideal e pode incrementar o sentimento de culpa. A rotinização e a repetição de velhos padrões de crenças e costumes podem se constituir na busca pela punição, que se materializa com o sentimento de angústia e desesperança.

Cabe aqui um questionamento: a miragem corresponde à nossa essência, nosso verdadeiro eu1 escondido ou às vezes esquecido em nosso inconsciente?

Roteiro

Quanto maior a lacuna que separa nosso verdadeiro eu de nossa miragem, maior o sofrimento do indivíduo, que em função de um ideal pode se julgar, se punir e se alienar de si mesmo.

Se compararmos essa situação de submetimento da miragem ao ideal a uma peça de teatro, podemos pensar no conceito de script. O enredo de vida de uma pessoa nessa situação se desenrola como um texto pré-escrito que, tal qual uma peça, é encenada dia após dia até sair de cartaz.

Em geral, e diferentemente do teatro, ela raramente se torna um sucesso de bilheteria, pois seu autor não altera o script de forma significativa. Assim o faz porque tem uma falsa sensação de continuidade e segurança em seu texto aprisionado.

Ator principal

Cogitemos que nosso verdadeiro eu, centro do universo, tal como descrito pelos gregos antigos, invadisse nosso plano consciente e atualizasse nossa miragem. O que aconteceria?

Para os menos conservadores, haveria no mínimo uma bela revolução que permitiria fluir o que temos de melhor em nosso interior e dar vazão à nossa identidade mais verdadeira de maior sensibilidade e criatividade.

Para isso, seria preciso abandonar o script e passar a improvisar. Dar rumo aos nossos desejos mais profundos, que são puro fluxo de busca pela vida, criar vínculos e construir sentidos para quem realmente somos e podemos ser.

Os instintos destrutivos ou de pulsão de morte, o Tânatos descrito por Freud, são reações às frustrações e carências provenientes de nossa relação com o mundo e não têm lugar ou moradia em nossa essência.

Para nosso verdadeiro eu, não existe destino, só possibilidades. Ele não se queixa da sorte ou injustiça, pois o correto é estarmos vivos e podermos criar nosso caminho direto ou com desvios.

Quando as coisas não dão certo, criam-se caminhos com novas possibilidades. Nesse campo não existe segurança ou garantia, só incerteza e probabilidades. Não se volta atrás, mesmo porque não há como retornar ao passado.

Quanto mais nossa miragem se aproxima desse verdadeiro eu, mais nosso ideal perde terreno e sentido, menos nos tornamos miragens e, progressivamente, tomamos posse de nós mesmos ao trocar a alienação própria desse ideal pela postura de assumir a responsabilidade por nossa real identidade como expressão de nosso clamor de vida.

Foto: AlessandroZocc / Thinkstockphotos


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Referências

1. Winnicott, D. W. Da pediatria à psicanálise: Obras escolhidas. Rio de Janeiro: Imago, 2001.