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Kailash Satyarthi discute o direito à educação no Brasil

O ativista indiano e o Prêmio Nobel da Paz esteve em São Paulo em palestra sobre o futuro do ensino no país

Campanha Nacional pelo Direito à Educação

Esta é a primeira vez que o indiano Kailash Satyarthi vem ao Brasil, após ter sido indicado ao Nobel da Paz em 2014 (premiação que dividiu com a paquistanesa Malala Yousafzai). Para um público composto por ativistas da área da educação, jornalistas e estudantes que participaram das ocupações das escolas públicas em São Paulo, Satyarthi iniciou sua aula-pública promovida pela Campanha Nacional pelo Direito à Educação na manhã de terça-feira (26/1) de forma generosa: “Este prêmio não é para mim, mas para todos os parceiros que lutam pelo direito à educação no mundo todo”, disse.

O indiano está à frente da fundação BBA (Bachpan Bachao Andolan, que em inglês significa “Save Childhood Movement”), responsável por resgatar mais de 80 mil crianças do trabalho escravo na Índia desde 1980. Mas ele também fez com que a causa se espalhasse pelo mundo ao ser o líder da Marcha Global Contra o Trabalho Infantil e da Campanha Global pela Educação. “Escravidão infantil e analfabetismo são dois lados da mesma moeda”, disse Satyarthi, e é por isso que sua atuação se desenvolve nessas duas frentes. “Negar educação é uma violência. Todas as pessoas nasceram com o direito de aprender e como seres humanos livres”, completou.

O ganhador do Nobel da Paz criticou o modo como o direito à educação se tornou um comércio em muitos países, onde poucas pessoas têm acesso a escolas de qualidade e criticou também como essa desigualdade se reproduz pelo globo. “O controle da educação, da alta tecnologia, do conhecimento científico e médico na mão de poucos e em poucos países faz com que tenhamos uma disparidade no mundo. A educação precisa ser de qualidade para todos”, comentou Satyarthi. Para ele, o engajamento da sociedade civil nos últimos anos fortaleceu a luta pela educação, mas ainda é necessário que o movimento se torne mais forte e se alie ao combate ao trabalho infantil e ao trabalho escravo, pressionando governos por mudanças.

O ativista indiano Kailash Satyarthi discute sentado em uma roda com professores e alunos
O ativista indiano Kailash Satyarthi esteve em contato com professores e alunos de escolas de São Paulo

“Precisamos proteger as crianças de todas as formas de violência”, disse, ao se referir ao que ocorre hoje na Síria, onde crianças são raptadas para servir ao Estado Islâmico, ou na Nigéria, onde meninas foram sequestradas pelo grupo extremista Boko Haram e até hoje não se sabe o que aconteceu com elas. Por causa disso, várias meninas estão deixando de frequentar escolas na África. Além das milhares de crianças refugiadas por causa da guerra na Síria. Satyarthi questiona a plateia: “Como podemos falar que somos civilizados se não prestamos atenção nisso?”. E completou: “Clamo por um mundo globalizado de compaixão. Só isto tornará o mundo mais seguro e humano”, e convocou os jovens presentes para lutar por este ideal.

“Ocupem o mundo todo, não só escolas”

Depois da fala de Satyarthi, vários estudantes da Fernão Dias Paes, uma das escolas ocupadas no final do ano passado contra o projeto de reorganização do governo Alckmin, contaram para o indiano as experiências que tiveram, o novo significado que a escola passou a ter na vida deles e o tamanho da repressão policial que enfrentaram. "A gente passou a ver a escola de outro jeito [depois das ocupações]. Antes muitos [alunos] brigavam com os pais para não irem para a escola. Durante a ocupação, a gente brigava com nossos pais para ir para a escola", contou Ícaro, um dos estudantes. Jéssica, outra aluna da Fernão Dias Paes, comentou: "Quando eu ia para o ato, eu achava que não ia sofrer nenhum tipo repressão. A gente é menor de idade, né? Aí aconteceu tudo ao contrário. A gente apanhou muito. E foi uma coisa que me fez amadurecer bastante", revelou. “Eu mudei mais em 1 mês do que em 9 anos na escola”, comentou outra estudante.

Satyarthi agradeceu os estudantes presentes e disse que eles “são heróis e têm toda a capacidade do mundo de lutar e ganhar”. Contou que, aos 13 anos, também foi preso com outros colegas, porque eram contrários ao ensino obrigatório de inglês nas escolas de seu país. “A Índia era livre e nós não aceitávamos [o inglês no currículo escolar]”. Reportou-se aos alunos brasileiros como um “bom amigo” e mencionou que era uma honra para ele estar ao lado deles, e não o contrário. Depois, completou: “ocupem o mundo todo, não só escolas”.

Por fim, Satyarthi revelou a todos os presentes uma “fórmula” por ele criada chamada de “3D - dream (sonhe), discover (descubra) e do (faça)” e explicou: “Sonhem grande, o maior sonho possível, mas não só por vocês, porque isso é muito egoísta; descubram a força interior de vocês, o herói dentro de cada um. Vocês que vão mudar, ninguém vai fazer isso por vocês; façam agora, ajam. Todos nós temos que agir, quebrar o silêncio. A história é criada por aqueles que têm a coragem de ir à luta sem saber se vão falhar ou não”.

Foto: Campanha Nacional pelo Direito à Educação