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Adeus ao Big Brother Brasil

Programas como BBB e The Voice trabalham com o narcisismo baseado na concorrência

Tim Johnson / Flickr: Say Hello to Big Brother WiLlie / CC BY 2.0

As mídias sociais tomaram de forma avassaladora o lugar da televisão nos programas do tipo reality show

No filme Birdman ou (A inesperada virtude da ignorância), de 2015, do diretor Alejandro González Iñarritu, o ator Michael Keaton fica preso do lado de fora do teatro onde estava ensaiando. Às vésperas da estreia, ele se vê obrigado a desfilar de cueca e meias pela Avenida Broadway, em Nova York, diante das câmeras e celulares da massa de circulantes pela qual é reconhecido. Para alguém da sua geração (ele deve ter uns 60 anos) uma gafe como essa é o decreto de encerramento de sua carreira e pena máxima contra uma peça promissora. É um suicídio social. Contudo, não é assim nos tempos atuais. O assunto vai para o Twitter, Facebook e viraliza-se de tal maneira que o imprevisto deixa de ser um desabono e passa a representar uma marca de autenticidade.

Em um mundo que administra cada vez mais a vida privada por meio de rituais de exposição e por reconstruções manipuladas de afetos, gostos e disposições, os pequenos deslizes e atos falhos assumem um valor cada vez mais decisivo. Se tudo é teatro, a única verdade virá da queda da máscara, da degradação do personagem, da revelação súbita da insustentável aspereza do ser. Se a vida é, como escreveram Shakespeare e Faulkner, uma “história contada por um idiota, com som e fúria, completamente sem sentido”, o que resta da verdade está em sua prima irmã chamada autenticidade, cujo aparecimento é fugaz, mas insidioso nas formações do inconsciente como nossos sintomas, atos falhos, chistes e lapsos.

Os reality shows, mais particularmente os que se desenvolvem em uma casa e mostram a intimidade das pessoas e suas relações, como o Big Brother, apoiam-se em uma combinação de dois efeitos: a brincadeira com o litoral de intimidades e o efeito de verdade causado pelo imprevisto. Há uma grande tentação narcísica que os une. Quem acompanha a série Big Brother fica inicialmente cativado pela ideia de que qualquer um pode estar na televisão, ser visto e apreciado por muitos espectadores e tornar-se objeto de interesse e atenção.

“Qualquer um é alguém” – é uma descoberta muito democrática e um ideal simbólico digno de defesa coletiva. Mas isso tem um efeito colateral. Quando ser alguém é somente o efeito de ser popular, famoso ou célebre, esse alguém assim, formalmente considerado, é meio vazio. Isso demonstra que a pessoa deseja ser reconhecida, mas não como ela deseja ser reconhecida e muito menos por quem. Ser reconhecido por uma massa amorfa de espectadores imaginários é ser reconhecido por escravos. Nada mal para alguém que antes se sentia ninguém, mas que valor isso tem quando se é alguém entre outros alguéns?

A morte do BBB

Colocar pessoas reais para representar a si mesmas, dissolvendo o litoral entre espaço público e espaço privado, parece com a brincadeira infantil de flagrar a intimidade dos adultos, ou olhar pela fechadura da porta. Como no fenômeno correlato das redes sociais o exibicionismo" (ou voyeurismo) não ocorre sem uma combinação entre narcisismo e identificação, se olharmos para trás, veremos que a fórmula original do Big Brother, puramente exibicionista, já faleceu faz tempo. Houve uma mutação dos realities da vida comum, em uma casa comum, com pessoas comuns, para uma espécie de gincana de sobrevivência, força ou habilidade, do tipo Survivor, The Voice ou Hell´s Kitchens.

Esse é um recurso para introduzir mais ação na cena e estimular nosso narcisismo concorrencial. Tal correção paliativa, mesmo que ao combinar as duas coisas, como em A Fazenda, nos leva a um formato muito regressivo. São variantes das gincanas e dos quiz shows dos quais estamos cansados, tanto por pertencem ao nosso passado televisivo, quanto porque a vida banal tornou-se cada vez mais estruturada como um jogo, mais precisamente como um vídeo game. Uma identificação só se renova se contiver uma pitada adicional de “autenticidade”.

No Big Brother o paredão é um método substrativo pelo qual descobrimos o quanto somos amados pelos outros, unicamente porque, afinal, a pessoa me ama mais do que esse outro que nós excluímos.

A fórmula inicial que afirma: "para ser um ator basta ser você mesmo" funciona como uma espécie de desculpa ou consolo para nosso sentimento de que a vida é cada vez mais inautêntica, poser ou fabricada. Mas se somos o que olhar do outro define, se não há nada nem ninguém que por seus atributos substancialmente diferentes ou especiais seria intrinsecamente merecedor de reconhecimento, isso representa uma mudança em relação ao antigo fenômeno das novelas. Nelas, era necessário um trabalho tanto para manter e enriquecer a identificação com um determinado personagem quanto o trabalho do ator para fazer valer tais traços.

O problema é que ser amado ou admirado pela bonita imagem que produz é uma forma de reconhecimento de baixíssimo valor agregado. A imagem é o símbolo de um processo. Quem se identifica com ela para “pular” o processo, cedo ou tarde terminará sendo o que se projeta no vazio. É isso que traz trágicas dificuldades para modelos, ex-misses, crianças prodígios e alunos brilhantes. Nessa condição, permanecemos prisioneiros de um amor que está sempre no primeiro capítulo e nunca faz história.

Esse amor incondicional, amnésico, que independe do que se faz, pode ser esperado de pais e mães, mas é suspeito quando aparece como um ideal entre amantes. Infelizmente, ser rico ou poderoso no Brasil ainda está muito associado a essa forma simples e infantil de reconhecimento. Nossa conivência com fenômenos como corrupção, desperdício e ostentação depende, em alguma medida, de acreditarmos que o importante é ter dinheiro ou uma imagem para ostentar, e não uma boa história para contar sobre a conquista das suas riquezas, ou sobre o trabalho que dá construir uma imagem compartilhada (em que todos nós podemos nos reconhecer).

Eu te amo, você me ama, nós nos odiamos

Depois do momento “eu te amo, você me ama”, deveria vir o capítulo: “o que vamos fazer com isso”? Se não passamos dessa primeira etapa, a novela será reprisada em torno de duas perguntas que, no final são a mesma: “mas, você me ama mesmo”? Ou: “quem e o quê podemos excluir para que você me ame mais ainda”? O psicanalista francês Jacques Lacan denominou esse comportamento de complexo de intrusão, algo que remonta à prática infantil, depois reeditado como identificação histérica de que a prova do amor de alguém é a exclusão de um terceiro que seria preterido. Essa é uma forma pós-moderna de enunciar a crise edipiana.

O correlato disso no Big Brother é o paredão, ou seja, um método substrativo pelo qual descobrimos o quanto somos amados pelos outros, unicamente porque, afinal, ele me ama mais do que esse outro que nós excluímos. O perigo aqui é que temos de segregar mais e mais para confirmar nossa escolha narcísica. Isso torna o ciúme e a paranoia uma necessidade e não a exceção. É por isso que o programa se chama Big Brother e não Big Father.

No romance 1984, de George Orwell, publicado em 1949, a figura do Big Brother (Grande Irmão) era uma instância de controle e vigilância, mas também de adoração, complementar ao ódio que todos deviam cultivar por Emanuel Goldstein (o traidor foragido). Um dos aspectos desse novo mundo é que ele teria uma nova língua. “Duplipensar” é a palavra desta “novilíngua” que corresponde à ideia de que é possível conviver simultaneamente com duas crenças completamente opostas e aceitar ambas. O declínio de audiência do programa televisivo Big Brother em quase todas as partes do mundo, talvez possa ser explicado pelo seu próprio sucesso.

A nova lei, banal no trabalho e na vida, é este “duplipensar”, sem contradição entre imagem e vacilo, sem litoral de intimidade, sem instante de verdade que não seja capitalizável para o olhar do outro. É assim que a “novilíngua” do amor fácil tornou-se a “velha língua” do ódio ressentido, ou seja, é melhor partir para outra. O Big Brother declina como um brinquedo velho, que deixamos no fundo da caixa, para nos lembrarmos de que um dia fomos crianças e que acreditávamos na virtude da ingenuidade. Naquela época, ainda achávamos que bastava ser fofo e fazer umas caretas para conquistar aplausos da multidão, formada pelo papai, mamãe, titia e outros familiares.

Foto: Nik Gaffney / Flickr: zzkt / CC BY 2.0


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