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Consumo compulsivo: o prejuízo não é só no bolso

Conhecido também como oniomania, distúrbio pode ser resultado de quadros de ansiedade e depressão

Pexels / Pixabay / CC0 Creative Commons

O ritmo acelerado da vida moderna aliado à presença cada vez maior de propagandas em todos os aspectos do dia a dia pressionam o cidadão comum consumir mais sem realizar um questionamento prévio. Alguns conseguem frear esse impulso, seja por questões financeiras ou de autocontrole. Outros nem tanto e é nesse grupo que são enquadrados os compradores compulsivos.

A psicologia dá o nome de oniomania ao impulso patológico por compras. O problema não consiste na aquisição em si, mas em sua forma compulsiva. Para a maior parte das pessoas, comprar bens é um momento de diversão, pois cria uma falsa sensação de alívio e diminuição de frustrações. Contudo, esse comportamento prejudica o indivíduo no aspecto social, familiar, financeiro e relacional.

Os oniomaníacos geralmente possuem sinais de frustração, angústias e depressão, características muito semelhantes às dos dependentes químicos. O grande prazer reside no ato de comprar e não na posse dos objetos, que, após comprados, são logo esquecidos. Julgam sua identidade e seus afetos pelo que podem ter e oferecer aos outros, tornando-se consumidores vorazes, insatisfeitos e extremamente ansiosos.

Há dois tipos de consumo:

  • Primário: necessário à satisfação de nossas necessidades essenciais;
  • Secundário: ligado ao imaginário.

O consumo de bens e produtos é um elemento importante na atual sociedade capitalista não apenas por movimentar a economia, mas por manter nossas necessidades fundamentais. O problema da compra compulsiva reside na dificuldade de compreensão entre o necessário e o supérfluo.

É geralmente o secundário que conduz o indivíduo ao caminho perverso de manipulação por parte de campanhas publicitárias. Leva também ao “ter” e não ao “ser” de forma coletiva. Nesse contexto, ele impulsiona as pessoas suscetíveis às compras e abre caminho à oneomania e ao transtorno do comprar compulsivo.

Origem das compulsões

O cérebro possui dois objetivos básicos: o primeiro é cuidar da sobrevivência, e o segundo é buscar prazer. Como na vida moderna a sobrevivência se tornou mais fácil – por meio das melhorias de saúde, tecnologia e melhor acesso a alimentos – o cérebro tem mais tempo livre para buscar prazer ou satisfação. Às vezes essa busca por recompensa pode se tornar disfuncional e prejudicar quem já é suscetível ao problema.

Toda compulsão por compras ocorre ao longo de um tempo, que se inicia com uma compra impulsiva e excessiva, feita de forma casual, que se tornam eventos repetitivos que dominam a vida da pessoa. Há uma combinação desfavorável entre a genética e o ambiente familiar e social no qual o indivíduo se desenvolveu e para os quais agregou seus valores, havendo alterações bioquímicas no cérebro e a abstinência é a manifestação sintomática do caos mental.

Há outros fatores que intensificam esse quadro, como a falta de motivação e prazer para as atividades gerais, depressão, grande diminuição da capacidade de sentir-se bem com recompensas naturais da vida (amor, amizades, trabalho, leitura, música), herança genética, dificuldade de lidar com adversidades na vida, baixa tolerância às frustrações, entre outros.

Compulsão por compras ou oneomania

É a situação em que o mecanismo da dependência não vem de uma droga, mas de um comportamento. Caracteriza-se por um estado constante no qual a pessoa tem a mente dominada por pensamentos intrusivos e repetitivos relacionados à necessidade de adquirir diversos objetos. Os pensamentos se tornam obsessivos e o ato de comprar adquire um caráter de urgência para aliviar um mal estar interno gerado por alguns pensamentos. Esse estado vivenciado com altos níveis de ansiedade e angústia é chamado de fissura e sua presença é condição essencial para o diagnóstico da compulsão.

As pessoas acometidas pela oneomania descrevem uma sensação de vazio existencial que é revertida momentaneamente durante o ato da compra. O compulsivo sente uma pressão crescente para ele execute o comportamento e compre sem controle. É um momento catártico e libertador.

Os compradores compulsivos na sua maioria são deprimidos e incapazes de receber encorajamentos de seu sucesso, permanecendo no círculo vicioso de sentimentos de culpa e desespero. A autoestima e a autoconfiança desmoronam e comprar torna-se cada vez mais uma ação incontrolável.

Transtorno do comprar compulsivo

É uma síndrome psiquiátrica com características semelhantes às dependências químicas, aos transtornos obsessivos compulsivos e ao descontrole de impulsos:

  • Tolerância: aumento progressivo de tempo e dinheiro nas aquisições;
  • Craving: incapacidade de controlar o impulso adquirindo característica de compulsão;
  • Abstinência: sentimento de mal-estar quando não pode comprar.

A dependência é um fenômeno complexo que se reflete no nível comportamental e na procura do objeto. No aspecto psicológico, há uma absorção total da pessoa, que se descuida dos níveis social, familiar e de trabalho. Mesmo sabendo que tal comportamento conduzirá inevitavelmente a consequências negativas, o indivíduo não consegue deixar de procurar o objeto da dependência, seja uma droga ou uma ação, como o comprar.

Esse transtorno afeta principalmente as mulheres jovens, entre 30 a 40 anos, mas acredita-se que o início dessa desordem se dê por volta dos 20 anos. Atualmente o incentivo às compras é visto como sinônimo de bem-estar ou meio para se obter uma espécie de reconhecimento por parte da sociedade. A forte pressão midiática e a facilidade criada por novas modalidades de pagamento permitem ao comprador parcelar suas dívidas e criar uma falsa sensação de segurança econômica.

Os compradores compulsivos procuram esconder o máximo possível qualquer falta de dinheiro. As modalidades de vendas virtuais (internet, telefone, televisão) podem ser muito prejudiciais para quem tem dificuldades de controlar suas compulsões. Por garantirem anonimato, o indivíduo consegue atender às suas vontades sem correrem o risco de serem julgados.

Identidade dos compradores compulsivos

Os comparadores compulsivos são pessoas que não conseguem resistir ao impulso para comprar, principalmente quando contrariados, deprimidos ou entediados. O ato de comprar gera altos níveis de excitação e servem como fuga da realidade problemática que vive. Muitos relatam que são acometidos por uma espécie de “apagão” após a compra: não se lembram o que compraram, onde e por quê. Geralmente escondem o que adquiriram e vivem em um ambiente desorganizado.

Os compradores compulsivos têm baixa autoestima, alto nível de ansiedade, forte sentimento de inadaptação, sensação de poder ao comprar, baixa tolerância para lidar com frustrações, solidão, rejeição e alto nível de impulsividade.

O motivo que nos faz comprar é a recompensa, que nos motiva a fazer tudo o que queremos. Algumas coisas nos recompensam mais do que outras e isso é função de um cérebro primitivo (automático) menos consciente e que não depende do nosso controle.

O sistema de recompensa é tão forte, que consegue inibir e ativar muitas de nossas escolhas e ações. Para que possamos controlá-lo, precisamos exercitar nossa razão para dominar nossos instintos mais primitivos. Todas as situações que nos despertam algum tipo de anseio ou expectativa acionam o sistema de recompensa do cérebro.

Foto: Emily Rachel Poisel / Flickr / CC BY 2.0