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Polêmica tira revista de circulação

Ensaio fotográfico da revista Vogue Kids fere o direto da criança e expõe meninas em fotos sensuais

Tati Wexler

Ana Lúcia Keunecke é diretora jurídica da Artemis, aceleradora social que defende a autonomia feminina

A polêmica causada pelo ensaio fotográfico “Sombra e água fresca”, no qual meninas foram fotografadas em poses sensuais, fez com que a edição de setembro da revista Vogue Kids fosse tirada de circulação pelo Ministério Público do Trabalho. A denúncia partiu da sociedade civil, ganhou muita força nas redes sociais e acabou abraçada por várias entidades que defendem os direitos das crianças.

O material mostrava crianças "em posição de vulnerabilidade e estereotipização precoce do feminino", ressalta Ana Lúcia Keunecke, advogada e diretora jurídica da Artemis. Segundo ela, o ensaio da revista "coloca, desde pequena, a mulher como objeto". Para Keunecke, as fotas são "uma afronta à Constituição Federal”.

De acordo com a o artigo nº 227 da Constituição Federal do Brasil de 1988, toda criança tem direito à vida, saúde, alimentação, educação, cultura, dignidade, respeito à liberdade e de estar a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão. As 11 denúncias feitas no Ministério Público apontavam para o desrespeito das normas estabelecidas pela Constituição.

Laís Fontenelle, psicóloga do Instituto Alana

“Esse ocorrido é muito grave, porque essas meninas estão em fase de desenvolvimento psíquico, emocional e cognitivo e ainda não têm a compreensão daquilo que estão fazendo, não estão preparadas para isso”, aponta Laís Fontenelle, psicóloga do Instituto Alana. Segundo ela, quando se expõe esse tipo de imagem, provoca-se indiretamente uma grande contribuição para a adultização precoce das crianças.

As fotografias provocaram grande repercussão nas redes sociais, tanto pela questão da objetificação do corpo feminino – ainda em fase de desenvolvimento – quanto por conta da submissão ao trabalho infantil.

Instituto Alana

“É a fase principal para formação de costumes, o tempo da infância é lindo, e é nesse momento que se constrói a base para uma vida saudável. Só esse alarde que está sendo feito, estamos revertendo nosso olhar para esse tipo de coisa. Virou pauta na agência nacional. Então, não tem mais volta. Eles pisaram na bola e estão sofrendo os efeitos disso”, segundo aponta Laís Fontenelle, psicóloga do Instituo Alana.

"O tempo da infância é lindo", destaca Laís Fontenelle 

Artemis

“Criança com menos de 14 anos não pode trabalhar, é proibido", segundo Ana Lúcia Keunecke, da Artemis

Ela afirma ainda que há razões para que certos produtos não tenham uma versão infantil, porém, no Brasil, isso ainda não acontece como deveria. "É difícil achar um sapato pra uma criança sem salto, e o salto altera a coluna. Estamos em uma sociedade que já impõe isso pras mulheres. As bonecas já vem assim. Isso faz com que as crianças queiram acessar esse tipo de coisa", afirma.

A advogada vai mais longe ao dizer que essa decisão não cabe apenas aos pais, ela acredita que a Justiça, a sociedade civil, ONGs e o governo devem estar atentos para combater os abusos. "Acho que vai além da autorização dos pais. O que choca é a revista não pensar nisso. Nós trabalhamos para reverter o processo da violência contra a mulher, da exploração que coloca a mulher à margem”, diz Keunecke.

Revista Vogue

A polêmica levou a revista Vogue a se pronunciar a respeito do ensaio no último dia 12 de setembro. Em sua página no Facebook, a Vogue Brasil publicou o seguinte texto: "A Vogue Brasil, responsável pela publicação de Vogue Kids, em razão de recentes discussões em redes sociais envolvendo a última edição da revista, mais especificamente o ensaio de moda intitulado “Sombra e Água Fresca”, vem esclarecer que jamais pretendeu expor as modelos infantis a nenhuma situação inadequada. Seguimos princípios jornalísticos rígidos, dentre os quais o respeito incondicional aos direitos da criança e do adolescente. Como o próprio título da matéria esclarece, retratamos as modelos infantis em um clima descontraído, de férias na beira do rio. Não houve, portanto, intenção de conferir característica de sensualidade ao ensaio. Respeitamos a diversidade de pontos de vista e iremos nos aprofundar no entendimento das diversas vozes nesse caso, buscando o aperfeiçoamento das nossas edições. Repudiamos, porém, as tentativas de associar a Vogue Kids ao estímulo de qualquer prática prejudicial aos menores. Lamentamos que o açodamento e a agressividade imotivada de algumas pessoas tenham exposto desnecessariamente as menores que participaram do ensaio, que são nossa maior preocupação nesse episódio. A missão da Vogue Kids foi e continuará a ser a de tratar a infância com o respeito que ela merece, abordando com respeito e sensibilidade questões contemporâneas e que vão muito além dos editoriais de moda".

No entanto, a página da revista continua recebendo inúmeras críticas. Nos posts feitos pela revista em sua fan page após o pronunciamento, há diversos comentários exigindo uma retratação ainda mais contundente.