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As mil cores da Cidade Maravilhosa

A arte urbana conquista os muros do Rio de Janeiro e ganha reconhecimento da população e do governo municipal

Cristiano Magalhães

O grafite preenche espaços urbanos e integra movimentos pelo reconhecimento da identidade social de cada lugar

Do Leblon à Baixada Fluminense, passando por bairros tradicionais que mantêm suas raízes históricas, como a Lapa, Santa Tereza e Morro da Conceição, o Rio de Janeiro inspira uma explosão cultural que é, na maioria das vezes, de fácil acesso. É o mundo do grafite, cada vez mais presente na Cidade Maravilhosa. Essa cena artística, que vem ganhando força em várias metrópoles brasileiras, humaniza a cidade e espelha a ascensão de jovens que contribuem para a valorização da cultura popular.

Grafite do coletivo Nrvo, em Vila Isabel

Grafite do coletivo Nrvo, em Vila Isabel 

Se antes a arte dos muros era mal vista, hoje, ela ganha reconhecimento e corre o risco de ser institucionalizada. Essa tem sido a trajetória do grafite nas metrópoles do mundo todo, inclusive no Rio de Janeiro. Em fevereiro desse ano o prefeito da capital carioca, Eduardo Paes, assinou o Decreto GrafiteRio, que além de estreitar o diálogo com os artistas tem como objetivo regulamentar e estabelecer critérios para a prática do grafite na cidade. A decisão do governo municipal serve principalmente para proteger o trabalhos dos artistas cariocas que levam suas cores e criações para os muros do Rio. Além dessa medida, a prefeitura também criou o Conselho Carioca do Grafite, vai implantar as Células de Revitalização – espaços públicos com alto potencial turístico que serão revitalizados com arte – e dar apoio à ferramenta web StreetArtRio, a qual pretende ser um "catálogo vivo e diário das ruas do rios", como o próprio site indica. 

Painel na zona portuária do Rio de Janeiro

Com 30 metros de altura e 70 de largura, o maior painel de grafite do Rio de Janeiro fica localizado na zona portuária 

Igualmente às ações da atual prefeitura de São Paulo na área, o governo municipal carioca percebeu a importância de incentivar esse tipo de intervenção urbanística, capaz de tornar o espaço público mais humanizado e menos agressivo. Essa ligação com São Paulo, onde a cena do grafite é também muito forte, fica evidente na decisão da prefeitura carioca em instituir 27 de março como o Dia do Grafite na cidade. A data foi escohida em homenagem ao artista plástico Alex Vallauri, um dos precursores do grafite no Brasil, que morreu em 27 de março de 1987. Apesar dos trabalhos de Vallauri estarem principalmente na capital paulista, o Rio de Janeiro, ao adotar o mesmo dia, ajudou a dar uma dimensão nacional ao movimento. 

“O grafite abraça a multiculturalidade. Traspõe ritmos e tradições, mas não os anula. Ao contrário, a arte urbana valoriza cada espaço. Algumas vezes contando a história de um local; outras celebrando ou transparecendo as necessidades de uma região ou bairro”, é o que pensa o designer, ilustrador, grafiteiro e carioca da gema Felipe de Carvalho, conhecido também como Ilpe, do coletivo NRVO

Grafite de Felipe Ilpe

Para Ilpe, o grafite faz parte de um processo sensorial de experimentação e autoconhecimento 

Os governos das duas maiores cidades do Brasil perceberam que o grafite, uma expressão artística que paradoxalmente contesta muitas coisas, inclusive esses mesmos governos, também pode ser uma forma de preservação do patrimônio público e uma atividade capaz de tornar as cidades mais interessantes até mesmo para o turismo. Segundo o secretário municipal de Conservação e Serviços Públicos do Rio, Marcus Belchior, "o grafite, sem dúvida, contribui para a revitalização dos ambientes, imprimindo nova identidade em locais anteriormente degradados. E onde se faz a beleza, faz-se a conservação"1. Essas novas políticas produzem, por sua vez, um desafio para essa forma artística: como se manter independente e constestadora se cada vez mais ela deixa de ser marginal para se aproximar do poder público?

Em São Paulo, apesar da aproximação entre o poder público e os artistas, o grafite se mantém uma expressão profundamente marginal. A cidade, de certa forma, virou palco de intervenções. Desde 1985, quando Vallauri expôs na Bienal Internacional de São Paulo a instalação A Festa da Rainha do Frango Assado, que reunia seus grafites, essa relação, apesar de ter se intensificado, permanece problemática.  

O grafite nos muros cariocas

No Rio de Janeiro, os grafites só começaram a surgir com mais frequência na cidade maravilhosa durante na década de 1990. Não demorou muito para que a cidade ganhasse a reputação de ser uma das mais tolerantes ao trabalho. Ao andar pelo centro ou pela Zona Sul é fácil ser contemplado pela arte dos muros. De acordo com Ilpe, os olhares de curiosidade e os elogios feitos pelos moradores da cidade e até mesmo pela polícia são comuns durante a produção das obras. 

Desenho da série "As Negas", em Santa Tereza

Desenho da série "As Negas", em Santa Tereza

“Certa vez fui pintar uma “Nega” no morro do Salgueiro e uma moradora do local questionou: “Essa sou eu?”. Pouco tempo depois ela mesma respondeu “Sim, essa sou eu”. Achei interessante que a dúvida em poucos segundo se tornasse afirmativa, sem que houvesse tempo de responde-la”, conta o grafiteiro. De acordo com ele, através do grafite é possível expor e experimentar um universo de ideias e sentimentos, que ao se materializar em arte é sentido e compartilhado com outras pessoas também.

“Na minha percepção, no meio das artes urbanas o grafite abraça e dá voz para o que há de melhor no Rio de Janeiro, que é o próprio Carioca e não somente a cidade, como algumas pessoas tendem a falar”, completa Ilpe.