Na obra de Platão, fala-se da preexistência da alma. Quais as condições para pensá-la como racional ou como mito?

A imortalidade da alma é uma das teses mais características e influentes do platonismo. Está atrelada à noção de realidade, em que a natureza humana está dividida entre alma, como sede da identidade, do pensamento e da deliberação, e o corpo, como o seu sustentáculo, que em geral é tido como obstáculo ao pleno exercício de suas capacidades. A doutrina das formas em Platão defende o ponto de vista de que existem realidades invisíveis e inacessíveis aos sentidos, apreensíveis apenas pelo pensamento, uma atividade da alma, que conhece plenamente tais realidades em um estado de completa independência das limitações impostas pelas sensações. Porém, para tratar de um tema complexo, de difícil compreensão, Platão recorre a um expediente importante: expressar-se também por meio de mitos ou narrativas típicas da tradição poética – outra maneira, mais familiar ao leitor, para abordar temas de assimilação tão complexa. Essa libertação da alma só alcança esse pleno conhecimento da suprema realidade suprassensível depois da morte, com o desaparecimento do corpo. Com a morte, a alma conhece as Formas e nelas se reconhece, em alguma medida, porque a alma tem afinidade e parentesco com elas, e por isso pode conhecê-las. Portanto, os mitos são modos de explicação da imortalidade da alma para a realidade do homem, enquanto este vive na experiência, e ainda não é capaz de compreender o estado de identidade e imutabilidade, a imortalidade da alma.