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Oceanos ficam mais ácidos

Absorção de grandes quantidades de gás carbônico é o gatilho do fenômeno que ao mesmo tempo retarda o aquecimento global e põe em risco a vida no mar

peshkov / Thinkstock

Oceanos mais ácidos significam uma ameaça a muitas formas de vida marinha

É muito provável que você já tenha experimentado água do mar - assim como seus pais, avós e ascendentes por milhares de anos.  A diferença daquela que sai da sua torneira é apenas que ela é salgada, ao menos para seu paladar. No entanto, no decorrer deste tempo, ela tornou-se mais ácida.

Sem risco para os banhistas

Os banhistas podem ficar tranquilos, porque isto não tem qualquer consequência direta sobre a saúde humana. Para isto, a alteração na acidez teria de ser muito mais radical do que se tem verificado.

As consequências indiretas, porém, existem e podem causar impactos no equilíbrio dos oceanos. Oceanos mais ácidos significam uma ameaça a muitas formas de vida marinha das quais dependem outras formas de vida, como os peixes, que chegam a nossas mesas. A escassez deles pode também prejudicar a atividade econômica da pesca.

Revolução Industrial no mar

Durante centenas de milhares de anos, os oceanos mantiveram um nível de acidez relativamente estável.  Foi neste ambiente que floresceu uma enorme e variada rede de vida observada nos mares de hoje.  Desde a Revolução Industrial, iniciada nos primeiros anos do século 19, no entanto, máquinas alimentadas com combustíveis fósseis, que proporcionaram avanço, conforto e bem-estar para a humanidade, jogaram na atmosfera bilhões de toneladas de CO2. Os mares absorvem quase metade deste gás emitido por processos naturais ou pelo homem e, ao fazerem isso, o elemento que resulta da reação química, o ácido carbônico, faz com que as águas fiquem ácidas, com a redução de seu pH (o fator de acidez).

Impacto do aquecimento global absorvido

A ciência sabe, há décadas, que o fato de o CO2 estar sendo absorvido pelos oceanos ajuda a retardar o aquecimento global - na atmosfera, ele serve como um tampão para que o calor absorvido pelo planeta não possa ser devolvido de volta ao espaço.  Agora sabe-se também que isto altera a química das águas marinhas e afeta os ciclos de vida de muitos de seus organismos, especialmente daqueles na parte mais baixa da cadeia alimentar, como fitoplânctons, zooplânctons e moluscos.

Águas mais ácidas, além disso, afetam a vida dos animais com conchas. Para eles, é mais difícil desenvolvê-las, por não poderem fixar nelas seu elemento básico de formação, o carbonato de cálcio.

O que significa a diminuição da acidez?

A escala de pH vai de 0 a 14. As soluções com números baixos são consideradas ácidas, e as com números altos são básicas. O número 7 indica a neutralidade. Nos últimos 300 milhões de anos, o pH do oceano se manteve básico, mas nos últimos 200 anos, o fator caiu de 8,2 para 8,1 - o que representa um aumento de 25% na acidez. Isto é o bastante para preocupar toda a comunidade científica – e, por extensão, todos que dependem do mar para sua sobrevivência.

A preocupação aumenta quando se sabe que, até o final deste século, as emissões de CO2 e outros gases de efeito estufa poderão reduzir este pH em mais 0,5.  Animais que dependem do carbonato de cálcio para suas conchas ou carapaças, como corais, ostras, camarões, lagostas, plânctons e mesmo peixes, podem ser seriamente afetados.

Perda de nutrientes

A acidificação tem uma série de efeitos, além destes. Ao favorecer alguns micróbios marinhos em detrimento de outros, ela irá provavelmente alterar a disponibilidade de nutrientes importantes, como ferro e nitrogênio. Por razões semelhantes, ela pode deixar que mais luz do sol penetre a superfície do mar, causando alteração de temperatura.  Ao mudar a química básica da água, sua capacidade de absorver e amortecer sons de baixa frequência (como os de sonares de navios, que já são um problema para a orientação das baleias) pode ficar reduzida em 40%, aumentando o ruído nos oceanos. 

Um cientista exemplifica o problema com o que está ocorrendo em Castello Aragonese, uma pequena ilha ao norte do Golfo de Nápoles, na Itália. Os turistas vão para lá ver como a vida era no passado. Os pesquisadores pretendem ver que lições o local pode trazer para o futuro.  Nas águas em torno, bolhas de CO2 emergem de passagens vulcânicas no solo do mar e se dissolvem, formando ácido carbônico de teor muito corrosivo.

"Quase nada pode tolerar uma situação com este nível de CO2", diz Jason Hall-Spencer, um biólogo marinho da Universidade de Plymouth, na Inglaterra.  Sobraram algumas algas, grama marinha e medusas. Mesmo a centenas de metros, muitas espécies nativas não conseguiram sobreviver.  Se as coisas continuarem como estão, diz o cientista, este é o mar que encontraremos em todo o mundo em 2100.  A capacidade de adaptação de parte da vida marinha a este ambiente não é encorajadora, afirma o cientista.

A acidificação que já aconteceu até agora é provavelmente  irreversível.  Teoricamente, é possível jogar bilhões de toneladas de minerais no mar para contrabalançar os efeitos do excesso de CO2, mas isto seria caro e próximo da ficção científica. Ainda que as emissões do gás cessassem hoje, levaria provavelmente dezenas de milhares de anos para que a química dos mares voltasse à condição pré-industrial.

A mudança na água dos mares é apenas mais um dos fenômenos ligados às atividades humanas que têm impacto sobre o planeta. Mesmo com nosso comportamento individual, podemos contribuir para mitigar o problema.


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