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Seria o mindfulness uma espécie de meditação fast-food?

Debate global questiona a utilização desse método e seu descolamento das tradições orientais que deram origem à prática

bertk212 / Flickr: Meditation / CC BY-ND 2.0

Kabat-Zinn define a prática como “prestar atenção de propósito no momento presente, sem julgamentos”

A prática da meditação ganhou um novo fôlego no universo científico e na grande mídia com a popularização do conceito de mindfulness, expressão que tem sua origem em tradições contemplativas orientais e pode ser traduzida em português como “atenção plena”. Além desse estado mental, o termo também é utilizado com frequência para designar um conjunto de técnicas ou programas estruturados de treinamento, como o Mindful-Based Stress Reduction (MBSR), criado por Jon Kabat-Zinn.

Nos países desenvolvidos, principalmente nos EUA, a rápida ascensão dessa prática vem despertando um debate sobre uma suposta distorção de sua concepção inicial, além da apropriação indevida do mindfulness pelo mercado e o Exército, os quais teriam transformado esse tipo de metditação em mero produto destinado a quem busca por resultados. A discussão gerou um novo termo: McMindfulness, uma clara referência aos restaurantes fast-food e uma analogia à sua propagação como uma solução rápida e fácil para problemas de saúde, situações de estresse, melhora na atenção ou transtornos mentais.

Na última década, as promessas de redução de estresse, de combate à ansiedade e do aprimoramento de funções cognitivas fizeram com que diversos setores da sociedade iniciassem projetos de meditação mindfulness. Escolas, empresas, prisões, hospitais, bancos e até mesmo o Exército norte-americano passaram a praticar essa técnica. A boa fama também tem sido sustentada pela ciência, a qual frequentemente publica estudos demonstrando os efeitos positivos da meditação da atenção plena para a saúde e o bem-estar. Como em muitas outras situações, a cultura ocidental, de certa maneira, teria se apropriado de uma tradição oriental, ignorado sua história e a transformado em uma espécie de ferramenta secular e acessível. No caso do mindfulness, a técnica se tornou, em muitos casos, um budismo sem budismo, por mais estranho que isso possa parecer.

Distanciamento das origens

Uma das principais críticas ao mindfulness é sobre a utilização da meditação totalmente descolada das bases éticas e filosóficas que fundamentam as tradições onde ela se origina. Na busca por uma linguagem não religiosa que possa despertar o interesse das mentes ocidentais, a prática acabaria deixando de lado conceitos importantes sobre ética, compaixão e florescimento humano. Um exemplo muito utilizado é o de um executivo truculento e ganancioso que apenas tornaria seu trabalho mais eficiente com o auxílio da meditação.

“Quando falamos de budismo, falamos de um caminho que implica uma disciplina, uma filosofia de vida, uma maneira de ver a vida. O objetivo mais geral da prática de meditação é conseguir aquietar a mente, ter uma mente clara. Ele é importante porque os ensinamentos falam sobre a natureza da mente e ajudam a entender como surgem a ilusão e a ignorância”, explica Rubens de Aguiar Maciel, psicólogo e coordenador do Programa de Redução do Estresse baseado na Meditação da Atenção Plena, na Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP).

Empresários

“O programa [criado por Jon Kabat-Zinn] está associado a aumento da compaixão, da cooperação, equanimidade, empatia, cultura de paz, diminuição da violência. O problema acontece quando o mindfulness é ensinado por alguém que não se preparou adequadamente para isso, qualquer que seja o contexto em que ele está aplicando”, aponta o médico e pesquisador da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Marcelo Demarzo, que coordena o Centro Brasileiro de Mindfulness e Promoção da Saúde. A tese de Kabat-Zinn englobaria, segundo Demarzo, diversas questões éticas encontradas no budismo, com a única diferença de utilizar uma linguagem secular.

Cursos duvidosos

Somado a todas essas críticas, está também o crescimento do número de pessoas que ensinam mindfulness. Isso criou um outro problema: a qualidade dos cursos. Muitos deles são feitos em pouquíssimos dias. Alguns se dizem capazes de ensinar a prática pela internet. Não seria fácil se tornar um professor de mindfulness, logo, não faz muito sentido toda essa miríade de cursos espalhados pelo mundo.

“Você tem algumas formações muito curtas dadas por pessoas que não tem uma qualificação ou prática consolidada. Os programas mais conhecidos como o MBSR têm uma série de pré-requisitos e para se tornar um instrutor você leva anos”, afirma a pesquisadora em neurofisiologia de estados de consciência Elisa Kozasa do Hospital Albert Einstein e também da Unifesp. Ela destaca que a preparação do instrutor é fundamental. Segundo Kozasa, é preciso existir uma regulamentação mínima para que alguém possa ensinar esse tipo de programa. “E isso não acontece só com mindfulness, você vê por exemplo o coaching. Qualquer pessoa pode se formar como coach também, isso é complicado”, acrescenta.

Ela acredita ainda que, justamente por buscar uma linguagem mais acessível para os ocidentais, a meditação mindfulness pode ser também uma porta de entrada para pessoas interessadas em se aprofundar nas práticas de um ponto de vista mais tradicional. “Eu não tenho nada contra esses programas, porque eles trazem um benefício e podem servir como uma oportunidade para pessoas que nunca tiveram um contato com a prática de terem isso em um programa curto, breve, para experimentar”, diz.

Motivação adequada

“Depende muito da motivação real da empresa”. Questionada sobre o caso da companhia que busca a meditação com o objetivo de aumentar a produtividade de seus funcionários, Kosaza lembra que o que deve ser priorizado é o bem-estar das pessoas. “A contribuição real vem a partir do momento que o indivíduo está totalmente integrado com a filosofia da empresa, com a missão, e se o foco for apenas o aspecto financeiro, eu acredito que é um tiro no pé”, afirma a pesquisadora.

Outros setores também passaram a utilizar o mindfulness como uma ferramenta para aumentar a atenção e isso gerou muitas críticas na mídia. O mais famoso e o caso dos marines, fuzileiros navais norte-americanos, que passaram a praticar essa meditação para reduzir o estresse antes de embarcar para missões de guerra e assim poder ter uma melhor atuação no campo de batalha. A questão que se coloca nesse caso é que essas pessoas estariam utilizando o mindfulness para se tornarem melhores soldados, o que, por sua vez, seria diamentralmente oposto aos ideais budistas de onde o mindfulness teria surgido. Para muitos críticos, esse tipo de meditação foi sequestrada por essas pessoas e estaria cumprindo uma função que não condiz com os ideais de seus criadores. Seria algo tão absurdo quanto oferecer um treinamento de mindfulness para um atirador de elite. Assim, ele seria capaz de acalmar sua mente, se concentrar mais e se tornar um soldado mais apto e eficiente na função de matar pessoas.

A resposta que a maioria dos professores e praticantes de mindfulness dá é que a meditação e a ação estariam totalmente ligados. Portanto, o mindfulness não poderia ser utilizado apenas como uma ferramente para melhorar a capacidade cognitiva e a concentração. É o que pensa, por exemplo, Maciel: “Por isso que a gente fala que se você almeja uma mente serena, a ferramenta é a técnica do foco da atenção, seja na respiração ou em outro objeto. Mas você tem todo um estilo de vida que te leva a um estado positivo. O atirador de elite vai atirar melhor, mas por certo ele vai ter consequências dessas ações. Se ele vai sofrer com culpa ou não eu não sei, a gente precisa estudar, mas em geral isso acontece”, opina.

Demarzo lembra, no entanto, que mesmo um centro budista pode atuar com motivação e instruções equivocadas. “Não é porque você está em um contexto supostamente mais respeitado que exista garantias de que aquilo vá ser passado da maneira correta. Então acho que o mais importante é o como fazer e como você foi treinado para fazer, independente de estar em um contexto de organização, saúde, educação ou até mesmo do budismo”, complementa.

Fotos: Shutterstock; Take Back Your Health Conference / Flickr: takebackyourhealthconference / CC BY 2.0


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