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Meditação taoísta para acalmar a mente

Técnica busca um estado em que a consciência existe, mas não há ação mental ou sensorial

Clare Jim / meditation / CC BY-ND 2.0

Quem pratica a meditação taoísta busca se libertar do que é percebido para entrar na quietude interior

A prática da meditação tem se tornado coadjuvante da vida moderna em virtude dos altos níveis de estresse, da busca por métodos de desenvolvimento espiritual e outras finalidades. Apesar das técnicas de meditação serem diferentes para cada necessidade humana, elas possuem um ponto em comum: a tendência à redução de tensões. Para o taoísmo, esse cenário é compreendido de duas formas: como religião e como filosofia de vida, embora o único propósito seja a meditação.

Os resultados da prática contemplativa aparecem conforme a frequência e qualidade das sessões, mesmo como consequências secundárias.

Princípios regidos pela natureza

O estilo de vida dos sábios chineses na antiguidade era orientado pela filosofia taoísta. Eles seguiam os princípios da natureza com respeito às nuances individuais e uma relação de vitalidade a harmonia.1

Por meio do fluxo da energia vital e sua manifestação física, observavam a relação do universo (macrocosmo) com o ser humano (microcosmo) para desenvolver uma associação na qual o pensamento milenar chinês e a medicina estão estruturados. Com base nessa premissa e nos fundamentos do taoísmo, o mestre chinês Liu Pai Lin (1907-2000),2 que se naturalizou brasileiro em 1975, criou uma técnica de meditação e medicina de alto nível conhecida como “sentar na calma”.

Da ação a não-ação

Sentar na calma refere-se à harmonização do corpo, do coração e da respiração em uma posição sentada, calma e conforme um roteiro específico para facilitar a circulação de energia. Existem peculiares técnicas para relaxar o corpo e evitar o gasto desnecessário de energia. Na meditação taoísta, harmonizar o coração implica apaziguar a mente e o espírito, enquanto harmonizar a respiração é torná-la natural.


O primeiro passo antes de meditar é remover as tensões corporais e emocionais.

É comum que estejamos envolvidos com os afazeres cotidianos antes de sentarmos para meditar. Geralmente, o corpo se apresenta cansado e tenso e a mente inquieta e com emoções instáveis.

Algumas pessoas podem se sentir desestimuladas a se sentar e se acalmar por achar o processo difícil. Por isso, a primeira etapa desse tipo de meditação inclui exercícios corporais lentos que permitem uma transição gradual da ação física tensa à suave e, em seguida, para a estática.

Quando o corpo se estabiliza, a mente e as emoções podem ainda estar em movimento. O início do processo de condução da energia vital e estímulo de pontos específicos com a mente mais focada tende a diminuir automaticamente os pensamentos e os sentimentos. Nas etapas finais dessa técnica, é possível adentrar no estado de quietude em que a consciência existe, mas não há ação mental ou sensorial.

Roteiro para a quietude

O primeiro passo antes de se sentar para meditar é remover as tensões corporais e emocionais. Isso garante o suprimento adequado de oxigênio, melhora a circulação sanguínea e estimula o fluxo de energia vital.3Nessa fase, são indicados exercícios físicos suaves (tai chi ou chi kung, exercícios taoístas) para que a mente possa se centrar e se direcionar para aquilo que se propôs.

Na segunda etapa, o chi (energia vital) pode ser cultivado pela visualização de seu movimento ao longo do corpo, na postura em pé estática (meditação em pé) ou na postura sentada. Nesse momento, as técnicas de circulação de chi (treinos de energia) praticadas por algum tempo, estimulam algumas regiões, nutrem outras e captam a energia da natureza, seu equilíbrio e harmonização dentro de nós.

É provável que a partir dessa fase a energia esteja plena, o coração sereno, a respiração natural e a mente se aquiete progressivamente. Alguns pensamentos poderão aparecer, mas a mente tenderá a não dar prosseguimento ao diálogo interno e permanecerá como simples testemunha daquilo que possivelmente tentará roubar sua atenção. Só então uma quietude pode se instalar lentamente.

Voltar ao vazio

Algumas escolas recorrem a métodos de visualização e concentração que fazem com que o meditador utilize o universo sensorial, mental, corporal e material. Quem pratica a meditação taoísta procura deixar de pensar, visualizar, dar formas e nomes ao que se é percebido para conseguir entrar na quietude interior.


A meditação taoísta é fácil de praticar, mas exige que o conhecimento seja transmitido pessoalmente

Nessa abordagem, meditar é purificar o coração é voltar ao vazio. Esse retorno traz quietude e proporciona estabilidade, serenidade e paz. Quando se atinge esse estado é possível pensar de forma ativa e não reativa em que o pensar sugere o agir. Essa é a ação considerada verdadeira na concepção taoísta.

O estado meditativo, após certo tempo de prática, tende a ser incorporar no dia a dia. O sacerdote taoísta chinês Wu Jyh Cherng (1958-2004)4 ilustra de forma sábia esse mecanismo: “O que é a meditação? Fechamos as portas e as janelas, desligamos o telefone e colocamos um aviso de ‘não perturbe’ na porta. O que então acontece? Nos isolamos da atividade para entrarmos na quietude e por esse processo alcançamos o vazio. Conquistada a calma da quietude, do vazio, saímos da meditação, voltamos a abrir portas e janelas, religamos o telefone e começamos a trabalhar e a falar com as pessoas. No entanto, ainda permanece dentro de nós aquele efeito da quietude que foi conquistado no isolamento.”

Segundo Cherng, quem encontra diariamente um tempo para se isolar e meditar quando retoma suas atividades pode carregar consigo a quietude conquistada a cada dia de prática. Os momentos de quietude tendem a se ampliar e podem até influenciar o ambiente e as pessoas ao redor de quem pratica a meditação.

Técnica simples

As técnicas meditativas taoístas são simples e fáceis de praticar. No entanto, exigem inicialmente que o conhecimento seja transmitido pessoalmente, de professor para aluno ou mestre para aprendiz, pois a execução deve ser precisa e delicada. Os movimentos para flexibilizar as articulações e relaxar os músculos que antecedem o sentar devem ser lentos, leves e suaves.

A desobstrução de possíveis bloqueios de energia pode acarretar desconfortos imprevistos. A concentração excessiva pode acarretar desequilíbrios físicos e psíquicos, enquanto a falta de concentração pode criar devaneios. Essa é a razão pela qual se recomenda o aprendizado com pessoas qualificadas.

Estilos

Existem atualmente no Brasil estilos diferenciados de meditação taoísta. Cada um segue as tradições de seus referidos mentores, embora o objetivo de todos seja a pacificação e vitalização da mente e do coração. O sacerdote Wu Jyh Cherng ensinou a “meditação da purificação do coração”, principal técnica utilizada nesta instituição, como o caminho para a iluminação espiritual.

O mestre taoísta Liu Pai Lin, cuja linhagem taoísta segue os princípios da natureza (filosofia de vida), transmitiu o “sentar na calma”, uma prática para o equilíbrio e a serenidade. Mantak Chia, mestre taoísta tailandês, elaborou a “meditação do sorriso interno”,5 método para geração de vitalidade que estreita os vínculos da energia vital com o corpo físico.

Foto 1: Ana Carmen Foschini


Referências

1. CHING, N. O livro de acupuntura do Imperador Amarelo. São Paulo: Editorial Minerva, 1975.
2. LIU, P. L. Saúde e longevidade. 4. ed. São Paulo: Espaço da Luz, 2002.
3. MACIOCIA. G. Os fundamentos da medicina tradicional chinesa: um texto abrangente para acupuntura e fitoterapeutas. 2. ed. São Paulo: Roca, 2007
4. CHENG, W. J. Jornal do Tao do Taoísmo. Sociedade Brasileira Taoista, n. 17.
5. CHIA, M. Transform stress into vitality. Universal Tao Publications: Thailand, 2002.