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O poder da meditação segundo a ciência

Simpósio da Unifesp traz estudos sobre os efeitos da meditação mindfulness ou técnica de atenção plena

Patrícia Spier

Mesa de abertura com a professora Ana Noto, o médico Marcelo Demarzo, a professora Elisa Kozasa, e os espanhóis, o professor Javier Garcia-Campayo e o psicólogo Joaquim Soler

"Nos anos 1970, meditação era papo de doido. Nos anos 1980, transformou-se em assunto alternativo. Nos anos 1990, foi considerada tendência. Hoje, é o cenário." Essa análise, da dirigente do Instituto Migliori e professora, Regina Migliori, ilustra a relevância do II Encontro de Mindfulness e Promoção da Saúde, realizado pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), em parceria com a Associação Palas Athena. O encontro debateu estudos sobre os efeitos de mindfulness ou meditação de atenção plena - ou seja, concentração total no momento presente.

Na palestra sobre meditação e neurociência, a professora do programa de pós-graduação em psicobiologia da Unifesp e pesquisadora do Instituto do Cérebro do Hospital Israelita Albert Einstein, Elisa Kozasa, uma das organizadoras do evento, citou as pesquisas de Sara Lazar que identificaram um aumento na massa cinzenta de quem pratica a meditação. Outro estudo, da qual a própria Kozasa participou, chegou à conclusão de que, com acurácia de 94,8%, se pode dizer pela estrutura do cérebro, analisada em exames de imagem, se a pessoa medita ou não.

"É possível, portanto, comprovar as mudanças estruturais no cérebro de quem medita com regularidade", afirmou a pesquisadora. Através de exames, uma outra pesquisa constatou que pessoas que não meditam despendem mais esforço do cérebro em tarefas que exigem atenção. Esses resultados são evidências de que o treino de meditação pode potencializar a eficiência do cérebro em exercícios que exigem concentração e no controle de impulsos.

Sabe-se que é a frequência da prática da meditação e não sua duração o que mais influi nos resultados. Para quem não medita, começar é muito difícil, comenta Kozasa. "Tem até a ver com a liberação de endorfinas, o que demora um pouco. Um meditador experiente é como um atleta olímpico. O prazer para quem pratica com regularidade é maior. A pergunta é: como ajudar um meditador sedentário a se transformar em um meditador atleta, que pratica três vezes por semana?", questionou a neurocientista.

Meditação e ciência

Médico e professor de mindfulness, Marcelo Demarzo, também organizador do encontro, falou ao Portal NAMU sobre a importância do evento e a relação do tema meditação com a academia.

No sistema de saúde

Demarzo também palestrou sobre a inserção da prática em sistemas de saúde. Na Inglaterra, por exemplo, o National Health Service (NHS), uma "espécie de Sistema Único de Saúde (SUS) inglês", oferece sessões de mindfulness aos que sofrem de depressão e ansiedade e muitas outras doenças. No Brasil, ainda não existe um programa nacional que oficializa a implantação de práticas de mindfulness para todo país, no entanto, iniciativas isoladas surgem em diversas localidades.

O médico Júlio Lins contou ao Portal NAMU sua experiência com a introdução de práticas meditativas em unidades de saúde do SUS em Recife. Ele também relatou alguns benefícios que os pacientes sentem após as aulas.

Na escola

A implantação de mindfulness e outras práticas contemplativas no âmbito educacional foi o tema da palestra da professora Regina Migliori. Em entrevista ao Portal NAMU, ela contou sobre a transformação que essas técnicas possibilitam aos estudantes.

É possível medir mindfulness?

A escala mais utilizada para medir a "atenção plena" nessa técnica baseia-se em cinco habilidades: observar, descrever, consciência, não-julgar e não-reagir. Chama-se Five Facet Mindfulness Questionnaire (FFMQ). Esses parâmetros foram discutidos pelos pesquisadores e interessados reunidos no anfiteatro da Unifesp. Em sua palestra, Joaquim Soler, psicólogo e pesquisador do Hospital de la Santa Creu i Sant Pau de Barcelona, na Espanha, ressaltou os resultados curiosos da pesquisa que revelou que pessoas que abusam de álcool possuem maior nível de atenção que pessoas sem esse hábito. O segredo para analisar os dados, explica Soler, é levar em conta outros índices, como o de aceitação.

“Esses resultados aparecem porque se tem entendido mindfulness basicamente como um fator de atenção, principalmente nas pesquisas que usam a Mindfulness Attention Awareness Scale (MAAS). Esses estudos, no entanto, não consideram fatores como aceitação e não julgamento. Se isso fosse feito, não chegariam a essas conclusões absurdas.”

Soler citou outras escalas utilizadas nas pesquisas sobre mindfulness, como a Philadelfia Mindfulness Scale (PHLMS), que correlaciona a consciência com o estado de aceitação. “É um tema complexo, porque cada questionário entende mindfulness de modo diferente. Também existem várias maneiras de se praticar a meditação, com movimentos do corpo ou sentado, por exemplo. Atualmente, a escala mais utilizada é a FFMQ, que considera mais aspectos na medição”, explica Soler.

Durante toda a quarta-feira (14 de maio) e a tarde de quinta-feira (15 de maio), o II Encontro de Mindfulness e Promoção da Saúde contou com cerca de 20 apresentações que relataram diferentes pesquisas e experiências sobre a meditação mindfulness. Apesar da quantidade de estudos, os pesquisadores destacam que ainda há muito a ser feito. Em meio a tanta teoria, vale lembrar que as pesquisas só existem, porque quem já vivenciou o estado de "atenção plena" afirma ter sensações que trazem benefícios para várias áreas da vida.