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Jung, individualismo e cultura de massa

Escolhas individuais afetam a sociedade por influenciarem decisões políticas, aponta especialista

Richard Ashurst / Flickr: Protesters / CC BY 2.0

Segundo Ghorayeb, é preciso ter cuidado para que não nos tornemos missionários das nossas ideologias, sem enxergar ou compreender as demais

Política é algo amargo e cansativo para muitos brasileiros. No entanto, tomar partido, votar, exercer o papel de cidadão e participar ativamente da vida pública são posturas que precisam se fazer presentes para que a democracia em nosso país se consolide.

“Há a necessidade urgente de se recriar uma política que faça sentido para cada um na sociedade atual”, pontua Camilo Ghorayeb, psicólogo especialista em estudos junguianos. Ele destaca que política e psicologia são linguagens que se relacionam, uma vez que a alma, segundo a psicologia junguiana, também existe fora do indivíduo. Porém, segundo ele, “é preciso ter cuidado para que não nos tornemos missionários das nossas ideologias, sem enxergar ou compreender as demais”.

Em entrevista ao Portal NAMU, Ghorayeb esclarece os aspectos dessa relação e diz o quanto os questionamentos políticos e pessoais são essenciais para o crescimento do homem.

Para Jung, qual é a posição do sujeito em uma politica que ao mesmo tempo é construída coletiva e individualmente?
A politica, por se tratar de algo que é construído coletivamente, acaba gerando intensidades de aprisionamentos maiores, uma vez que as opiniões em massa prevalecem sobre os indivíduos. A alma, segundo a psicologia junguiana, existe também fora do indivíduo, dessa forma, o exercício político parte primeiramente das escolhas individuais que irão refletir no todo da democracia. A massificação nos faz pensar que os indivíduos não estão conscientes ou não se encontram muito identificados com as forças que os empurram para determinadas decisões. Isso pode gerar um aprisionamento, o qual só será superado através de uma postura cética, que desconfia de qualquer vício de perspectiva.

Essas forças da alma que atingem cada um de nós são capazes de nos transformar. É muito comum ver pessoas agindo de formas inimagináveis em massa. Por exemplo, pessoas tranquilas que se desestabilizam em um jogo de futebol. Elas se transformam quando fazem parte de um grupo de torcedores.


"Desconfie de qualquer vício de perspectiva, seu e dos outros", recomenda Camilo Ghorayeb

Como compreender e dissolver as questões do aprisionamento individual dentro de uma sociedade política?
O aprisionamento do indivíduo é uma consequência da inconsciência de se estar aprisionado. A certeza de que as coisas pelas quais você luta são justas pode gerar quase um ataque missionário ao mundo, isso impede qualquer relação democrática e de diálogo. A saída para não se aprisionar a conceitos e ideologias está em criar consciência sobre os motivos reais que nos fazem o lutar por determinadas causas. Isso não significa simplesmente deixar de lutar por nossas causas. Fazer isso é uma das alternativas. Quando conquistamos mais consciência, nossa mente abre espaço para outras versões, o que, por sua vez, produz novas possibilidades de diálogo.

Dentro da democracia, onde todos temos os mesmos direitos e exercemos a política com a mesma perspectiva, qual é a postura do psicólogo?
Todo mundo ter o mesmo direito significa que todos temos de ser diferentes, por que se formos todos iguais, de certa forma, estamos dando direito para uma visão só. Para o psicológico, todas as visões têm direitos, todas as perspectivas têm direito. Quando massificamos tudo, criamos uma ditadura. A democracia garante a diferença. Ela é múltipla.

Como tomar consciência sobre o ser humano missionário e saber a hora de parar?
São as crises que irão indicar quando algo está errado. Quando não há espaço para o outro, quando não há autocrítica nem dúvidas, há algo errado. As melhores saídas para melhorar a democracia são a dúvida e a mudança. No âmbito pessoal, isso pode ser originado de uma história de vida. A única forma de evitar o missionarismo, ou seja, aquele indivíduo que prega seus ideais sem respeitar os demais, é agindo e pensando de maneira consciente e política. Devemos sempre dar espaço para novas ideias. Duvidar das próprias certezas é uma ferramenta fundamental, porque a grande sacada da democracia é a relação com o outro, não há como existir democracia sem essa relação.

Quais as etapas da aceitação e da tomada da consciência em busca de assumir nossa personalidade política?
São diversas as etapas. Eu costumo dizer que elas são tão diversas quanto as pessoas. Cada um tem a sua forma de passar por determinadas situações problemáticas. É assim que cada indivíduo conquista uma nova identidade. É sempre algo muito pessoal. Precisamos estar atentos para o quanto isso pode nos influenciar. A dúvida deve estar presente sempre.


Foto: Arquivo pessoal