Namu é

Conheça mais sobre o NAMU

Receitas

Filé de frango com tomate, arroz preto e espinafre

Saiba mais sobre

Revolução nas escolas do Espírito Santo

Projeto apoiado pela Secretaria da Educação vai trabalhar meditação e inteligência emocional dentro das salas de aula

suc / Pixabay / Public Domain

Uma crítica bastante comum aos modelos tradicionais de educação refere-se à falta de capacidade das escolas e dos educadores para lidar com questões subjetivas que vão além dos conteúdos discutidos em sala de aula. Aspectos como a capacidade de concentração dos alunos, a inteligência emocional da cada um e as competências e capacidade de se relacionar com os outros e tomar melhores decisões, por exemplo, ainda são raridade nos currículos da maioria das instituições de ensino do país. Nesse sentido, a regra mais comum é a do salve-se quem puder.

A inexistência de trabalhos voltados para essas questões comportamentais nas escolas abre caminhos para problemas graves, entre os quais estão os casos de bullying, comportamentos violentos, desrespeito entre alunos e desrespeito de alunos para com professores, além, obviamente, de ambientes assim reduzirem drasticamente o desempenho de milhares de estudantes.

Para transformar essa realidade, a Secretaria de Educação do Espírito Santo, em parceria com o Instituto Migliori, o Ministério Público do Estado e a ArcelorMittal, iniciaram o projeto "Educação em Valores, Desenvolvimento Humano e Cultura de Paz”. O trabalho foi implementado em 15 escolas da Grande Vitória durante o ano de 2015.

A coordenação do projeto é da neuropsicóloga e pesquisadora Regina Migliori, responsável pela criação do “MindEduca”, programa que orienta todas as ações realizadas nesse projeto. Migliori concedeu entrevista ao Portal NAMU para falar mais sobre o projeto que pretende integrar conhecimentos da neurociência e de tradições contemplativas para melhorar o equilíbrio subjetivo e ajudar no aperfeiçoamento pessoal, com foco em valores e cultura e paz.

Portal NAMU: O que é o programa MindEduca que está sendo implementado nas escolas estaduais do Espírito Santo?
Regina Migliori: O programa parte da visão de um cenário de educação centrado em valores como desenvolvimento humano. Nessa perspectiva do desenvolvimento de uma inteligência ética, cujo resultado final é o estímulo à cultura de paz e a criação de um ambiente onde as relações possam ocorrer de forma mais harmônica. As atividades do MindEduca integram práticas de mindfulness, psicologia positiva, conhecimento neurocientífico, estratégias de desenvolvimento humano e toda essa metodologia tão adequada à educação.

A partir de um piloto realizado com duas escolas do município de Serra, em 2014, tivemos um resultado extremamente positivo. A partir daí surgiu o interesse de expandir isso para outras escolas do Estado, que é o que vem acontecendo nesse ano. A edição atual, que está sendo realizada com escolas da grande Vitória, estamos com 380 professores que vão impactar cerca de 10.500 estudantes e suas respectivas famílias, porque o programa envolve os estudantes, os educadores, as famílias e a escola como um todo, ou seja, toda a comunidade escolar.

Os professores também participam de uma formação?
A primeira parte do programa é 100% dedicada aos educadores. Eles passam por uma imersão de oito semanas, com base em pesquisas neurocientíficas que mostram que nesse período podem ocorrer uma série de transformações em nossas redes neurais a partir da execução de um determinado conjunto de práticas. Todos os participantes, que se inscreveram voluntariamente, começaram o programa em um workshop presencial, onde fizemos um levantamento dos maiores desafios das escolas a partir dos cinco eixos com os quais o programa trabalha: atenção, emoções, aprendizagem, convivência e processo decisório.

Ao longo dessas oito semanas iniciais, os educadores participam de uma comunidade virtual de aprendizagem onde eles têm o acesso a um conjunto bastante significativo de conteúdos, de conhecimento. Além disso, eles participam de uma série de atividades, de planos de ação, de perspectivas do que eles imaginam realizar em sala de aula, e também são estimulados a adotar práticas pessoais de meditação.

E como ele funciona na prática, dentro da sala de aula?
Toda a estrutura prática do programa funciona em torno de dois grandes vetores: as práticas introspectivas e práticas de comportamento externalizado. Dentro das práticas de introspecção nós estamos trabalhando a meditação mindfulness, para todo esse desenvolvimento do sistema atencional, da estabilidade das emoções, o trabalho com os direcionamentos da psicologia positiva. É uma junção de práticas milenares com evidências neurocientíficas. Utilizamos conhecimentos de áreas como neurociência cognitiva e comportamental, a psicologia positiva, tudo isso adaptado para a educação. Nas práticas externalizadas, é feito um trabalho de construção de práticas, atividades e exercícios voltados para o comportamento.

Nós trabalhamos com os seguintes eixos: atenção e emoções, que formam o mundo interno; aprendizagem, que é a instância mediadora entre o mundo interno e o mundo externo; convivência e decisão, que se referem às ações no mundo. Esses cinco pontos são trabalhados a partir de outras quatro potencialidades humanas. A felicidade, como um estado natural da nossa consciência, e não uma felicidade subordinada às causas e condições; o amor, essa habilidade de promover a felicidade, de aspirar à felicidade dos outros; o altruísmo, que está enraizado nessa capacidade de empatia, que é conseguir se transportar para a posição do outro, entender o que ele está sentindo, pensando, e encontrar a melhor forma de interagir; e a ética, que é a capacidade de produzir o bem comum.

Para isso usamos uma série de abordagens que hoje estão disponíveis, inclusive as práticas meditativas, que são muito importantes no desenvolvimento dessa capacidade de diálogo consigo mesmo, de perceber nossas reais motivações, de perceber se estamos ou não num nível de estabilidade emocional que nós poermite conduzir uma ação. Esse diálogo consigo mesmo é extremamente relevante e ele acontece fortemente através das práticas contemplativas.

Você comentou que o programa teve resultados muito positivos em experiências anteriores. Como funciona esse controle de qualidade?
Uma coisa importante dentro do MindEduca é que nós nunca atuamos diretamente dentro da escola, porque a ideia é fortalecer o papel e a autonomia do educador, para que possamos ir embora e ele se sentir absolutamente seguro e confortável em dar sequência a essas ações.

E o que nós estamos monitorando? Todas essas dimensões do mindfulness que hoje já estão sendo investigadas, a melhoria dos níveis de atenção, a questão da estabilidade emocional. Tem outro indicador extremamente importante que é o da flexibilidade psicológica, essa capacidade de produzir alternativas diante de um desafio, diante de uma dificuldade, porque quem não consegue fazer isso acaba ficando aprisionado naquele cenário, não consegue enxergar uma possibilidade de transformação.

E os resultados não são só aquilo que se obtém em relação aos estudantes, mas também ao entendimento dos educadores da relevância desses aspectos. E da importância de conseguirmos, através desse processo de monitoramento, agregar novos indicadores no processo da educação formal. Quer dizer, isso que estamos monitorando vai se integrando aos indicadores da própria Secretaria Estadual de Educação, ela passa a incluir isso dentro dos seus resultados.

Os indicadores de educação no Brasil ainda estão muito voltados para retenção de conteúdo e freqüência, porém, nós estamos falando de indicadores de desenvolvimento humano, que é um outro formato de leitura a respeito do processo educativo. Eu acho que a incorporação institucional desses indicadores é uma contribuição muito importante que o programa está trazendo para a educação.

Qual é o papel da educação no estímulo ao desenvolvimento de uma cultura de paz?
Eu vejo alguns pontos muito importantes para que possamos entender a cultura de paz. Primeiro é a compreensão do valor universal paz. Logo imaginamos aquele ambiente em que todo mundo fala no mesmo tom, gosta das mesmas coisas, aquele padrão homogêneo. E a paz não é isso, a paz é um valor humano universal que se enraiza no respeito pelas diferenças. E como todo valor, a paz é um ponto de partida, não é um ponto de chegada.

Se colocamos um valor como uma meta a ser atingida, vamos ter um problema. Ninguém vai planejar, por exemplo, que no ano que vem seremos 20% mais éticos do que fomos nesse ano. Os valores são pontos de partida e a paz é um valor universal. Então esse respeito pelas diferenças tem de ser uma premissa, é dela que nós partimos para realizar uma ação, e a ação resultante dessa premissa é uma cultura de paz, que é exatamente um ambiente onde as diferenças têm condição de conviver.

O que se tem em uma cultura de paz é a administração dos conflitos, administração das diferenças, e o nome disso é harmonia. É só olharmos para uma orquestra ou um coral. Um canta grosso, um canta fino, um canta alto e o resultado disso é muito bacana. Então um ambiente de cultura de paz precisa, como ponto de partida, que as pessoas possam encontrar nelas mesmas aquilo que de fato elas verdadeiramente são. Então o valor universal paz não se desconfigura do valor da verdade, ou seja, o que eu verdadeiramente sou e o que eu verdadeiramente expresso.

Se existe essa possibilidade de aprender a se expressar no mundo naquilo que cada um verdadeiramente é, naturalmente isso abre espaço para que o outro seja verdadeiramente o que ele também é, e aí temos o modelo, a estrutura de uma cultura de paz. E a escola é o lugar perfeito para que isso possa ser treinado, possa ser aprendido. Uma cultura de paz precisa ser um ambiente harmônico onde as pessoas possam ter condições de viver da forma como verdadeiramente são. Não existe um modelo externo para isso, ele tem que brotar do lugar em que nós estamos, das pessoas que estão ali. São elas que precisam perceber e ter essa oportunidade de aprender, e a escola pode oferecer essa oportunidade.