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Mais colheitas sem agrotóxicos

Para André Leu, presidente da Ifoam, agroecologia ajuda pequenos produtores a deixar pobreza

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Para André Leu, agricultores gastam menos dinheiro com químicos e obtêm colheitas mais altas

Produzir alimentos orgânicos não beneficia apenas os consumidores, mas também os pequenos agricultores, que gastam menos e obtêm maiores rendimentos. Quem defende a ideia é André Leu, presidente da Federação Internacional de Movimentos de Agricultura Orgânica (International Federation of Organic Agriculture Movements - Ifoam). Produtor de orgânico há mais de 36 anos, o australiano esteve no Brasil para o 10º Fórum Internacional de Agricultura Orgânica e Sustentável, realizado em São Paulo, que o Portal NAMU cobriu.

“Pequenos produtores rurais são o grupo socioeconômico mais pobre de todos os países. Ainda assim, eles produzem 80% da comida dos países em desenvolvimento”, disse Leu em entrevista ao Portal NAMU (veja vídeo abaixo). “Com a agricultura orgânica podemos mudar esse quadro, de forma que eles saiam da pobreza e possam viver em uma relativa prosperidade nos seus países.”

Leu explica que técnicas de agroecologia muitas vezes são mais eficazes do que o uso de fertilizantes e pesticidas. Um exemplo é a método conhecido como “empurra e puxa”, utilizada em plantações de milho no Quênia para combater a broca do colmo (caule) do milho, uma lagarta. Os agricultores plantam entre os pés de milho a leguminosa desmodium, que afasta – “empurra” – as mariposas cujos ovos se transformariam em brocas. Os fazendeiros plantam junto o capim-napier (ou capim-elefante), planta que atrai as mariposas - “puxa” – mas secreta uma substância que mata as lagartas assim que os ovos eclodem. Segundo Leu, a técnica rende colheitas de 2 a 10 vezes mais altas e as plantas ainda podem ser usadas para alimentar o gado.

Preços mais altos

Abolir produtos químicos também ajuda a diminuir os custos da produção, afirma Leu. “A agricultura orgânica é um sistema baseado no conhecimento. Não tem a ver com comprar mais pesticidas ou químicos”, explica. “Pequenos fazendeiros geralmente gastam muito comprando pesticidas e fertilizantes. Com o nosso sistema, nós os ensinamos a usar insumos e cultivar gramíneas, a usar sistemas agroecológicos, a maioria dos quais eles podem encontrar na própria fazenda, a custo zero ou baixo”.

Para Leu, o preço mais alto dos orgânicos também beneficia os produtores de todo o mundo. Na opinião do agricultor, parte do preço está relacionada à qualidade. “Há uma diferença de preço se você compra um carro Volkswagen velho de segunda mão ou um Rolls-Royce. Orgânicos são o Rolls-Royce da comida.”

Outra razão seria a produção ainda insuficiente dos alimentos, apesar dos investimentos em do país em treinamento, apoio às cooperativas e estímulo do mercado. “O Brasil está fazendo muito, porém muito mais precisa ser feito”.

Mudança de paradigmas

No Brasil, a mudança exigiria reverter um processo histórico, defende em entrevista ao Portal NAMU Arnoldo de Campos, secretário nacional de Segurança Alimentar e Nutricional do Ministério de Desenvolvimento Social e Combate à Fome.

“O Brasil é o país da revolução verde que introduziu o agrotóxico, as sementes híbridas, os transgênicos”, disse Campos. "Como reverter isso agora com o padrão tecnológico baseado na agroecologia, na produção orgânica livre de contaminantes? Esse é o desafio da atualidade da agricultura brasileira: ter uma oferta de produtos limpos, saudáveis, com sustentabilidade, ao mesmo tempo olhando saúde e meio ambiente”.

“A disponibilidade do alimento saudável não é tão grande quanto a disponibilidade do produto ultra processado”, reconhece Campos. “O problema da dificuldade de acesso à alimentação está sendo superado [no país], nosso desafio é da qualidade. É apoiar a agricultura familiar, os extrativistas, os pescadores”, afirma.


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