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Vale a pena fazer cosméticos em casa?

Mulheres ensinam receitas caseiras de desodorantes e shampoos; mas dermatologistas alertam sobre a falta de segurança desses produtos e indicam alternativas

Marina Fontanelli

A maioria de nós é habituada, desde criança, a consumir os produtos de higiene pessoal anunciados nas peças publicitárias e encontrados sem dificuldade em farmácias e supermercados. No entanto, raramente nos perguntamos do que são feitos esses produtos, se existe algum risco em consumi-los e, sobretudo, por que usar esses e não outros ou até mesmo fazê-los em casa?

“Estamos expostos a substâncias que não sabemos da onde vieram ou o que podem causar. Somos cobaias desse sistema da beleza, remédios, copos de plásticos e por aí vai”, diz Viviane Noda, que optou por fazer em casa seus próprios cosméticos.

Você sabia, por exemplo, que na fórmula da maioria dos desodorantes e shampoos estão presentes substâncias que atuam como disruptores hormonais? “Não se pode afirmar que essas elas são cancerígenas, mas sabe-se que afetam a produção e a ação natural dos hormônios no corpo podendo causar problemas cumulativos com o uso diário como a obesidade e até o aborto espontâneo”, afirma a dermatologista Sonia Corazza que há quase 40 anos trabalha na área de pesquisa, criação e desenvolvimento de produtos cosméticos.

“O triclosan, que é o disruptor hormonal presente em alguns desodorantes, também apresenta efeitos adversos para o meio ambiente como a contaminação das águas, comprometendo a procriação de algumas espécies”, pontua Corazza.

Com relação aos desodorantes antitranspirantes, também há suspeitas de que o uso diário do cloridróxido de alumínio esteja relacionado à incidência de doenças neurodegenerativas, como o Alzheimer, ou ao câncer de mama. No entanto, não existem informações científicas que confirmem essas suspeitas.

Já nos shampoos, a família dos sulfatos é o principal alvo de críticas, sobretudo, o lauril sulfato de sódio presente na maioria dos shampoos vendidos em farmácias e supermercados. “Os sulfatos são agentes irritantes do couro cabeludo e disruptores hormonais. Por isso, é recomendado procurar por produtos livres de sulfatos”, indica Corazza.

Fazer ou não em casa?

Produzir cosméticos em casa é uma escolha adotada por pessoas que querem fugir dos riscos dos produtos convencionais. Viviane Noda, que compartilha suas receitas de cosméticos em um blog, relata que a mudança começou com uma reflexão sobre o cuidado com o próprio corpo.

“Há algum tempo atrás eu tinha muita dor de cabeça, enxaqueca, infecções urinárias, sinusites e sempre precisava tomar remédios. Fiz alguns cursos de plantas medicinais e me apaixonei! De repente eu já estava entendendo a lógica das plantas e a necessidade de me cuidar constantemente. Nessa época, eu já tinha minha hortinha, já cozinhava praticamente tudo o que eu comia e os chás eram mais presentes. Até que comecei a pensar nas plantas para usos externos e refletir sobre as ações de substâncias sintéticas que estamos expostos no nosso dia a dia. Uma das primeiras coisas que li foi sobre a composição absurda do desodorante. Passei a usar bicarbonato de sódio dentro da meia calça, era só dar uma batidinha nas axilas e pronto. Mas tive alergia, então decidi procurar algumas receitas e cheguei aos desodorantes que faço e uso até hoje”, relata Noda.

Ela faz duas receitas de desodorante:

  • Em creme: bicarbonato de sódio, óleo de coco e algumas gotas de óleos essenciais.

  • Líquido: bicarbonato de sódio diluído em água e algumas gotas de óleos essenciais.

“Um dia fui a um sebo no centro de São Paulo e achei um livro que chama Beleza Natural que ensina muitas receitas caseiras. A primeira coisa que fiz foi tentar uma máscara facial de mel, limão e óleo de amêndoas para pele oleosa e achei demais. Desde então, tenho experimentado shampoos, condicionadores, manteiga de cabelo, pasta de dente, desodorante, sabonetes, pomadas, tudo natural”, conta Noda.

Para Corazza, fazer esse tipo de receita em casa não é uma boa opção. “Sou formuladora de cosméticos há quase 40 anos. Eu parei de recomendar produtos caseiros, porque, dificilmente, quando as pessoas fazem em casa, elas usam os ingredientes corretos e as dosagens adequadas e acabam tendo problemas”, ressalta a dermatologista que também é cosmetóloga, engenheira química e perfumista.

“Pessoas com pré-disposição para desenvolver reações de sensibilidade cutânea podem apresentar eritemas, coceira ou desconforto a essas receitas”, explica Corazza. Já a dermatologista Christiana Alonso afirma que a alergia ao bicarbonato de sódio diluído não é comum, mas ressalta que também não costuma recomendar produtos caseiros. “É sempre um risco o que a gente faz em casa, porque não existem testes para saber se aquele produto vai ser eficiente e seguro”, explica Alonso que é mestre e doutora pela Universidade de São Paulo (USP).

A psicóloga Teresa Cristina de Mello de 57 anos trocou o desodorante comum pelo leite de magnésia depois que descobriu a possibilidade de relação entre o desodorante convencional e o câncer de mama. “Para mim, o leite de magnésia é muito eficiente. Eu passo uma vez pela manhã e ele funciona o dia todo. Eu transpiro, mas não fico com mau cheiro”, relata. A psicóloga costumava fazer com certa frequência a pulsão de cistos mamários. Coincidência ou não, depois que trocou o desodorante não precisou mais fazer esse procedimento.

Para Alonso, o uso do leite de magnésia nas axilas não tem contraindicação. Ela afirma que também é possível misturar meio a meio com álcool para ampliar a ação bactericida. Já Corazza, pontua que o leite de magnésia não passou por testes de segurança para ser usado na pele. “É um produto testado para o estômago que é ácido e atua na digestão, já a pele não, é um órgão de defesa”, ressalva.

Tanto o bicarbonato de sódio usado por Viviane como o leite de magnésia usado por Teresa alteram o pH do suor e afastam os microrganismos que causam mau cheiro, mas não bloqueiam o suor.

Qual é o melhor shampoo?

O No Poo ou Low Poo é um movimento que teve início nos Estados Unidos e defende o não uso de shampoos ou seu uso reduzido. No Brasil, esse movimento vem ganhando força e muitas mulheres já optam por outros métodos de fazer a limpeza do couro cabeludo. A estudante de psicologia Alessandra Azevedo, por exemplo, já lavou os cabelos com vinagre de maça e bicarbonato de sódio diluído, mas agora faz uso da farinha de centeio diluída em água morna. “Comecei a usar a farinha de centeio por causa do pH dela que é mais compatível com o do nosso couro cabeludo. O vinagre também procuro sempre um com valor próximo, não pode ser qualquer um”, diz Azevedo.

“A farinha de centeio e o vinagre de maça não são agentes de higiene, apenas conseguem deixar os fios e o couro cabeludo com o pH alterado”, analisa Corazza. “O vinagre contém ácido acético que é um ingrediente com alta capacidade de causar coceira no couro cabeludo. Além de não limpar, atrai microrganismos oportunistas que se proliferam facilmente no ambiente quente e úmido da cabeleira, trazendo outros problemas como dermatites e micoses”, contraindica a dermatologista.

Mulher pingando algumas gotas de óleo de lavanda em um recipiente de vidro

Corazza também não recomenda de maneira alguma o uso do bicarbonato de sódio para limpar o cabelo. “É um sal com grande potencial de alterar o pH do couro cabeludo e, desta maneira favorecer a proliferação de microrganismos oportunistas”, diz.

O uso de shampoos convencionais, no entanto, também pode ser agressivo ao couro cabeludo. “Por exemplo, se você usa muito aquele shampoo de limpeza profunda, pode prejudicar a camada protetora da cabeça. O indicado é alternar o produto de acordo com a condição do cabelo”, afirma Corazza.

Alonso também ressalta que o importante é escolher um produto adequado ao tipo do seu cabelo, ao seu couro cabeludo e à quantidade de “química” que você utiliza. “Os shampoos sem sal costumam ser mais eficientes para cabelos virgens de tratamentos”, exemplifica a dermatologista.

Há quem utilize mais de um tipo de shampoo em uma lavagem. Corazza critica esse tipo de uso, pois não fica claro qual é a condição do seu fio e, assim, não se pode reconhecer se o shampoo está sendo eficiente ou não. “É como se aquela formulação não soubesse o que fazer e o ingrediente não tivesse condição de agir”, explica.

Qual caminho seguir?

“O que não faço, procuro comprar direto com pessoas que fazem. Todo o conhecimento das propriedades das plantas medicinais é muito significativo para os cosméticos. Acredito que os cosméticos naturais fazem parte de uma vida mais consciente. Os produtos não têm só finalidade estética, mas também funcional. São complementos para vivermos com saúde. Acredito no autoconhecimento e na interação que conquistamos com nós mesmos e os cosméticos naturais são apenas uma parte disso. Precisamos entender, dar espaço e acreditar em nossa capacidade linda de regeneração com auxílio da natureza, aliás, tudo que conhecemos hoje, mesmo em escala industrial, veio do mato. Não tomo mais remédios, não tenho mais gastrite, nem sinusite, nem infecção urinária, no mínimo há dois ou três anos, desde que mudei meus hábitos”, relata Noda.

Já para Corazza, não se deve enveredar pelo caminho de fazer receitas sem um mínimo de conhecimento de química e bioquímica, além de anatomofisiologia cutânea. “Existem muitas empresas cosméticas idôneas que formulam produtos adequados e seguros toxicologicamente. O Brasil não possui regulamentação para cosméticos orgânicos, mas há marcas confiáveis”, recomenda a dermatologista. “Hoje, você também encontra produtos bons por preços acessíveis tudo pela internet. Outra dica é comprar produtos com o selo Ecocert que é uma certificadora internacional”, aconselha.

“Existem produtos industrializados péssimos e maravilhosos. Sou a favor da educação, somente com conhecimento é possível fazer escolhas acertadas”, conclui Corazza.

Foto: Marina Fontanelli