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Nando Bolognesi: quando um problema vira solução

Diagnosticado há 25 anos com esclerose múltipla, o ator transformou sua história de vida em livro e peça de teatro

Ana Mesquita

Durante a peça, Nando interpreta Comendador Nelson, um palhaço movido por questionamentos existenciais

Ao se deparar com uma situação mais difícil e inesperada, como uma tragédia na família ou uma doença, por exemplo, muitas pessoas travam e não conseguem avançar em meio ao turbilhão emocional. Outras, porém, transformam o problema em uma oportunidade ou até mesmo em solução. É o caso do ator Nando Bolognesi, que foi diagnosticado com uma doença degenerativa há 25 anos e hoje conta a sua história com sabedoria e bom humor no livro Um palhaço na boca do vulcão e na peça Se fosse fácil não teria graça, que está em cartaz em São Paulo no Teatro Eva Herz, na Livraria Cultura.

Bolognesi tinha tudo para ter a vida dos sonhos. Com 21 anos, depois de ter se formado em economia, fazia uma viagem pela Europa e se encantava com o mar de possibilidades que se abria à sua frente. No meio do passeio, sentiu algo de errado com seu corpo, que de uma hora para a outra deixou de responder a alguns de seus comandos

Na volta ao Brasil, no começo dos anos 1990, foi surpreendido com o diagnóstico de esclerose múltipla, doença crônica do sistema nervoso central que na época tinha poucas opções de tratamento. Frustrado com suas escolhas profissionais até então, foi estudar teatro e descobriu uma nova vocação: a de palhaço, em que poderia inclusive se aproveitar de algumas dificuldades motoras que surgiam por conta da doença para enriquecer o personagem.

Eu acho que a gente se dá muita importância. Temos a sensação de que as coisas graves, cabeludas, sempre acontecem com o outro, nunca com a gente. E aí que nós somos o outro

Nesses 25 anos e diversas tentativas de tratamentos diferentes, a esclerose múltipla deixou em Bolognesi algumas marcas. A fraqueza e a falta de coordenação nas pernas exigiram a companhia constante de um par de muletas. Menos visíveis são também a fadiga constante e a bexiga neurogênica, disfunção que dificulta o a retenção da urina. Esse problema inclusive já rendeu ótimas histórias, que ele relata no livro e na peça. Em 2009, o ator se submeteu a um transplante de medula que estabilizou a atividade da doença.

Em seu livro, Bolognesi relata o episódio que deu origem ao nome da obra, que aconteceu durante uma visita à Stromboli, uma ilha no sul da Itália que fica sobre um vulcão ativo. Em um passeio para a boca do vulcão, ele testemunhou uma microerupção – uma chuva de pedras incandescentes – e teve um lampejo.

“Eu tive uma sensação muito forte de desimportância de mim mesmo. Da enorme diferença de proporção entre eu e todo o resto. E essa impressão ficou marcada. Eu acho que a gente se dá muita importância. Temos a sensação de que as coisas graves, cabeludas, sempre acontecem com o outro, nunca com a gente. E aí percebemos que somos o outro”, declama o ator, durante seu espetáculo.

Foi justamente sobre essa sensação de estar na boca do vulcão que o ator Nando Bolognesi falou ao Portal NAMU. Confira:

Nando Bolognesi durante apresentação de sua peça

Portal NAMU: Em seu livro, você diz que em determinado momento se deu conta de que deveria ser o responsável por seu próprio tratamento. O que quer dizer com isso? Tem a ver com a ideia de que a cura ou o bem-estar só dependem de si?

Nando Bolognesi: É evidente que a evolução da doença tem a ver com o nosso equilíbrio, nosso bem-estar, tudo isso. Mas é evidente também que há uma grande parcela que está fora do meu controle. Eu acredito que tenho de ser o responsável pelo meu tratamento. Passei por várias medicinas diferentes, como a tradicional chinesa, a antroposofia, a homeopatia, o xamanismo, entre outras. Tenho a noção de que buscar um equilíbrio está diretamente relacionado com a saúde e o bem-estar, mas também que nossa vida é atravessada por eventos que não estão no nosso controle. Não somos tão poderosos assim.

Eu cheguei a alimentar essa fantasia narcisista que diz que você é um deus, que pode tudo, e eu não sei se é bem assim. Acredito que temos muito poder, mas ele é limitado. Essa é a minha sensação de estar na boca do vulcão, somos muito pequenos. Eu também tomo cuidado para não ir para um outro extremo, de dizer que “eu dependo do remédio”. É claro que eu posso encaminhar meu processo de cura e bem-estar por meio das minhas escolhas, eu acredito nisso, mas reconheço ao mesmo tempo minha impotência e vulnerabilidade. É tudo muito contraditório: eu acho que eu tenho poder, mas ao mesmo tempo não tenho poder nenhum.

Fiz uma série de mudanças na minha vida e acho que elas foram muito importantes, mas deixei de ter uma visão de que a doença é uma expressão de uma falta de harmonia meramente minha. Acho que tudo isso conta, mas o fator externo não é tão desprezível. Com isso, eu não quero dizer que sou vítima, pois tenho responsabilidades, mas há coisas que me atravessam. Construí cada vez mais essa noção que não me abstém das minhas responsabilidades, mas que me coloca no meu devido tamanho. Tenho condições, mas sou bem vulnerável, sou aquele cara na boca do vulcão.

Você disse em uma entrevista que ficou tentado a se limitar em função da doença. Quão difícil é não cair nesse tipo de armadilha, ou seja, usar a doença como muleta?

Não é fácil, porque isso é álibi para todos os seus fracassos. Não é algo consciente, mas como fiz onze anos de terapia, aprendi a reconhecer esses mecanismos. Tudo isso opera em níveis profundos, inconscientes, que é uma hipótese em que acredito. O processo não teve marcos claros, não houve um momento da revelação. Mesmo o diagnóstico é algo que eu tenho tentado entender até hoje, pois ele se modifica. Eu vivo e transformo o modo como interagir com isso.

Percebi, ao escrever o livro, que tinha a noção de um duplo de mim, de que construí uma identidade, como se este eu usando bengala fosse uma degenerescência. “Não sou isso”, eu pensava. Esse aqui seria um desvio da minha vida, quando na verdade seria uma pessoa saudável. Mas isso não foi um desvio, minha vida é essa. Foi muito revelador o momento que confrontei isso, porque me dei conta de que havia uma cisão na minha identidade. De um modo muito sutil, a imagem que eu tinha de mim era a de um desvio de minha trajetória verdadeira.

Finalmentr admiti que esse é o meu caminho e que eu estava alimentando uma fantasia. Isso tem a ver com aceitação, eu sou isso aqui. Toda essa questão é muito delicada porque há a tendência de cair em um outro perigo que é a acomodação. Há uma linha muito tênue entre a aceitação e a acomodação e essa última eu nunca tive.

Você tem esperanças em relação à cura da doença? Como enxerga isso hoje?

No momento, tenho a sensação de estar curado e explico por quê. Sempre fui um adolescente muito descrente na humanidade. Quando eu estava na escola, descobri, por exemplo, que alguns produtores queimavam arroz pra regular o estoque de alimentos. Eu pensava: “A humanidade é um lixo, perdemos o rumo da civilização, não tem saída”. E eu era muito melancólico, vivia uma crise muito grande em relação a isso. O transplante de medula ajudou a frear o avanço da doença e me ajudou a ver as coisas de outra forma. Fiquei muito debilitado fisica e emocionalmente durante 45 dias, foi muito intenso. Lembro que me encantei com o modo pelo qual as enfermeiras e os profissionais de saúde me tratavam.

Durante a internação, o modo como as enfermeiras me atendiam era tão generoso, humano e solidário, que eu imaginei ter recuperado minha fé na humanidade. Mais uma vez, e isso não é uma coisa ingênua, percebi que o ser humano é horroroso e maravilhoso ao mesmo tempo. Nessa experiência, tive um contato muito próximo com esse lado luminoso e bonito da humanidade. Eu tive a sensação de vivenciar a ideia do amor ao próximo como o próximo. Em nossas fantasias narcisistas, somos sempre os ativos, os personagens principais e nunca os coadjuvantes. Nesse momento eu era o próximo, o cara que recebia o amor. Sempre estudei em boas escolas, praticava esportes, e a esclerose me fez conviver com o lado do próximo, de quem recebe o amor, não de quem dá. Essa sensação foi muito profunda na época do transplante.

Digo isso pra explicar porque eu sinto que vivenciei a cura. Ao fim das sessões do meu espetáculo, muitas pessoas vêm falar comigo para relatar como aquilo foi importante e mexeu com elas de uma maneira positiva. Recebi uma mensagem de uma pessoa dizendo que assistir ao meu espetáculo a fez mais feliz. Eu recebo muito esses feedbacks por email ou Facebook ao fim das sessões. Percebi que esse espetáculo me recolocou na condição de quem dá, e não de quem recebe o amor. Isso para mim é a cura.

A esclerose múltipla me colocou do lado do frágil, da pessoa que recebe o amor e a compaixão do próximo. Esses vinte anos me levaram novamente para o outro lado: eu voltei a ser o cara que oferece algo. A vivência da fragilidade me traz a força e isso tem muito a ver com o palhaço. O lado bacana do palhaço é sua fragilidade. Ele é legal porque ser inapto, inadequado e fazer tudo errado. Quanto mais eu assumo isso, melhor é o personagem. Percebi que isso funciona também na vida comum. No meu espetáculo, eu conto a história da minha fragilidade e ao assumi-la, recupero meu poder e minha força, porque percebo que nesse espetáculo eu ofereço algo às pessoas. Do ponto de vista anímico, ou seja, da alma, acredito que me curei. Ainda tenho dificuldade para andar, mas de certa forma sinto que me curei.

Foto 1: Ana Mesquita