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A condição humana

A grande presença do trabalho na sociedade pós-moderna não significa que os seres humanos deixaram de agir ou desencadear novos processos; Hannah Arendt alerta que a ciência e a tecnologia se transformaram na arena da “ação na natureza”

Hamza Butt / Flickr / CC BY 2.0

Na obra A condição humana (1958), a filósofa alemã Hannah Arendt se debruça sobre o tema do trabalho como um dos principais constituintes da vida humana. Com base em três categorias – o labor, o trabalho e a ação –, ela discute o que move e quais são as condições do ser humano. O eixo dessa análise são as atividades por ela chamadas de vida ativa, ou seja, a capacidade humana de ação. Para a filósofa, essas três categorias são a base da condição humana.

Labor

O labor corresponde ao processo biológico do corpo. São as atividades que asseguram a manutenção da espécie e apontam para a proximidade do ser humano com os outros animais, ação que ela vincula ao termo animal laborans. O trabalho em si não está contido no processo vital, mas diz respeito ao homo faber, aquele que cria coisas com base em elementos naturais que se colocarão entre ele e o mundo natural. Essa é a esfera do artificial.

Tal atividade é a única que se exerce diretamente entre as pessoas sem a mediação das coisas ou da matéria. Ela cria as condições para o exercício da liberdade e, consequentemente, para o aparecimento do que é novo. Corresponde ainda à nossa pluralidade enquanto indivíduos distintos e por isso é chamada de condição política. Arendt afirma que é nesse ponto onde se encontra a possibilidade de liberdade enquanto capacidade de reger o próprio destino, de começar algo novo.

O que nos diferencia

Apesar dessas três categorias, são duas as variações na esfera humana: a do homo faber (aquele que faz, que fabrica o que é durável) e a do animal laborans (aquele que se esforça para produzir objetos que possam ser consumidos e assimilados). O primeiro garante a solidez e a estabilidade do mundo; o segundo fornece os objetos necessários ao corpo, mas que têm pouca durabilidade e são destruídos em cada ciclo de vida. Quanto a ação, ela é especial e define a condição humana porque não tem a ver com a matéria (como o trabalho e a obra, ou labor), mas sim com as pessoas.

Ela só se exerce na presença de outros (interação), razão pela qual Arendt a chama de “tipicamente humana”. A pensadora não desmerece o trabalho, nem a obra, pois para ela o trabalho representa um dos principais constituintes da vida humana. Ela se pergunta em que medida e em que momento abrimos mão de discutir sobre nossas vidas e aquilo que realmente interessa. Quando abandonamos tal questionamento, nos alienamos. O tema central do livro é a diminuição do status do ser humano de ser político (que age) para homo faber (que cria) até animal laborans (que se reproduz).

Prática da liberdade

Para a autora, desde a antiguidade grega, era na esfera pública que se dava a ação, ou seja, a prática da liberdade que permitia ao homem a expressão de sua real identidade. Na Idade Média, essa ação, antes vista como o espaço da liberdade e da possibilidade de transcendência, perde hierarquia e se iguala ao trabalho e ao labor, passando a representar apenas uma necessidade humana entre outras na luta por sua sobrevivência.

Nesse novo contexto, a ação se torna apenas um elemento a mais. Se antes o ser humano exercia sua liberdade por meio da ação, a partir da influência da religião ele deixa de atuar para contemplar. É como se sua liberdade se concentrasse nessa esfera , ou seja, se a vida contemplativa fosse realmente o único modo de viver em liberdade.

Ação e contemplação

Essa inversão é resultado da ascensão do cristianismo, enfatiza a autora. Embora tal noção existisse, entre os gregos ela tinha outro sentido, pois valorizava-se a quietude da contemplação e da reflexão em detrimento da ação, mas ligada à produção do saber, à busca da verdade e não à religião, à aceitação passiva de uma verdade revelada. O resultado, diz Arendt, é que na Idade Média a liberdade migrou da ação para a contemplação. Outra conceito que sofre inversão é sobre a valorização intensa do trabalho. O homo faber adquire uma maior importância e isso é resultado da invenção do telescópio, algo que a princípio parece banal.

Esse é um exemplo de como a história do pensar humano está intimamente ligada à vida real, invenções, guerras e problemas naturais. Nesse caso, o telescópio permitiu a constatação de que a Terra não é o centro do Universo, como afirmava o pensamento da Igreja, fato que roubou da criatura (o homem) o papel importante emprestado a ela por esse falso postulado. Foi necessário um artefato humano para desvendar a verdade das coisas e lançar definitivamente a dúvida quanto à capacidade dos sentidos de perceber a realidade. Isso forneceu a base para o pensamento cartesiano de que tudo é merecedor de dúvida e a única coisa da qual não podemos duvidar é que duvidamos (ou seja, que pensamos).

Construção

Uma segunda inversão ocorre quando o homo faber perde sua importância e o animal laborans chega a mais alta posição na hierárquica da vida ativa, que tem três modos: o trabalho (ciclo biológico, mortalidade), a obra (artefato, sobrevivência) e a ação (política, pluralidade). Essa inversão se dá porque na Antiguidade a dignidade humana se concentrava na atividade política, que se opunha às atividades econômicas exercidas no quadro da comunidade familiar (da qual faziam parte os escravos).

A modernidade se caracteriza pelo enfraquecimento e até desaparecimento da diferença entre essas duas esferas. O homem de ação é substituído pelo homo faber e este dá lugar ao animal laborans que, por sua vez, desaparece em favor do empregado, último estágio da redução do humano a um puro funcionamento automático.

Isolamento sem precedentes

Assim o homem, que já havia perdido seu lugar no campo político da ação, deixa de ser reconhecido como homo faber e é reduzido na sociedade industrial a mera função de sobreviver. O resultado é um isolamento que o separa do mundo dos objetos e da sociedade. Em resumo, a ação passou a ser concebida em termos de fazer e fabricar (homo faber), o que é apenas outra forma de labor (animal laborans).

A palavra/discurso perdeu força e com isso a ação política também, pois era nela que o cidadão tinha poder de expressão e se sentia livre. Ao longo do tempo, o grau de importância das três divisões da vida ativa (o labor, o trabalho e a ação) sofreu alterações. Se em um primeiro momento é a religião que aliena, na sociedade moderna a alienação aumenta ainda mais por causa das chamadas “forças de produção” e da “indústria cultural”.

Complexidade

Dentro do conceito marxista, entende-se por força de produção a soma dos meios (capitais, terras, matérias-primas, ferramentas e equipamentos), métodos e técnicas de produção. Elas fazem parte do modo de produção (base ou infraestrutura da formação econômica e social). A ideia de indústria cultural compreende a transformação da cultura com um objetivo específico: o de ser uma mercadoria ou produto de uma atividade econômica de larga escala.

Com o aparecimento dos novos meios de comunicação, as modalidades culturais existentes foram subjugadas pelo domínio da cultura de massa (entretenimento), que padroniza e nivela sempre por baixo. Essa alienação levou o ser humano à perda da experiência humana e a uma conduta entorpecida e tranquilizada, último estágio de uma sociedade de operários. Segundo a autora, isso não significa que tenhamos perdido nossas capacidades, mas sim que elas estão ao alcance de poucos, já que a sociedade de massas faz com que as experiências de não isolamento escapem à maioria das pessoas comuns.

Capacidade de recomeçar

Hannah Arendt é, antes de tudo, a teórica dos reinícios, da capacidade humana de recomeçar, de se reinventar. Quando se detém sobre a questão da condição humana, ela discute não apenas a relação entre trabalho e obra, mas também a existente entre propriedade e riqueza, entre a terra e o mundo, entre poder, violência e força. Essa discussão não se limita ao significado das palavras, ou seja, não se trata de uma discussão teórica.

O ponto relevante, que é a reinvenção de si, passa muitas vezes pela recondução da carreira, do trabalho. A análise de Arendt lança luz sobre esse aspecto e pode nos ajudar em nossa reflexão, pois afirma que esses dois elementos são reveladores da sociedade pós-moderna na qual as preocupações econômicas passaram a dominar tanto a política quanto a consciência de si mesmo. Estamos falando do mal-estar do indivíduo no que ela chama de uma “sociedade de trabalhadores”.

Sociedade moderna

É como se estivéssemos reunidos em volta de uma mesa, mas ao mesmo tempo separados por ela. A sociedade do trabalho é o pano de fundo do indivíduo em construção. Ora, é necessário que saiamos dessa imersão no trabalho e adotemos a ação.

A grande presença do trabalho na sociedade pós-moderna não significa que os seres humanos deixaram de agir ou desencadear novos processos. Arendt alerta que a ciência e a tecnologia se transformaram na arena da “ação na natureza”. A visão da pensadora sobre a condição humana nos lembra de que os seres humanos são criaturas que agem no sentido de fazer as coisas acontecerem e desencadear sequências de acontecimentos.

Planejamento e ação

A milagrosa imprevisibilidade da ação é a falta de controle sobre os efeitos. Como a ação põe a vida em movimento, não somos capazes de prever os resultados de nossas próprias iniciativas, nem manter o controle do que acontece quando elas se mesclam às dos demais na arena da vida pública. É isso que torna, muitas vezes, a ação frustrante, pois seus resultados revelam-se extremamente diferentes do que seu agente tinha em vista.

A visão de Arendt nos faz entender que é por meio da atividade do labor que o indivíduo se descobre a cada instante. O que é, portanto, uma forma de autoconhecimento na medida em que a percepção de quais aspectos do mundo do trabalho revela mais afinidade e habilidade. Assim, o trabalho se apresenta como forma de se desenvolver e buscar realização. Afinal, nós humanizamos o que acontece no mundo e falamos a respeito. E ao falar, aprendemos também a ser humanos.