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O inconsciente é musical

Para Wanderley Alves Junior, sons podem ativar lembranças e aumentar o controle emocional

Hans Splinter / Flickr: Making music / CC BY-ND 2.0

Os sons funcionam como uma forma de compartilhar mensagens entre indivíduos

Quando entramos em um consultório de musicoterapia, nos deparamos com uma grande quantidade de instrumentos musicais espalhados pela sala. O local pode até ser confundido com uma escola de música. A diferença entre os ambientes está nos objetivos. Às vezes, a aprendizagem numa escola busca apenas notas musicais, mas os consultórios de musicoterapia visam à interação dos pacientes com os instrumentos e, mais do que isso, o contato com o inconsciente.

Psicanalistas e pesquisadores defendem que a música estimula as atividades cerebrais, principalmente as relacionadas ao reconhecimento das emoções. Quando utilizada para fins terapêuticos, ela pode favorecer o diálogo entre o paciente e o terapeuta, aproximar o paciente de seus familiares, uma vez que auxilia na percepção de sentimentos, e facilitar sua interação com terceiros por estimular a expressão individual.

O musicoterapeuta Wanderley Alves Junior, que atua há mais de sete anos no tratamento de distúrbios mentais, afirma em entrevista exclusiva ao portal NAMU que “a possibilidade de interagir utilizando a música possibilita ao sujeito recriar experiências, onde surge a hipótese de que é possível incidir em aspectos estruturais da personalidade e modificar padrões estereotipados de comunicação”.

O inconsciente é musical

São inúmeras as letras de canções que ressaltam a importância da música na superação de momentos difíceis - ouvir música parece ser sempre uma boa solução para aliviar sofrimentos. Mas ela pode também despertar lembranças adormecidas. Como esse arranjo de notas musicais pode ter tanta influência sobre nós?

Nosso inconsciente é estimulado pelo significante das palavras, ou seja, por suas representações físicas. Quando falamos “bolo de cenoura”, o som desencadeia lembranças relacionadas ao alimento: vamos nos lembrar do bolo de cenoura que comíamos na casa da avó ou daquele que pedimos ontem na padaria. São várias as lembranças que podem ser ativadas a partir de um estímulo sonoro. Para Jacques-Marie Émile Lacan, famoso psicanalista francês, o inconsciente é musical por ter a capacidade de ser estimulado por representações sonoras (1). E não apenas as palavras podem estimular o inconsciente, variações de tons e tempo musicais também têm influência sobre as respostas cerebrais.

Estímulos para interação

Um estudo realizado pela mestranda Marisa do Carmo Prim Padilha na Faculdade de Medicina na Universidade da Beira Interior, em Portugal, analisou a aplicação da musicoterapia para o tratamento de crianças autistas (2). Padilha explica que existem duas formas de interação: uma passiva e outra ativa. A interação ativa implica em uma ação externa do paciente, como tocar um instrumento ou cantar. A ação passiva corresponde a respostas internas do indivíduo, como escutar, imaginar e sentir, sendo esta a base para qualquer reação externa.

A musicoterapia estimula os dois tipos de interação e pode apresentar diversas contribuições a quem a procura. Como efeitos psicológicos, a pesquisadora apontou o estímulo da concentração e da criatividade, além de resultados sedativos ou estimulantes trazidos pelos sons ao nosso sistema nervoso central. Certas notas musicais podem estimular a produção hormonal e o tempo da música pode aumentar ou diminuir o ritmo cardíaco e agitar ou relaxar a atividade muscular.

Em crianças, a música pode facilitar a aprendizagem e estimular a memória ao ativar simultaneamente um grande número de neurônios. Estímulos de diferentes áreas do córtex cerebral, do sistema límbico, do cerebelo e do sistema nervoso autônomo foram identificados na pesquisa de Padilha.

No âmbito social, a música tende a ser um agente de socialização por incentivar a expressão individual. Isso porque ela funciona como um meio de comunicação e como uma forma de compartilhar mensagens e emoções entre indivíduos.

Instrumentos da musicoterapia

A música pode facilitar o diálogo entre paciente e terapeuta. A relação estabelecida entre eles é de escuta e resposta sonoro-musical. “Enquanto os pacientes se expressam através da música, dos instrumentos musicais, do corpo, da voz, o musicoterapeuta se coloca em uma posição de escuta para que possa responder musicalmente e de forma adequada ao discurso do paciente. Assim se estabelece a comunicação”, explica Wanderley Alves Junior.

O terapeuta escolhe os instrumentos que serão utilizados na sessão com base na história sonoro-musical do paciente. “A origem e cultura do paciente influenciam na escolha”, ressalta o musicoterapeuta. Isso propicia a identificação do indivíduo com a ferramenta e facilita o contato do sujeito com seu mundo interior.

Qualquer objeto capaz de produzir sonoridade e transmitir uma mensagem pode ser instrumento da musicoterapia, sendo utilizados de sons da natureza a sons eletrônicos, do violão até a voz humana. “De todos os fenômenos sonoros do corpo humano, os mais profundos são os que acontecem no interior do próprio corpo, como a voz, o canto, a inspiração e expiração, as exalações etc.”, escreve Rolando Benenzon na obra Teoria da Musicoterapia (3).

"Quem frequenta as sessões é convidado a se sentar em frente aos instrumentos e buscar por sonoridade, tocando de forma correta ou não. Seguindo o ditado clichê, o que importa aqui é participar. O que no início parece só uma brincadeira em forma de representações sonoras, vira movimento, dança e canto", completa. 

Cenário como mediador

O cenário do consultório funciona como um mediador entre o paciente e seu inconsciente. “Ele dá um pequeno empurrão para que a subjetividade ultrapasse as barreiras massificadas da sociedade e invada aquele espaço, não composto e limitado pelas paredes de uma sala. Mas, o espaço terapêutico que muitas vezes não é fácil, é árduo e doloroso, pois atravessa as barreiras do inconsciente lidando com questões  aparentemente esquecidas, na verdade escondidas ‘embaixo do tapete’, questões muitas vezes despercebidas para o paciente”, escreve Carolina Ferreira Santos em artigo publicado pela Revista Brasileira de Musicoterapia (4).

Wanderley Alves ressalta que uma parceria fecundada, produtiva e criativa entre musicoterapeuta e paciente pode proporcionar a vivência de situações emocionais e afetivas nunca antes vividas e estas podem auxiliar o indivíduo em seu processo e emancipação psíquica e em suas relações fora do consultório.

A importância do silêncio

Entre um som e outro, o silêncio tem papel fundamental nas sessões da terapia. Ele induz à reflexão e está associado à interiorização. “O silêncio dá espaço para surgirem novos sons e os sons dão espaço para novos silêncios. A vida é assim, feita de nascimentos (sons) e lutos (silêncio)". Segundo Benenzon, podemos definir a musicoterapia como a arte de organizar os silêncios”, relata Wanderley Alves Junior.

Segundo Craveiro de Sá, o silêncio no cenário musicoterapêutico pode aparecer de forma imprevisível e despertar emoções e sentimentos inesperados, que podem refletir o medo, a raiva, a alegria e a dor do paciente (5).

Resultados positivos

Para Alves Junior, os avanços trazidos pela terapia aos pacientes podem ser medidos por meio da relação entre o especialista e quem procura o tratamento. Os resultados das consultas serão melhores de acordo com o grau de comunicação e compreensão obtido na terapia. Quanto mais o paciente conseguir se expressar por meio dos instrumentos, melhor serão o aproveitamento da técnica e os benefícios.

 “A ampliação das possibilidades do paciente se expressar através da música durante as sessões indica que existe um movimento interno de expansão, crescimento e amadurecimento emocional”, completa Junior.

Ajuda para o autismo

Indivíduos com autismo demonstram dificuldade para reconhecer expressões faciais e vocais ligadas às emoções. A musicoterapia pode ajudar os pacientes a se comunicarem com maior facilidade, trazendo benefícios psicológicos, comportamentais, cognitivos e motores (6). 

Apesar de terem dificuldades para perceber emoções, os autistas apresentam facilidade para reconhecer tons musicais. Em 2002, a professora da Universidade de Montréal Isabelle Peretz sugeriu que a variação dos tons e o tempo de cada música podem gerar sensações de felicidade ou tristeza (7). Sendo assim, a habilidade dos autistas para reconhecer os tons, facilitaria o reconhecimento das emoções.

 Além disso, o contato com a música pode garantir maior controle motor e contribuir para a interação do participante com o ambiente e com as pessoas que o cercam, uma vez que o som proporciona um cenário favorável à dança e ao canto.

Outro estudo, divulgado dois anos depois, veio reafirmar a hipótese de Peretz (8). Os pesquisadores estudaram um grupo de crianças com 6 anos que apresentavam autismo e recomendaram que eles participassem de sessões de musicoterapia por um ano.  Após o tratamento, elas conseguiram identificar emoções felizes e tristes. Isso facilitou a interação das crianças com os pais e sua comunicação com outras crianças da mesma idade. 

Fotos: Barney Moss / Flickr / CC BY 2.0; Simon Blackley / Flickr / CC BY-ND 2.0

Referências

  1. QUINET, Antonio. Psicanálise e Música: reflexões sobre o inconsciente equívoco. Disponível em <http://www.periodicos.ufes.br/musicaelinguagem/article/view/3597/3298> Acesso em: 19 nov. 2013
     
  2.  PADILHA, Marisa C.P. A Musicoterapia no Tratamento de Crianças com Perturbação do Espectro do Autismo- Universidade de Beira Interior, Faculdade de Ciências da Saúde, Portugal. 2008.  Disponível em <http://www.fcsaude.ubi.pt/thesis/upload/118/763/marisapadilhadissert.pdf> Acesso em: 19 nov. 2013
     
  3. BENENZON, Rolando O. Teoria da Musicoterapia, São Paulo: Summus,1988, 182 p.
     
  4. SANTOS, Ferreira Carolina. Setting musicoterapeutico: encontros visuais e sonoros. Revista Brasileira de Musicoterapia Ano XIV n° 13 / 2012, p. 15 - 26. Disponível em: <https://docs.google.com/file/d/0B7-3Xng5XEkFd0FhWGFOUDJwQzg/edit> Acesso em: 19 nov. 2013
     
  5. CRAVEIRO DE SÁ, Leomara.  Musicoterapia e autismo: Um setting em rizoma, Revista Brasileira de Musicoterapia, Ano IV, nº 5, p. 73-80, 2001
     
  6. KHETRAPAL, Neha. Why does Music Therapy help in Autism? - Universidade de Bielefeld, Alemanha. 2009. Disponível em <https://kb.osu.edu/dspace/bitstream/handle/1811/36602/EMR000065a_Khetrapal.pdf;jsessionid=88C63EF2C14CA854D74B8ACF95BF9DC2?sequence=1> Acesso em: 19 nov. 2013
     
  7.  PERETZ, Isabelle. Brain specialization for music. – Departamento de Psicologia, Universidade de Montreal, Canadá. 2002. Disponível em <http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/12194505> Acesso em: 19 nov. 2013
     
  8.  THOMPSON, W.F.; SCHELLENBERG E.G.; HUSAIN, G.Decoding speech prosody: do music lessons help? - Departamento de Psicologia, Universidade de Toronto, Canadá. 2004. Disponível em <http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/15053726> Acesso em: 19 nov. 2013