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O poder feminino na economia solidária

Mulheres são as que mais se beneficiam das cooperativas urbanas, explica o economista Paul Singer

Elza Fiúza/ Agência Brasil / CC BY 3.0

Desfile de moda com roupas confeccionadas por costureiras de Cidade Estrutural (DF)

No Brasil, o governo estima que existam cerca de 30 mil empreendimentos sem patrões. Neles, máquinas, terra ou qualquer instrumento de produção pertencem a todos. As decisões administrativas são tomadas em grupo. E, assim como o trabalho, o lucro é dividido entre todos. Esses empreendimentos compõem a chamada economia solidária, um sistema de cooperativas, empresas, grupos informais e até bancos.

Entre três e qautro milhões brasileiros compram, vendem e produzem dentro desse sistema. O economista Paul Singer, responsável pela Secretaria Nacional de Economia Solidária (Senaes), concedeu uma entrevista sobre o tema para o Portal NAMU sobre o assunto durante o Café Solidário, realizado na Universidade de São Paulo (USP).

Portal NAMU: Quem são os beneficiados pela economia solidária?
Paul Singer: A maioria são agricultores familiares. Nas cidades, o forte da economia solidária são mulheres que trabalham com artesanato. Para essa discussão aqui na USP, li a pesquisa Cadeia Produtiva de Empreendimentos da Economia Popular Solidária, feita pela prefeitura de Fortaleza. Eu vi as tabelas: 87% são mulheres. O que elas fazem? Todo tipo de artesanato que você pode imaginar - bonecas, bijuterias, roupas, muitos objetos de tecido.

Existem também os catadores de material reciclado das grandes cidades brasileiras. Eles são cerca de 1 milhão de pessoas que sobrevivem da coleta, da catação do lixo, um material precioso. Há ainda os moradores dos quilombos. Recentemente, visitei um quilombo em Ubatuba (SP), uma fazenda que criou com outros quilombos a Cooperativa do Azul. Eles procuram desenvolver o turismo, já que estão próximos ao mar. Criaram uma pousada, um restaurante com comida típica quilombola e desenvolvem projetos ligados à música.

O que muda na vida das mulheres depois que elas entram na economia solidária?

Em geral, são as mulheres que têm mais interesse, porque elas são oprimidas e na economia solidária, opressão não é tolerada. Uma vez, numa favela do Rio de Janeiro, a mulher de um traficante importante entrou na cooperativa e falou para o marido que agora ia ganhar dinheiro, ajudar a sustentar a família. Ele foi violentamente contra. "Não quero que você faça isso, ganho suficiente.” No fim do mês, a mulher foi mostrar o dinheiro para o marido e levou uma sova. As outras mulheres souberam disso, foram lá e ele, então, levou uma sova. Quer mudança? Provavelmente essas mulheres não poderiam fazer o que fizeram sem a economia solidária.

Por quê?
Porque elas são da mesma cooperativa, tornaram-se irmãs e tomaram as dores de uma que foi brutalmente injustiçada. Estavam indignadas.

Elas conseguem enfrentar essas situações por terem mais dinheiro?
Não, por terem mais unidade. Elas são muitas e se apoiam mutuamente. Isso lhes dá força. Ganham autoestima e o dinheiro pode ajudar, obviamente. A economia solidária propicia uma transformação quando não há dignidade, quando há opressão. Isso vale para negros, mulheres, crianças, velhos. Há uma porção de setores oprimidos, seja pela idade, cor da pele ou religião. A opressão ou a exclusão não deve acontecer nesse sistema.


Mulheres marcam presença na Cooperativa de Reciclagem, Trabalho e Produção, de Cidade Estrutural (DF)

Por que a economia solidária é importante para a sociedade?
Eu não sei se a economia solidária é importante para toda a sociedade. Para as pessoas que estão felizes com o capitalismo, a economia solidária não é tão importante. Essa forma de economia foi inventada, em última análise, por críticos ao capitalismo. A primeira cooperativa importante foi criada na Inglaterra por operários sem trabalho. Esses operários eram seguidores do reformador social galês Robert Owen, um socialista utópico que defendia as cooperativas.

Como a economia solidária pode conviver com o capitalismo e suas grandes empresas?
Algumas vezes é muito difícil competir. Se a cooperativa compete com uma empresa que consegue produzir mais barato e com melhor qualidade, vai sair perdendo. Do ponto de vista político, não tem problema nenhum. Acredito que os capitalistas democráticos não sejam contra a economia solidária. 

Como os brasileiros que trabalham em empresas com patrão podem apoiar a economia solidária?
Se você quiser apoiar, pode entrar em uma organização não-governamental. O apoio individual é muito difícil. Você pode ensinar inglês, o que seria muito importante para eles. Pode ensiná-los a dançar ou tocar um instrumento. Eles precisam muito de conhecimento e têm curiosidade também. Existem maneiras de ajudar outras pessoas, principalmente através da educação.

Antídoto contra o desemprego

A economia solidária ganhou força no Brasil durante a década de 1980, quando a crise econômica deixou milhões de pessoas desempregadas e lançou famílias na rua, relembra Paul Singer. A Igreja Católica colaborou na organização de cooperativas em grandes cidades e no interior nordestino. O processo continua.

“Os trabalhadores hoje não querem perder o emprego em empresas que estão fechando, eles se organizam em cooperativas para mantê-las abertas. Nos países em crise, as cooperativas não quebram. As empresas, sim", diz o economista.

Uma pesquisa da Senaes feita com 1,4 milhões de trabalhadores da economia solidária concluiu que 55% deles eram agricultores familiares, seguidos de artesãos, trabalhadores autônomos, desempregados, catadores de materiais recicláveis e outras categorias de profissionais. Apesar do levantamento, feito em 2013, faltam pesquisas detalhando mais profundamente os empreendimentos solidários, o perfil dos cooperados e detalhes da melhoria econômica propiciada por eles.

Foto 3: Agência Brasil / CC BY 3.0


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