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Meditação conquista escolas brasileiras

Instituições utilizam exercícios atencionais e outros métodos para promover a cultura de paz na educação

Associação Mente Viva

Crianças participantes do programa Mente Vive meditam na Escola Mariz e Barros em Porto Alegre

Muitas experiências e estudos científicos demonstram que práticas de meditação e atenção plena podem levar a um aprimoramento do equilíbrio subjetivo, ampliação do foco decisório, diminuição do estresse e melhoria dos níveis de atenção, aprendizagem e relacionamento, entre outros benefícios. Com a popularização destes conhecimentos, aos poucos, as técnicas vão adentrando diversos setores da sociedade, entre eles as escolas.

Para apresentar algumas das iniciativas que já são realizadas pelo país, aconteceu no dia 25 de junho o simpósio "Experiências de implementação de mindfulness em escolas brasileiras”, que integrou o II Encontro Internacional sobre Mindfulness e III Encontro Brasileiro de Mindfulness e Promoção da Saúde. O evento foi promovido pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Mente Viva

“As crianças vivem o aqui agora de uma forma muito mais intensa do que nós e em algum momento, isso se perde, se transforma. O desenvolvimento faz com que incorporemos estratégias cognitivas mais avançadas e assim vamos perdendo essas características tão presentes na infância. Implementar a meditação mindfulness é uma tentativa de preservar essa qualidade”, conta a psicóloga Lucianne Valdivia, coordenadora do programa Mente Viva, que tem como meta principal promover um convívio mais humanizado e afetivo nas diferentes relações sociais. 

São mais de 254 escolas associadas em diversos estados do Brasil e em outros países, como Espanha e Portugal, com mais de 40 mil crianças, adolescentes e professores participando dos programas de meditação. Desse universo, cerca de 12 mil meditam diariamente. A metodologia utilizada é inspirada na meditação transcendental, na qual cada criança se concentra na respiração e utiliza as seguintes frases como “mantra”: eu estou em paz; minha família e meus amigos estão em paz; minha escola está em paz; meu bairro está em paz, e minha cidade está em paz.

Crianças meditando na escola

Inteligência emocional

“Eu sei que aqui vocês aprendem português, ciências, matemática e isso é ótimo. Mas me digam uma coisa: quem é que os ensina a se sentir bem?”. É assim que o psiquiatra gaúcho José Ovídio Waldemar iniciou suas primeiras conversas com alunos de escolas públicas, inspirado pelo seu contato com a organização internacional Zen Peacemakers. Ele é um dos criadores do Programa “Viver Melhor na Escola”, que busca levar a educação social e emocional para o ambiente escolar. O projeto é realizado por profissionais de saúde e educação que trabalham em conjunto com nove escolas do centro de Porto Alegre.

Um dos carros-chefes do programa, segundo Waldemar, é a meditação mindfulness. Outros métodos como jogos colaborativos e exercícios atencionais também são utilizados com o intuito de promover o autoconhecimento, autoregulação, a consciência social, a responsabilidade e outros valores ligados a cultura de paz. “Em termos gerais nós sabemos que o sucesso na vida está mais diretamente relacionado a inteligência emocional do que ao currículo acadêmico, isso está bem descrito na literatura”, justifica.

O MindEduca, apresentado pela psicóloga e pesquisadora Regina Migliori é um programa que traz valores semelhantes e visa implantar o processo de desenvolvimento da inteligência ética a partir das práticas contemplativas e da abordagem neurocientífica, adequadas a diferentes faixas etárias. É aplicado atualmente em diversas organizações e instituições de ensino espalhadas pelo país, com destaque para o projeto, em parceria com a Secretaria de Educação do Espírito Santo, nas escolas estaduais.

“A escola pode e deve se tornar um polo radiador de transformação, e é essa a nossa aspiração. A de conseguir conscientizar as pessoas sobre as suas potencialidades e a capacidade de repetir, influenciar e transformar as experiências do mundo interno e do mundo externo”, afirma Migliori.

Mindfulness para o sucesso?

Waldemar lembrou da discussão existente nos EUA apelidada como “McMindfulness”, uma referência a uma suposta tentativa de tornar a prática de atenção plena em uma representação completa do método, o que é questionado por muitos especialistas.

“Estão treinando os soldados nos EUA que vão combater no Oriente Médio para não ter estresse pós-traumático, por exemplo. Mas as origens do mindfulness remetem à filosofia budista e a todas as religiões humanistas, que dizem que não podemos alcançar o bem estar individual sem que haja um bem estar da família, da comunidade, da sociedade. Então se tratamos isso como uma técnica para uma pessoa ter sucesso, isso é sim uma distorção das origens do mindfulness, que tem a ver com trazer o bem estar para todos, inclusive para mim”, afirmou o psiquiatra.

Os palestrantes foram questionados sobre a linguagem utilizada com os professores e alunos, já que existe uma aura negativa sob o termo “meditação” pela sua ligação com as tradições contemplativas do oriente. Regina Migliori falou sobre a necessidade de não omitir a palavra nas atividades aplicadas nas escolas. “Faz parte do aprendizado ir fundo nessa esfera de preconceito, compreendê-la e dissolvê-la, e não disfarçá-la”, alerta.

Segundo ela, a desvinculação da meditação como uma prática religiosa não significa ignorar as suas origens. Se não existissem os cérebros dos meditantes, não existiriam as pesquisas neurocientíficas que a gente tem hoje. “Não se trata de desvincular, e sim reintegrar, num patamar adequado ao nosso posicionamento de século 21”, afirma.

Foto: Associação Mente Viva


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