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José Pacheco e os porquês da educação no Brasil

Em entrevista exclusiva, o pedagogo afirma que o fechamento de escolas públicas em São Paulo “é escabroso”

Prefeitura de Itapevi / Flickr: 2017-02-23 Alunos da rede municipal de educação / CC BY 2.0

José Pacheco é um dos maiores expoentes de um novo modelo de educação. Seu trabalho na inovadora Escola da Ponte em Portugal é hoje mundialmente reconhecido. Após anos na coordenação do modelo pedagógico dessa instituição, Pacheco se mudou para o Brasil. Atualmente, ele “anda como um louco” pelo país acompanhando projetos transformadores de ensino e aprendendo com os outros, como ele mesmo costuma dizer. Para Pacheco, no entanto, ele é simplesmente o professor Zé, um aposentado da escola, mas não da vida.

Essa é a segunda vez em que o educador português fala ao Portal NAMU sobre os rumos para educação no Brasil (os três vídeos do encontro anterior podem ser vistos aqui). Na entrevista concedida após um debate sobre os rumos da educação brasileira no Centro Cultural da Juventude na capital paulista, em outubro de 2015, ele reitera que o Brasil tem tudo o que precisa para ser um modelo na educação e que é preciso abandonar essa cultura educacional retrógrada, europeia, fruto da Revolução Industrial, estabelecida como a única possível.

Pacheco indaga tudo e todos. “Não basta reconfigurar a escola, mas é preciso”, assegura. Ele questiona uniformes, transporte escolar, cargos, salários, férias, laboratórios de informática, salas de aula, paredes e muros. Desconstrói até aquilo que parecia imutável do que conhecemos de ensino fundamental. “Como criar cidadãos autônomos se os professores não são autônomos, se a escola não é autônoma?”, indaga o professor.

A forma como uma mudança pode ser feita, segundo ele, depende de todos. Vai desde pais e professores até as políticas educacionais dos municípios, estados e do Ministério da Educação. “Nós temos que intervir no que está acontecendo no governo do Estado”, instiga falando sobre os atuais desmandes acontecidos na gestão pública da educação do país.

Diante de tantas perguntas e poucas respostas, Pacheco desperta indagações nunca antes postas em debate sobre uma educação significativa. Afinal, se a educação que temos não está boa, qual é então a educação que queremos?

Portal NAMU: Em uma entrevista, você disse que o melhor que se podia fazer pela educação no Brasil era extinguir o Ministério da Educação. Você realmente acredita nisso?
José Pacheco: Não, isso foi uma metáfora e, digamos, uma manifestação da minha criança grande. É evidente que isso não pode acontecer. Mas o Ministério da Educação, mesmo com toda gente boa, capaz, inteligente, bem formada que tem, é um monstro burocrático. Ali existe pouca pedagogia e, nesse aspecto, melhor seria se não existisse.

Então, você acha que a causa do atraso nas melhorias da educação no país são os excessos de políticas e de avaliações dadas pelo Ministério da Educação?
Na verdade, o que acontece é que todos os projetos e programas que o Ministério tem colocado não têm qualquer fundamento científico. São apenas paliativos de uma escola do século XIX, que não fazem sentido no século XXI. O Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), por exemplo, não avalia nada e o Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) não é um índice de desenvolvimento, é um indicador de decoreba. Mas, de qualquer modo, eu apoio essas medidas. A ideia do Programa Mais Educação, por exemplo, é extraordinária. Fazer um programa para acrescentar algumas horas à permanência do aluno na escola é ótimo. O problema é o que vai ser feito dessas horas. Elaborar uma atividade para ser um mero contra turno, que vai apenas atenuar os péssimos efeitos da grade curricular matinal numa tarde de artes, capoeira etc., isso é que está errado. Essas são as chamadas pedagogias compensatórias. O que é preciso é uma educação integral, em tempo integral.

Enquanto não é possível mudar a educação de maneira estrutural, os professores nas escolas tradicionais têm condições de promover mudanças e diversificar a forma como eles educam mesmo dentro de contextos e estruturas tão tradicionais?
Todas as condições. Eu falo por mim. Eu tenho 47 anos de chão de escola com projetos que provaram excelência acadêmica, inclusão social etc. Perdoe-me a minha arrogância, mas é assim. É preciso que os professores se organizem como uma equipe dentro das escolas e assumam o projeto politico pedagógico delas. O que acontece hoje é que os projetos que estão escritos não são feitos na prática. Há uma conivência do poder público e das secretarias em relação a isso. Eu sempre digo: ter aula, turma etc. não tem fundamento científico nenhum. Aula no século XXI é um escândalo! Se os professores têm consciência disso, com prudência – porque a criança não é cobaia –, em equipe, fundamentados na ciência e na lei, podem devagar ir modificando a sua prática. Isso é possível. Eu acompanho mais de 200 projetos no Brasil. O trabalho no Projeto Âncora, por exemplo, é uma prova de que é possível. Crianças que foram “jogadas para fora” da escola com 10 anos estão estudando conteúdos da grade curricular do ensino médio. Então, é possível. O problema é que os institutos são geridos pela burocracia e não são governados pela pedagogia. Essa é a questão. É por isso que eu falo do silêncio dos pedagogos, porque todos sabem disso, mas ninguém reage. Ou melhor, alguns reagem. Poucos.duas crianças com livros na mão e uma escola alternativa ao fundo
O Projeto Âncora é umas das escolas autônomas tutoradas pelo professor José Pacheco no Brasil

Já está claro que é possível, mas no contexto atual do Brasil, diante da violência sofrida pelos professores nos protestos no Paraná e os cortes de gastos que o governo de São Paulo fez na educação em 2015, o que motivaria a mudança nesses professores?
Olha, eu sou sindicalista, o dirigente sindical mais antigo no meu país e considero um escândalo fazer o que fizeram com os professores do Paraná [em abril de 2015, a Polícia Militar do Paraná entrou em confronto violento com professores que protestavam contra o projeto de lei que alterava a fonte de pagamento de beneficiários do fundo da previdência] e os cortes em São Paulo [94 colégios estaduais que serão fechados a partir de 2016 pelo governo de Geraldo Alckmin]. É evidente, isso é escabroso. Quando se poupa na educação, vai se gastar na segurança, nos quartéis, nos tribunais e prisões. Mas a falta de motivação decorre também de uma cultura profissional de isolamento e individualismo. O professorado é uma profissão completamente dividida, espartilhada em setores e em categorias.
Os diretores ganham mais que os professores, os mais antigos têm maior salário que os que têm menos tempo de serviço, há banheiros de professores e banheiros de diretores. O que é isso? Os professores estão expostos à depreciação, porque o estatuto oficial está menosprezado. É preciso que eles mostrem sua capacidade. Os professores brasileiros são bons, o problema é que eles estão trabalhando de modo errado e aceitam tacitamente isso. Eu sei que há muitos obstáculos, mas o principal somos nós, é a nossa cultura pessoal e profissional que é sedimentada por um estágio que nós fazemos a partir dos seis anos. Ouvimos aulas por anos, depois vamos a uma faculdade que faz uma formação miserável e vamos dar aula, vamos reproduzir isso. Depois, temos toda uma hierarquia. É uma coisa impressionante. Por exemplo, muitos conseguem cargos na área por indicação de políticos. É impressionante! E fala-se de democracia, fala-se de autonomia. Vamos falar sério.

No Brasil, normalmente, escolas que fogem muito do padrão e têm uma educação mais afetiva, como as de abordagem antroposófica, são muito caras. Existem exemplos de escolas que conseguem aplicar métodos não tradicionais sem elitizar o ensino?
Uma educação boa não é obrigatoriamente uma educação cara. O custo aluno-ano de escolas públicas que eu acompanho é muito barato. Existem escolas caras que anunciam nos outdoors vantagens e méritos na formação que promovem. Essas escolas não passam de meras empresas, que têm o aluno como mercadoria e o pai como cliente. É possível uma escola melhor por um valor muito mais baixo que aquele que é cobrado. Há também muita corrupção no sistema educativo e é um escândalo conceber que haja profissionais da educação e educadores corruptos. Existem muitos secretários e diretores que se deixam corromper. No Brasil, são 56 bilhões de reais desperdiçados na educação e isso é uma realidade, ninguém pode dizer que não é.


Pacheco em assembleia com estudantes na Escola Oficina Pindorama, onde é orientador pedagógico

Agora falando sobre os pais dos alunos. Como eles reagem quando você lhes propõe um modelo de educação tão diferente do que eles, filhos do modelo de educação tradicional, viveram?
Os pais são pessoas inteligentes e amam os filhos. Os professores são pessoas inteligentes e amam os alunos. Estão do mesmo lado. Se explicamos aos pais, numa linguagem que eles entendem, que aula não tem que existir, que prova não prova nada, que não tem de haver série, que o fundamental não precisa ser separado do resto, enfim, os pais entendem. Melhor que isso, no caso da Escola da Ponte, os pais entenderam tão bem que defendem o modelo e são eles que dirigem a escola. Também participo de escolas brasileiras dirigidas pelos pais. A questão é que quem sabe de pedagogia são os professores. É essa a grande distinção. Uma escola tem que ser gerida pela pedagogia, mas quem deve administrar financeiramente é a comunidade, através das famílias e dos pais.
Por mais que alguns ortodoxos estrebuchem, eu faço sempre as mesmas perguntas as quais eles não têm respostas: por que é que é como é? Porque todos começam a escola na mesma hora? Porque são 200 dias letivos? Porque são 4 horas por dia? Porque há contra turno? Porque há banheiros separados? Tudo isso que eu digo é uma brincadeira de criança grande, mas é o cerne da questão. Conversar sobre banalidades ou sexo dos anjos em frases de grande efeito não vai modificar nada. É preciso considerar que o Brasil tem excelentes profissionais. Eles precisam receber as condições para assumir dignamente a profissão e ter um bom salário. Isso é possível. Eu estou vendo que é possível.

Para finalizar, uma educação como a que você propõe é possível a curto, médio ou longo prazo no Brasil?
Já existe e já está acontecendo. Por isso que eu digo que é possível agora. Eu estou num grupo de trabalho junto ao Ministério da Educação e sei de projetos públicos de elevadíssima qualidade em que se verifica uma adesão incrível. O Brasil é o futuro da educação.

Foto 1: Ana Paula Alcântara
Foto 2: Nathalia Kamura


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