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Tatuagem: apagar não é nada simples

A dermatologista Valéria Campos explica que as técnicas para remoção a laser podem deixar cicatrizes

Micael Faccio / Flickr: Tatuagem carpa koy tattoo / CC BY 2.0

Ainda não existe garantia de que o pigmento possa ser completamente removido

"É importantepensar bem antes de se fazer uma tatuagem", alerta Valéria Campos, dermatologista especializada em laser pela Escola Médica de Harvard e Hospital Geral de Massachusetts, ambos nos Estados Unidos. Segunda ela, muitas pessoas se deixam levar pelo calor da emoção e, por mais que as técnicas de remoção a laser tenham se desenvolvido nos últimos anos, ainda não existe garantia de que o pigmento possa ser completamente removido caso mudem de ideia e resolvam apagar a tatuagem.

O conselho da dermatologista pode soar corriqueiro, algo que ouviríamos de amigos ou parentes conservadores, mas as estatísticas mostram que o arrependimento ébastante frequente. Uma em cada três pessoas se arrepende da tatuagem que faz, revelou um estudo desenvolvido pelo Hospital Royal Blackburns, da Inglaterra.

Os dois motivos mais apontados pelos entrevistados para o remorso foram: eram jovens demais quando tomaram a decisão e optaram porlugares inadequados. Os críticos têm, portanto, um tanto de razão. Ao escolherpor fazer uma tatuagem é preciso considerar fatores como as mudanças pelas quais o corpo vai passar ao longo do tempo e analisar a possibilidade deoptar por um lugar que possa ser facilmente escondido.Os homens são os que mais se arrependem, especialmente se a tatuagem foi feita antes dos 16 anos.

As sessões de remoção a laser podem gerar algunsproblemas como alergias, pequenas cicatrizes e queimaduras. Além disso, um eventual câncer de pele ainda pode ser descoberto escondido por trás de pigmentos escuros.

Valéria Campos explica com mais detalhes como funciona o processo utilizado para apagar os desenhos e os perigos da técnica, em entrevista exclusiva ao Portal NAMU.

O tratamento a laser é o mais recomendado para remoção de tatuagens e é capaz de apagá-las totalmente?

O laser é o método mais eficaz quando se fala em remoção de tatuagem. A combinação de aparelhos é uma saída para intensificar resultados e melhorar as respostas da sessão. Quanto à remoção total ou parcial da tatuagem, isso irá depender do quão profundo o pigmento penetrou na pele. As tatuagens amadoras são mais fáceis de serem 100% removidas, já no caso das profissionais e multicoloridas não existe essa garantia.

É preciso saber também que cada pigmento reage de forma diferente ao laser e somente no decorrer das sessões o médico saberá qual será a evolução do tratamento. Maquiagens definitivas, por exemplo, são muito difíceis de serem removidas. Muitas contêm óxido de ferro e dióxido de titânio que, ao entrarem em contato com o laser, escurecem ainda mais a tinta e dificultam a remoção.

Valéria CamposQuais são os riscos e efeitos colaterais dessa técnica?
O principal risco é a remoção parcial da tatuagem, mas existe chance de restarem lesões residuais, como pequenas cicatrizes. A hiperpigmentação da área, quando a pele da região fica mais escura que a pele entorno, é um risco que irá depender da resposta imune de cada pessoa.

O laser quando usado incorretamente pode causar queimaduras na pele e bolhas. Os efeitos colaterais mais recorrentes após os tratamentos são vermelhidão e hipersensibilidade. Pomadas anestésicas e cicatrizantes aliviam esses sintomas rapidamente.

Como é o procedimento para remover tatuagens?
Para remover tatuagem, usa-se geralmente o laser Q-Switched, que possui um comprimento de onda capaz de atingir o pigmento sem causar danos aos tecidos da pele. Durante o procedimento, o dermatologista aplica o laser na pele e, para diminuir o desconforto, aplica no local um vapor resfriador, que torna o procedimento menos dolorido. Em pacientes mais sensíveis à dor aplicamos uma pomada anestésica no local.

O laser destrói o pigmento da tatuagem. Suas partículas são expelidas pelo sistema linfático, responsável pela “faxina” do nosso corpo. Nessa quebra de moléculas esconde-se o perigo. Muitas tintas utilizadas pelos tatuadores não são reconhecidas pela Anvisa e podem conter partículas como mercúrio e cádmio que, ao serem quebradas, transformam-se em substâncias tóxicas.

O que a pessoa deve saber antes de iniciar o tratamento?
Não há garantia de remoção de 100% da tatuagem, isso é o que a pessoa deve ter em mente. O tratamento é feito em várias sessões. O número vai depender do tamanho da tatuagem, das cores e da profundidade do pigmento. Uma tatuagem que cobre todo o braço demora muito mais do que uma de tamanho pequeno para ser removida. Mas o que mais influencia no número de sessões é se ela é amadora ou profissional, a qualidade da tinta, a quantidade de cores e em que profundidade da pele esses pigmentos se encontram.

Equipamentos de segurança devem ser usados pelo médico e pelo paciente, como óculos especiais que protegem os olhos da luz do laser.

Há riscos maiores para pessoas com peles negras?
Sim, mas apesar disso o laser ainda é o melhor método para a remoção das tatuagens. Há a possibilidade de a pele tratada tornar-se mais clara do que o restante da pele e de ocorrer hiperpigmentação.

Quais cuidados ter antes e depois das sessões?
Evitar tomar sol por pelo menos 30 dias antes e depois de cada sessão é fundamental, já que peles bronzeadas são mais suscetíveis a queimaduras. Manter a área tratada coberta nos intervalos entre as sessões e respeitar a cicatrização natural da pele são cuidados importantes. E observar possíveis reações como elevações na pele, manchas, coceira, ardência e relata-las ao médico.

Não recomendamos o procedimento em grávidas e em pessoas com transtornos imunossupressores, como diabetes, vitiligo, psoríase e miastenia gravis.

Qual é a relação da tatuagem e o câncer de pele?
Aparentemente a tatuagem não atua diretamente no risco de câncer da pele. Existe, porém, o risco de que ela dificulte a detecção da doença. Por isso, deve-se evitar fazer tatuagens sobre sinais ou marcas de nascença. Nos casos de remoção, principalmente sobre pigmentos pretos, o dermatologista precisa ficar atento a pintas e sinais. Muitas vezes, descobre-se câncer de pele quando se está removendo uma tatuagem. Nesses casos é preciso parar o tratamento para cuidar primeiro do câncer.

Foto: Shutterstock