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Remédios: solução ou problema?

Médico brasileiro lança livro para relatar práticas abusivas e questionáveis adotadas pela indústria farmacêutica

e-MagineArt.com / Flickr: e-Magine Art / CC BY 2.0

Entre os anos de 1998 e 2005, o MedWatch registrou mais de 80 mil mortes causadas por medicamentos

Em um mundo permeado pela velocidade e pelo consumismo, é natural esperar que as pessoas busquem respostas simples e rápidas para resolver conflitos de relacionamentos, questões sociais e até problemas de saúde. Dentro desse contexto, a indústria farmacêutica possui um papel fundamental. Em muitos casos, ela apresenta soluções que realmente ajudam indivíduos a combater doenças. Porém, em outros, esse consumismo transforma possíveis soluções em perigosos comportamentos, que podem ser profundamente prejudiciais à saúde. Esse é o tema do livro Remédios que curam: remédios que matam, do médico e cardiologista brasileiro Artur Lemos.

Na obra, o autor faz uma contundente crítica à medicina contemporânea e denuncia, por meio de reportagens e artigos publicados principalmente nos Estados Unidos, como ela vem se submetendo sistematicamente aos interesses da indústria farmacêutica. “Ao longo do século passado, a indústria farmacêutica foi criando uma relação positiva e até afetuosa com a sociedade. Um marketing agressivo voltado para divulgar benefícios dos remédios, fazendo crer que sempre cada um de nós encontrará no balcão da farmácia, um alívio para seus males”, escreve.

Uma faceta da indústria bastante explorada no livro é a iatrogenia, ou seja, as doenças criadas pelos próprios medicamentos. Lemos conta que, na prática clínica, é expressivo e notável o número de efeitos colaterais provocados pelos remédios. O FDA (Food and Drug Administration), órgão que regula o mercado de medicamentos e alimentos nos EUA, possui um programa chamado MedWatch para monitorar erros médicos e aumentar as informações sobre efeitos adversos das drogas. Entre os anos de 1998 e 2005, o MedWatch registrou mais de 80 mil mortes causadas por medicamentos, além de mais de 460 mil outros eventos sérios, que incluem incapacidade física, hospitalização e outras ocorrências graves.

Protocolos de tratamento

Segundo Lemos, muitos médicos se sentem obrigados a seguir condutas rígidas de tratamento, conhecidas como protocolos, geralmente difundidas por meio de trabalhos científicos patrocinados pela indústria farmacêutica. “Isso pode ocorrer subliminarmente ou até mesmo de forma direta. Se o corpo acadêmico de uma universidade ou os formadores de opinião divulgam que tal droga resolve esse ou aquele problema com efeitos colaterais mínimos, essa informação acaba chegando como uma verdade quase inquestionável aos médicos”, conta.

Outro agravante, em sua visão, é que essas informações são disseminadas pela mídia e os pacientes acabam procurando as novas “pílulas mágicas” com seus médicos. Tal equívoco não se restringe aos medicamentos, mas também aos conceitos sobre doenças. “Cada vez mais surgem evidências da relação entre poluição endógena e exógena e o aumento da incidência de diabetes no mundo. Porque o corpo acadêmico não se preocupa com essas questões? É plausível imaginar que o dinheiro que patrocina as pesquisas orienta também os temas a serem estudados”, denuncia o médico.

A ex-editora do New England Journal of Medicine, considerada a mais importante revista médica do mundo, Marcia Angell, se esforçou para chamar atenção para o problema da comercialização da pesquisa científica. Em seu editorial de saída da revista, intitulado A medicina acadêmica está à venda?, ela afirmou que crescentes conflitos de interesse estão manchando a ciência e cobrou a definição de maiores limites entre a indústria e a medicina acadêmica. Cynthia Crossen, funcionária do Wall Street Journal, publicou em 1996 uma matéria denunciando que, em 1981, a indústria farmacêutica deu 292 mil dólares para faculdades e universidades para pesquisa. Em 1991, esse número havia subido para 2,1 bilhões de dólares.

Propaganda

“O representante farmacêutico visita o médico mensalmente divulgando seu produto. A maior parte do tempo é gasta para aniquilar o produto concorrente, tanto em relação à eficácia, quanto aos efeitos colaterais e preço. Carregam uma tabela com nome e preço de todos os competidores”, relata Lemos. 

De acordo com ele, uma década atrás, a cooptação do médico era escancarada: jantares, finais de semana em hotéis de luxo e pagamento de todas as despesas para o médico ir ao congresso de seu interesse aqui e no exterior. “Aparentemente isto diminuiu bastante por conta de alterações na legislação, mas ainda não acabou”, completa.

Não raramente, as indústrias farmacêuticas também são acusadas de comercializar medicamentos com indicações além daquelas liberadas pelos órgãos responsáveis pela fiscalização. Em 2009, a Pfizer teve de pagar 2,3 bilhões de dólares – a maior condenação do departamento de justiça dos EUA para uma empresa da área até então – pela propagando relacionada a quatro de seus produtos.

Neste processo, a Pfizer também foi acusada e condenada por ter pago médicos para prescreverem nove de seus produtos farmacêuticos. A empresa concordou em se declarar culpada por violar normas do FDA ao rotular erroneamente alguns de seus remédios. "O acordo representa mais um exemplo de que sanções serão executadas quando uma empresa farmacêutica coloca o lucro à frente do bem-estar do paciente", disse Tony Oeste, procurador-geral adjunto para a divisão civil do Departamento de Justiça, em um comunicado divulgado pelo órgão.