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Associando a música à meditação

Os sons podem agitar ou relaxar o organismo, tudo depende do propósito e da escolha da melodia

Hans Splinter / Flickr: making music / CC BY-ND 2.0

Quanto mais linear e lenta uma música for, mais apropriada ela tende a ser para a atividade meditativa

Os efeitos terapêuticos e relaxantes da música são observados pelos humanos desde tempos imemoriáveis. Observados desde a época dos grandes filósofos gregos, recentemente a ciência vem sugerindo uma série de efeitos que a música causa em nossos corpos, mentes, emoções e também na percepção que temos de nós mesmos e do que sentimos. Por conta disso, como várias pessoas que recorrem à meditação relatam dificuldade de silenciar a mente para o turbilhão de preocupações do dia a dia, a música pode ser de grande auxílio. Contudo não é qualquer música que serve ao propósito da meditação.

Segundo o estudioso de músicas Ter Ellingson1, existem tantas definições do que é música quanto culturas no mundo. Por conta disso, seria presunçoso afirmar que a música só se compreende na forma a seguir. Contudo, tende-se no Ocidente a dividir a música usualmente em elementos melódicos, rítmicos e harmônicos. Cada um desses elementos, conforme se observa generalizadamente nas terapias que empregam elementos sonoros, produz efeitos distintos nos seres humanos. E existem algumas características específicas que a música relaxante possui.

Os efeitos dos estilos

Em primeiro lugar, atentemos aos elementos rítmicos. Conforme um estudo realizado na Holanda3, mudanças de tempo, modo e percussão provocam alterações cardiovasculares e influenciam no nível de tensão do organismo. Quanto mais rápido for o ritmo de uma música, menos relaxado o ouvinte tende a ficar. Mesmo que ele goste de um estilo mais acelerado, como música eletrônica, ainda assim a tensão pode ser observada em seu organismo.

Outras pesquisas2 também sugerem que uma estrutura rítmica dissonante estimula a secreção do hormônio cortisol, relacionado ao estresse, na corrente sanguínea. Com essas informações, podemos supor que quanto mais linear e lenta uma música for, mais apropriada ela tende a ser para a atividade meditativa.


Faixas longas e ininterruptas fazem com que a música se torne um detalhe e não o foco principal do que estamos fazendo

Longas e suaves

Um dos objetivos da meditação é trabalhar um estado mental extremamente focado. Segundo os estudos de Kalfha2, eletroencefalogramas de monges budistas demonstram um aumento de atividade cerebral relacionada à concentração, e não o contrário. Por isso, um segundo fator também deve ser levado em consideração: a nossa cognição. Na meditação tibetana, os mantras não são monótonos e longos, de forma quase que ininterrupta ao acaso. Uma das características principais da cognição é que a mudança de um estímulo desperta nossa atenção. Sendo assim, caso se empregue uma sequência de músicas de poucos minutos de duração com pausas entre elas, a interrupção do estímulo sonoro a cada mudança de faixa fará com que o foco da atenção seja puxado para a audição, mesmo que as músicas do CD sejam todas lentas.

É claro que dificilmente teremos um coral budista a nossa disposição aqui no Ocidente, mas podemos priorizar faixas longas e ininterruptas, para que a música se torne um detalhe e não o foco principal do que estamos fazendo. Contudo, músicas longas que possuem grande variação harmônica e melódica, como uma sinfonia, também não são indicadas, pois não são apenas as dissonâncias rítmicas que nos despertarão a atenção; variações de qualquer elemento sonoro no estímulo terão um grande potencial para desviar o nosso foco do trabalho meditativo, prejudicando mais do que ajudando.

Seguindo essas duas características, fica mais fácil selecionar um estilo que colabore com o seu trabalho meditativo. Seguem mais algumas dicas:

  • Evite, a priori, músicas que começam com um instrumento e terminam com outro (mudança de timbre). Nos coros budistas, as vozes utilizadas são sempre as mesmas do início ao fim;
  • Evite também músicas com muitos elementos percussivos. Caso você goste de percussão, prefira elementos com pouca variação rítmica (como um tambor batendo sempre no mesmo passo).

Particularmente tenho mais facilidade de meditar apenas com um tambor tocando no mesmo ritmo indefinidamente (sem mudança de modo ou andamento). Outras pessoas, porém, preferem uma canção longa e monótona (sem mudança de tom), em gama de acordes tocada por pianos ou cordas. E uma querida amiga, em especial, adora músicas gregorianas (o nosso equivalente ocidental aos mantras) e os próprios mantras – usualmente lentos e com pouquíssima variação melódica, rítmica e de timbre.

Seguindo essas dicas, você também pode testar diferentes estilos de música para os seus exercícios de meditação. Veja o que melhor serve para você.

Foto: Marcus Melendez/ Flickr: m.melendez1461/ CC by 2.0

Referências

1. ELLINGSON, T. Music: Music and Religion. In: JONES, L. Encyclopedia of Religion. 2. ed. Farmington Hills: Thomson Gale, 2005. p. 6248-6256.
2. KHALFA, S. et al. Effects of relaxing music on salivary cortisol level after psychological stress. In: The Neurosciences and Music, 999, nov. 2003, Estados Unidos. Anais, New York Academy of Sciences, 2005, p. 374-376.
3. ZWAAG, M. D. Van Der; WESTERNIK, J. H. D. M.; BROEK, E. L. Van Den. Emotional and Psychophysiological Responses to Tempo, Mode, and Percussiveness. Musicæ Scientiæ, Hannover, v. 10, n. 2, p. 250-269, 2011.