Namu é

Conheça mais sobre o NAMU

Saiba mais sobre

A conquista da essência feminina

Para o existencialismo, o ser humano tem a liberdade de se construir e construir sua própria vida

z s / Flickr: woman / CC BY 2.0

Simone de Beauvoir (1908-1986), filósofa existencialista, escritora, autora e ícone do pensamento feminista e do conceito de que não se existe sem agir, nos ensinou que “Não nascemos mulher. Nos tornamos uma”.

O ponto central de nossa discussão é o chamado "outro feminino". Beauvoir revolucionou corações e mentes quando afirmou que ninguém nasce mulher: isso é um processo e uma conquista. Que nenhum destino biológico, físico ou econômico define a figura da fêmea humana, pois é o conjunto da civilização que elabora esse ser intermediário entre o castrado (segundo Freud e seus herdeiros) e o macho, produto este que é chamado de feminino.

A afirmação de Beauvoir tem como base a concepção que resume essa corrente filosófica chamada existencialismo: a de que a existência vem antes da essência.

Talvez possamos começar nossa reflexão sobre o existencialismo por um assunto bastante concreto que é a natureza humana. Vejamos essa noção aplicada ao feminino discutido por Beauvoir.

Até mesmo Jung diz das mulheres que elas são menos capazes e criativas do que os homens e que [...] ao aprender uma profissão masculina, estudar e trabalhar como um homem, a mulher está fazendo alguma coisa não inteiramente em harmonia, ou mesmo diretamente ofensiva à sua natureza feminina" (grifo meu).

Aqui chegamos ao ponto central do pensamento de Beauvoir, que nos leva à discussão do aspecto não tão óbvio (tarefa da filosofia): a natureza feminina. Será mesmo que ela existe? Ela é específica, diferente da masculina? E mais: existe uma natureza humana? A resposta do existencialismo é: não.

Explicação

Dizemos que a natureza de algo é aquilo que o faz ser tal como é, ou seja, sua essência. Assim é, por exemplo, que para o filósofo francês René Descartes a natureza da alma humana é pensar. Interrogar-se sobre a “natureza humana” é procurar as características constantes e gerais que fazem um ser humano ser o que é muito além de seus traços superficiais e passageiros. No ser humano, o que diz respeito à natureza é o conjunto de tudo o que é inato, ao contrário do que é “adquirido”, o cultural.

O problema é quem considera a existência de uma natureza humana entende forçosamente que ela é apreensível, passível de conhecimento, ou seja, objeto de uma ciência.

Nosso tema é a suposta essência da suposta natureza humana. Quando dizemos suposta, estamos questionando. Será que existe mesmo essa tal essência? Será que a natureza humana é sempre a mesma? Segundo Beauvoir, não: para já, diz ela, o humano não é neutro – há homens e mulheres. Ela discute pela primeira vez a especificidade da condição da mulher. E ao fazer isso rompe duplamente com a tradição metafísica: 1) de se considerar que todas as pessoas têm alguma coisa que as define (a essência) de modo único e geral; 2) que o feminino se pauta pelos mesmos critérios de identidade que o masculino.

Essência é aquilo que faz que alguma coisa seja o que é, apesar das particularidades, das propriedades eventuais; ou seja, daquilo que é acidental. Por exemplo: um triângulo pode ser isósceles ou não, retângulo ou não, equilátero ou não, mas terá sempre três lados e três ângulos.

A essência do triângulo faz dele o que ele é, diferenciando-o das outras figuras geométricas. Mas isso não permite que o designemos como uma realidade existente. O triângulo continuaria sendo um triângulo mesmo que nenhum triângulo jamais tivesse sido traçado por nenhuma mão humana. Ou seja, logicamente falando, a essência de uma coisa corresponde à sua possibilidade, e não à realidade de tal existência singular.

A conclusão do existencialismo: um animal ou um instrumento se caracterizam por propriedades específicas (o pássaro voa, a faca corta). Mas o que podemos afirmar com certeza sobre o ser humano? Não adianta alguém ensinar a ele como se comportar, como agir – ele precisa ir inventando a si mesmo, construindo eternamente a si mesmo, obra nunca acabada.

Escolhas e responsabilidades – cada um de nós é responsável por suas escolhas, orientações, atos. Nós somos o que fazemos e fizemos de nós mesmos. Esse é o exercício da própria liberdade. A existência humana é concreta e individual. A vida é uma conquista.

Essa conquista é justamente o núcleo do pensamento existencialista e, talvez, sua melhor expressão, porque retira a discussão da esfera abstrata e a coloca na vida cotidiana: primeiro existimos, e só a partir da existência é que construímos nossa essência. Cada um de um jeito, porque cada um de nós é um processo vivo. Em resumo, nada está dado, nem está decidido de forma permanente, definitiva.

Base teórica

Existencialismo é a escola filosófica que afirma que o ser humano é livre, e não determinado: o que cada um de nós faz e decide é que vai definir o que seremos. Segundo essa concepção, a existência supõe e precede a consciência de si mesmo. Os indivíduos é que criam o sentido e a essência de suas vidas, por meio da ação e da coragem: tal tese se opõe à ideia de que essência e sentido da vida tenham sido criados por doutrinas filosóficas ou religiosas. O existencialismo considera que cada pessoa é um ser único, dono de seus atos e de seu destino, mas também – e sobretudo – responsável pelos valores que decide adotar. Cada pessoa, diz Sartre, é uma escolha absoluta dela mesma. Nosso futuro nos pertence, pois somos o que fazemos – de onde a afirmação de que a existência (vida) antecede a essência.

Por isso, só o ser humano existe, no sentido pleno do termo – as coisas são, simplesmente.

O tripé do pensamento contemporâneo é composto por (ordem cronológica) Martin Heidegger (1889-1976), precursor do existencialismo, Friedrich Nietzsche (1844-1900), que alertou o mundo contra o perigo do niilismo) e Jean-Paul Sartre (1905-1980), o “pai” do existencialismo contemporâneo. Um influenciou e dialogou com o outro.

Segundo Heidegger, o ser humano tem consciência, ele sabe que sua existência é “para-a-morte”, quer dizer, orientada para esse fim. Ele chamou isso de ser-para-a-morte: em um sentido mais positivo, ser para a morte é assumir nossa condição de mortais, é aceitar e agir de acordo.

Herdeiro dessa filosofia, o existencialismo recusa a noção determinista de que tudo no Universo obedece a leis prévias e encadeadas, imutáveis. Se a vida é fruto do acaso e o ser humano está inserido na natureza, ele está inserido também em um mundo de cultura. Mesmo sofrendo a limitação de leis externas, que condicionam parcialmente sua vida, ele é agente da história, no sentido de que tem liberdade, de que pode ser causa de si mesmo, escolher o que ser e como agir – o que o torna responsável. Por si mesmo e pelos demais.

Modo de ser humano

A existência é o modo de ser disso que chamamos de ser humano – nós. Ou seja, nosso existir é que condiciona todo o resto. Nosso estar no mundo, nossa situação no mundo. É isso que Sartre quer dizer, quando afirma que “a existência precede a essência”. É simples: o existir vem antes de todo o resto. Um exemplo dessa afirmação é a maneira como Simone de Beauvoir define a mulher: biologicamente alguém nasce fêmea (existência), mas a construção do que será uma mulher vai sendo feita depois (essência), como uma conquista.

Ou seja: nossas escolhas, nossas atitudes são sempre afirmadas como um valor. E como vivemos em sociedade, isso afeta e inclui o resto da humanidade. Essa possibilidade que cada um de nós tem, de decidir o que fazer com sua própria vida, é difícil de assumir. Porque é uma tremenda responsabilidade. E porque implica a coragem de não esperar nada vindo de fora de nós (Deus, o governo, o destino), e implica a coragem de também não culpar ninguém fora de nós pelo que nos acontece. Essa possibilidade se chama liberdade.

Primeiro, e antes de tudo, o ser humano existe, e depois ele se define. Primeiro vamos à luta, nos arriscando a sofrer. E só assim vamos nos definindo, pouco a pouco. E porque é pouco a pouco, passo a passo, batalha após batalha, experiência após experiência, que a definição está sempre em aberto.

Ponderação

No livro O pequeno príncipe (que toda miss diz ter lido, mas que na verdade é muito, muito interessante e rico, para quem o lê realmente), o autor (Antoine de Saint- Exupèry) põe na boca de uma raposa, que conversa com o principezinho no deserto, a frase que ficou famosa: “Você se torna eternamente responsável por aquilo que cativa”. Eles estão falando de uma rosa que o menino cultivou. E a raposa lembra a ele que o que torna essa rosa tão importante é o tempo que ele dedicou a ela. Qual a mensagem? É que somos responsáveis por aquilo que queremos.

O existencialismo procura ser um ateísmo consequente, ou seja, assumir as consequências derivadas da ausência de Deus. Se Deus não existe, o ser humano tem a liberdade de se construir e construir sua própria vida – assumindo todas as responsabilidades. Segundo ele, o ser humano teria inventado Deus para não reconhecer sua liberdade de agir como quiser, para não assumir a plena responsabilidade de seus atos.

A universalidade do ser humano não é uma coisa dada, é algo permanentemente em construção. Assim também a condição feminina: o simples fato de pertencer biologicamente ao sexo feminino não faz de ninguém automaticamente uma mulher. O outro feminino é uma página que cada uma de nós escreve, com risos, com indefinições, com contradições, com sangue, com escolhas. Com a coragem de recusar o unívoco, se arriscando ao equívoco. E à vida de verdade, aquela de cada mulher, o percurso maravilhoso da construção da nossa “essência”. Porque o outro feminino é isso: outro. Único.

Foto: Clyde Robinson / Flickr: Woman In Clouds / CC BY 2.0Shutterstock