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Horta urbana: colher com os amigos

Plantações comunitárias multiplicam-se por São Paulo e revelam um ângulo mais humano da cidade

Giulia Afiune

Felipe Medalla e Veridiana Moffa frequentam a Horta das Corujas, em São Paulo

“Se eu colocar fibra de coco, ajuda? A raiz cresce até que profundidade? Quantas vezes por dia tem de regar?”

Quando atravesso o asfalto e chego à Horta das Corujas, na Vila Beatriz, zona oeste de São Paulo, é como se houvesse uma suspensão no espaço e no tempo da maior cidade brasileira. Muito verde, pássaros cantando e o murmúrio de água correndo no riacho ali ao lado. Entro pelo portão baixo e me junto ao grupo de pessoas presentes no mutirão de sábado de manhã.

Sentadas em círculo no chão, em meio a inúmeros canteiros repletos de ervas, plantas e flores, cada um dos presentes tranquilamente dá sugestões sobre a melhor maneira de plantar sementes de moringa oleifera - conhecida por suas propriedades nutritivas. A fala lenta e sussurrada se misturava com o som das folhas secas amassadas no chão. A reunião mais parecia uma assembleia no campo, mas não para discutir política, pelo menos não diretamente.

“Tem muita gente sozinha na cidade e a horta é um mediador social excelente. Você encontra uma pessoa, um é punk, outro evangélico, um tem 10 anos, outro 100, mas a conversa é infinita”, elogia a jornalista Claudia Visoni, uma das criadoras do grupo do Facebook Hortelões Urbanos. “É um jeito de conversar com pessoas com quem você não conversaria porque vocês estão discutindo a salsinha, é um assunto pacífico. Se fosse pra falar sobre futebol ou política, não ia dar certo.”

Pessoas reunidas em círculo em um parque discutindo sobre a implantação de hortas urbanas no local
Grupo se reúne para trocar experiências de plantio na Horta das Corujas, em São Paulo

Corujas, primeira horta comunitária

Foi no grupo Hortelões Urbanos, há cerca de um ano apenas, onde brotou a semente que deu início à Horta das Corujas, primeira horta comunitária de São Paulo. A ideia de plantar couve, tomate, berinjela, manjericão e milho em canteiros, praças e espaços públicos no meio da cidade poderia parecer estranha. Ainda mais pensando que a horta estaria aberta para quem quisesse colher, e que dependeria do esforço da comunidade para se manter.

Mas pouco tempo após a estreia da Horta das Corujas, pelo menos outros onze espaços semelhantes se espalharam pela Vila Madalena, Pompeia, Paraíso, Brasilândia e Casa Verde. “O desejo de usar o espaço público já estava interiorizado, mas as pessoas tinham receio de fazer algo e não sabiam como”, diz a administradora de empresas e moradora da Avenida das Corujas Madalena Buzzo, de 52 anos, que esteve ao lado de Visoni no início da empreitada. “Assim que a gente apresentou a possibilidade da horta, imediatamente outros grupos foram caçar o lugar pertinho deles onde também pudessem fazer.”

“Ninguém mais está a fim de passar três horas no congestionamento, ver a rua cheia de carros, prédios de 400 andares, se matar de trabalhar para não ter vida”, afirma Visoni. “As pessoas estão doentes, estressadas... Nas últimas décadas, elas foram para dentro de seus apartamentos, cresceram seus muros, blindaram seus carros, achando que essa era a solução para a violência. E não é. Mesmo assim, tem arrastão em condomínio. Cansou, esse modelo não deu certo. Há um desejo de algo diferente e a horta faz parte disso”, explica ela, que atribui a rápida disseminação do movimento a esse sentimento.

Pedaço de paraíso

Produzir alimentos perto de casa traz benefícios para o meio ambiente, como a diminuição da poluição pelos caminhões que os transportam. A experiência na horta permite questionar esse modelo, defende o estudante de gestão ambiental e frequentador da Horta das Corujas, Felipe Medalla, de 27 anos, que desenvolve um projeto de iniciação científica na área de Agroecologia na Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo.

“Trocar uma salada que você compra no mercado - que veio de quilômetros de distância e tem agrotóxicos - por uma coisa que você plantou é uma mudança de valor em relação à natureza, ao solo, às plantas, aos animais. Produzir o próprio alimento para mim é uma microrrevolução”, acredita o estudante. “É uma coisa que o torna mais independente do sistema.”

Enquanto Felipe planta e rega os canteiros, a namorada e estudante de educação artística Veridiana Moffa, também de 27 anos, gosta de pintar as plaquinhas que identificam os alimentos. Os dois frequentam o espaço quase todo fim de semana. Além de contribuir com o meio ambiente, o espaço oferece uma opção de lazer praticamente sem custo. “Meus pais não entendiam porque a gente vinha tanto aqui. Quando eles conheceramo lugar, ficaram bobos. Vocês acharam um pedaço de paraíso em São Paulo?”, conta Veridiana, animada.

Ciclistas na Paulista

A cerca de 5 km dali, na Avenida Paulista, na esquina com a Rua da Consolação, fica a Horta do Ciclista, localizada na praça de mesmo nome. Singelo e aparentemente frágil, o canteiro verde desafia os altos prédios de escritórios e a correria dos que passam por ali.

O engenheiro industrial Ariel Kogan encaixa uma visita para cuidar da horta entre as reuniões que realiza na região. Ele se envolveu com o movimento logo no começo, em outubro de 2012. Um grupo de ciclistas e pessoas ligadas à agricultura urbana que usavam o local começou a pensar em como tornar a praça, cheia de lixo e entulho, em um lugar mais bonito – o que culminou na ideia da horta. Hoje, Kogan acredita no potencial transformador da iniciativa.

“Não acho que podemos chamar a Horta do Ciclista de um “espaço de resistência”, porque isso passaria a ideia de que é o último e que pode ser que um dia acabe. Tem cada vez mais gente querendo colaborar, cuidar dessa hortinha e também estão surgindo outras pela cidade. Então, é um espaço de transição para uma forma diferente de vida na cidade porque as pessoas realmente não querem mais viver assim”, espera o argentino de 28 anos que trabalha no Programa Cidades Sustentáveis, da Rede Nossa São Paulo.

As regas diárias na Horta do Ciclistas acontecem com a ajuda dos funcionários do estacionamento vizinho, que oferecem água e espaço para guardar baldes e regadores. Para Kogan, o cuidado mostra que a comunidade se apropriou do local. “Aconteceram quantas manifestações, réveillon, natal, um monte de eventos na própria praça e a horta continua existindo e cada vez mais bonita.”

As raízes se espalham

As hortas também se espalham por regiões menos valorizadas da cidade. Comunidades da periferia e ocupações em prédios do centro de São Paulo já contam com canteiros. Na Brasilândia, distrito da periferia norte de São Paulo, pelo menos duas hortas já estão em funcionamento. A Horta do Jardim Guarani, na rua Itambé do Mato Dentro, começou em julho de 2013 e ainda luta para sobreviver.

“Às vezes a pessoa reclama, cobra, mas acha que é outra pessoa que tem que fazer. Teve dia em que eu ia sozinha, com todas as ferramentas, e recebia elogios das pessoas na rua. Quando eu falava que tinha mais uma enxada para ela ajudar, a pessoa ria”, relata a educadora e moradora Rosângela Macedo, de 43 anos. Ela vive há 39 anos no bairro, onde se dedica a um projeto de recuperação da cultura tradicional brasileira, o que inclui a agricultura.

“Aqui as pessoas têm muita informação para trocar, mas precisam ser sensibilizadas para o trabalho coletivo. A horta traz o benefício da alimentação, mas também é uma ferramenta para a gente se unir. Porque ali a gente não vai falar só da horta, vamos falar de todos os outros problemas que estamos vivenciando. E até agora a gente não tinha esse espaço de troca de experiências.”

Brincadeira de criança

A hortinha da rua Itambé possui uma particularidade. “Quem está participando firme e tomando conta são as crianças.” Já que a região oferece poucas opções de lazer, os pequenos usam a Horta das Crianças, como ficou conhecida, para brincar. “A gente está na periferia, falta espaço, muitos moram em casas com bastante gente em que o quintal é um corredor que leva da casa para a rua. Quando eles chegam e podem mexer com a terra, plantar é tudo que desejam.”

Para Macedo, esse é um começo. “A criança vai por conta própria. É com a permanência deles que os pais podem ir se aproximando.”

Terapia da terra

“Se fizerem uma pesquisa na avenida Paulista de levar um potinho com terra e falar ‘te dou um real se você puser a mão aqui’, a maioria das pessoas vai recusar porque tem aversão, nojo da terra. E nem precisa ter minhoca!”, brinca Claudia Visoni.

Ela destaca que a reconexão com a natureza por meio das hortas pode ter inúmeros benefícios, inclusive terapêuticos. “No mundo artificial, da internet, do carro, a gente faz algumas mágicas. Liga o ar-condicionado bem frio quando está calor ou usa a luz elétrica a noite toda para estudar”, considera a jornalista. Mas as plantas seguem o ritmo da natureza.

“Você não apressa o verão. A chuva e a seca chegarão quando for hora. Você volta a esse ritmo que não depende de você. Em vez de se sentir impotente, se sente integrado, se acalma. Leva esses ensinamentos para outras áreas da sua vida. Às vezes, na vida, você quer porque quer um objetivo, mas se não for a hora, não vai acontecer. A horta é um treino para isso: existem coisas maiores que você e você faz parte disso. Aí você se sente menos sozinho.”

A médica patologista Thais Mauad gosta da quebra que a Horta das Corujas oferece para o seu dia a dia como professora e pesquisadora na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP). “Tenho uma rotina muito intelectual, então essa coisa prática para mim é um jeito de eu estar ao ar livre, de me exercitar, de aprender um monte de coisa.”

A livre docente é também vice-coordenadora do Instituto Nacional de Análise Integrada do Risco Ambiental, onde pesquisa o impacto do ambiente urbano na saúde. “Como sou médica, valorizo a alimentação saudável, a atividade física e a horta congrega isso de uma maneira muito lúdica. Além de tudo, você pode bater papo com o seu vizinho, com as pessoas do seu bairro. Está todo mundo com um objetivo comum bacana.”

A experiência tem sido tão gratificante que ela iniciou um projeto de horta comunitária na própria FMUSP, onde trabalha. “Lá quem cuida é um grupo de idosos e as crianças, os filhos dos funcionários”.

“Hoje nós ficamos processando informação na frente do computador, falando ao telefone, fazendo um milhão de coisas ao mesmo tempo... e quando você vai para o mundo verde, sua cabeça funciona de outro jeito. Descobri até que isso me ajuda a escrever, porque na hora em que você vai para lá e os pensamentos vão baixando, é uma espécie de meditação. Você está lá mexendo na terra, vai esvaziando a cabeça e começa a ter muitas ideias, insights. Você tem tempo para pensar”, constata Visoni.

Dos vasos para o computador

Uma das ferramentas que ajuda a disseminar informações e articular o movimento das hortas comunitárias é a internet. Abertos e colaborativos, os espaços virtuais escolhidos refletem a essência das hortas.

O grupo Hortelões Urbanos no Facebook possui mais de 5 mil membros. Cada horta também tem sua própria comunidade online. Nesses espaços, os envolvidos compartilham dicas sobre como lidar com pragas, informações para quem está começando, além de fotos, vídeos e reportagens sobre o assunto.

O ambiente virtual também serve para cada comunidade organizar sua escala de regas e tomar decisões sobre a horta. “Se a semana está muito seca, avisamos lá no grupo e alguém vai regar. Quando eu vou viajar, fico tranquila, porque sei que os outros estão cuidando da horta”, conta Claudia Visoni, confiante.

Ariel Kogan esclarece: como acontece na maioria das hortas comunitárias, na Horta do Ciclista não há hierarquia na organização. “Eu diria que há um núcleo duro de 10 a 15 pessoas que se envolve mais diretamente e mais umas 50, 60 pessoas, que participam quando podem, de forma mais difusa.”

A descentralização foi o critério para escolher a plataforma virtual. “Quando a gente começou, queríamos que fosse um movimento de pessoas participando, interagindo e melhorando o espaço público que tem ali, e não uma coisa institucionalizada. Então a gente decidiu criar uma página na Wikiversity, que, assim como o Wikipedia, é totalmente colaborativa. Se você quiser, pode ir hoje lá e apagar tudo. E isso nunca aconteceu”.

Visoni elogia essa forma de organização. “Precisamos nos desacostumar dessa ideia de que se não houver alguém mandando, a coisa não acontece. É o contrário. Se você faz as coisas com prazer, dá certo.”

Próximos passos

O principal desafio agora é a legislação, na opinião de Claudia Visoni. “Estamos em um vácuo nesse quesito, porque não há leis que regulamentem essa prática.” O terreno na Praça das Corujas foi cedido pela Subprefeitura de Pinheiros por meio de um acordo com os voluntários. “Outras subprefeituras chegavam até nós dizendo que queriam aprovar projetos de hortas comunitárias, mas não sabiam como. Aí contamos que a nossa é baseada em um acordo, não tem um documento. Todo mundo quer fazer, mas não tem um instrumento legal para ceder um espaço para um grupo de pessoas físicas”, esclarece.

Visoni é hoje conselheira do Conselho do Meio Ambiente, Desenvolvimento Sustentável e Cultura da Paz (Cade) de Pinheiros, ao lado da administradora Madalena Buzzo e da médica Thais Mauad.

“A gente começou um envolvimento mais político junto ao poder público mostrando que essa era uma boa forma de ocupar o espaço público”, diz Buzzo. “Pessoalmente eu gosto de vir para a Horta. E enquanto sociedade eu consigo ter essa atuação política para ajudar outras pessoas a criarem espaços como esse de forma mais tranquila. Já vemos hortas em muitos outros lugares e é gostoso saber que você ajudou de alguma forma.”

Para começar uma horta em casa

Claudia Visoni, jornalista e uma das criadoras do grupo Hortelões Urbanos, dá dicas para os iniciantes:

1 - Comece
“O melhor é começar pelas ervas aromáticas, como salsinha, cebolinha, manjericão e alecrim. Vá no supermercado, compre um potinho de manjericão, coloque no seu jardim e veja o que acontece.” Além de ser mais fácil de plantar, as ervas crescem rápido e quando você colhe, não mata a planta, o que não ocorre com as hortaliças, por exemplo.

2 - Procure informações online
“É só digitar horta em casa no Google ou apresentar sua dúvida nos grupos do Facebook e você vai entrar nesse mundo. Você aprende fazendo, não adianta achar que precisa ler cinco teses antes de plantar. É como cozinhar: você aprende na prática. Não adianta ler 80 livros sobre como fazer feijão que você vai ficar até confuso e não vai conseguir. Você começa e busca informação na medida de sua necessidade.”

3 - Erre
“Não se preocupe, você vai errar. Todo mundo erra. Quando você acerta antes de errar, você acerta sem saber, porque depois você vai errar. Uma hora tem uma chuva de pedra, outra hora vem um passarinho e pisoteia, outra hora quase morre tudo.

Uma das principais coisas que uma horta urbana ensina pra gente é resiliência, porque a gente vai errar. Só que essas espécies são de ciclo curto, então se você errou agora, você vai começar de novo e daqui a um mês você vai ter salsinha e cebolinha de novo. É um eterno errar. Quando você repete aquilo muitas vezes, aí já consegue sacar qual é a dinâmica da coisa.”

Foto: Giulia Afiune


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