Namu é

Conheça mais sobre o NAMU

Últimos Acessos

Saiba mais sobre

Do ato de criar ou da cri-ação

A pedagogia Waldorf incentiva a autonomia das crianças ao estimular a criatividade

Antranias / Pixabay / CC0 Creative Commons

Estimular a criatividade na infância é fundamental para a boa formação intelectual e emocional

Lembro até hoje da primeira vez que entrei numa escola Waldorf. Tive uma clareza típica daquelas memórias vindas de experiências que nos surpreendem e nos invadem por diferentes órgãos dos sentidos: o cheiro do pão e da macela, as cores das paredes e dos ornamentos, a textura dos brinquedos e a beleza da sala. Quem já visitou uma escola Waldorf sabe do que eu estou falando. Há um cuidado estético, um toque pessoal, há por todo canto arte e artesanato, coisas feitas por artistas e artesãos que podemos chamar de professores e alunos.

A arte e a estética estão presentes como fundamentos da pedagogia Waldorf. No primeiro setênio (jardim de infância), por exemplo, Steiner nos diz que a criança precisa vivenciar a beleza do mundo: "O mundo é belo" é a frase que resume esta primeira fase da vida.1

Fantasia e aprendizado

Em seu livro The Kingdom of Childhood (O reino da infância), Steiner afirma que a criança deve ter poucos, porém belos brinquedos:

"É particularmente bom para uma criança quando ela pode adicionar o máximo possível de sua fantasia aos seus brinquedos, quando ela pode desenvolver uma atividade simbólica. As crianças devem ter o mínimo de coisas possíveis, que sejam bem acabadas e completas as quais as pessoas possam chamar de ‘belas’. A beleza de uma boneca como a que descrevi acima com cabelo de verdade e assim por diante é apenas uma beleza convencional. Na verdade ela é terrivelmente feia porque é tão sem arte."2 Como podemos perceber, a beleza para Steiner está associada à arte e à criação. O artesanato, portanto, adquire nesse contexto funções e significados que vão além da beleza.

Nessa mesma obra, Steiner fala da importância de uma educação que nos ajude a nos tornarmos seres práticos e nos lembre do quanto nossa vida moderna, ao contrário do que pensamos, nos afasta desse propósito. No dia a dia, fazemos e obtemos muitas coisas, quase todas já prontas. Nós copiamos e recebemos muito mais do que criamos. Estamos nos tornando seres mais teóricos e menos práticos. Basta pensar na diferença entre o que sabemos hoje e o que sabiam nossos avós.

Tecnologia e artesanato

Não quero dizer que no passado as coisas eram melhores. A tecnologia da vida moderna nos trouxe muitas coisas boas, mas ao mesmo tempo nos afastou da ação e da criação do artesanato e da arte nos sentidos concebidos por Steiner. A definição da palavra artesanato vincula o ato, ou seja, a capacidade humana de agir no mundo que vive, com a arte. O artesanato é essencialmente o próprio trabalho manual ou produção de um artesão. 

Futuro em nossas mãos

Na minha primeira experiência em um jardim de infância, uma professora, ao explicar sobre a prática do artesanato, me disse que as crianças precisam ver coisas sendo feitas das mãos dos homens, que as mãos trabalham e criam e que nem tudo vem do supermercado.

A imagem das mãos criativas e do ser humano criador é uma realidade presente nas escolas Waldorf. O ato de criar também está ligado à outra premissa das escolas de orientação steineriana: a autonomia. Um ser que cria e atua está mais próximo de alcançar sua autonomia.

Autonomia é um termo de origem grega cujo significado está relacionado à independência, liberdade ou autossuficiência. Uma pessoa com espírito criativo e construtor depende menos daquilo que é dado. Se você sabe costurar, dependerá menos das lojas pra obter roupas; se sabe cozinhar, depende menos do cozinheiro e assim por diante. É nesse sentido que Steiner diz que estamos nos afastando da vida prática, pois somos cada vez mais sujeitados ao que está pronto e sabemos menos fazer e criar.

O papel da criatividade 

A criatividade se associa à imaginação e à observação e ajuda a desenvolver a capacidade de improvisação, tornando-nos mais flexíveis e independentes. Por que não começar agora? Existem vários livros de artesanato confeccionados com diferentes materiais que ensinam a fazer coisas simples e bonitas. Um que recomendo é o Giramundo e outros brinquedos e brincadeiras dos meninos do Brasil3, pois além de conter muitas brincadeiras e brinquedos brasileiros simples de fazer, é ilustrado com lindíssimas fotos. O Brincadeiras criativas para o seu filho4 também é uma ótima indicação.

Começando a criar

Recomeçar um tricô guardado ou um tela inacabada é um modo excelente para estimular a criatividade. As épocas do ano podem ser uma inspiração. Fazer flores de pano para enfeitar a casa na primavera ou pintar cascas de ovos e enchê-las de chocolate para a Páscoa são bons exemplos do que pode ser feito.

Fotos: Pedro Dias/ Flickr: Mr Conguito/ CC BY 2.0; storebukkebruse / Flickr: Saved from the attic today / CC BY 2.0 

Referências

1. Para saber mais sobre os setênios, a autora Gudrun Burkhard tem alguns livros onde explica, de forma clara e prazerosa, as características de cada setênio, dentre eles Tomar a vida nas próprias mãos,  pela Editora Antroposófica.
2. Steiner, Rudolf. The Kingdom of Childhood. Londres: Rudolf Steiner Press, 1982.
3. Meirelles, Renata. Giramundo e outros brinquedos e brincadeiras dos meninos do Brasil. São Paulo: Terceiro Nome, s.d.
4. Clouder, Christopher; Nicol, Janni. Brincadeiras criativas para o seu filho. São Paulo: Publifolha, 2009.