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Homeopatia no tratamento da dengue

Remédio criado por médico brasileiro promete atenuar quadro da doença e já é utilizado em diversas cidades do país

Muhammad Mahdi Karim / Wikimedia Commons / CC0

O mosquito Aedes aegypti é o responsável pela transmissão do vírus da dengue que se espalha pelo país

A dengue voltou com força. Só em 2015, foram registrados 1,5 milhão de casos da doença no Brasil de acordo com o Ministério da Saúde. O aumento é o dobro em relação ao mesmo período de 2014, quando foram registrados 756 mil casos da doença. Houve também aumento no número de mortes, que passou de 453 para 811. Há quem diga, porém, que o óbito decorrente da dengue seja “imoral”. É a opinião do médico homeopata e professor da Faculdade de Medicina de Rio Preto, Renan Marino, criador da fórmula do único medicamento para dengue aprovado pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).

Há quase uma década, diferentes estados brasileiros desenvolvem experiências bem-sucedidas na prevenção e tratamento da dengue com o remédio desenvolvido por Marino. “Não se trata de uma vacina, mas um medicamento homeopático que tem a função de atenuar o quadro da doença”, esclarece o médico, que apresentou a fórmula pela primeira vez em um trabalho de mestrado em 2003.

O medicamento é composto de três componentes: eupatório (Eupatorium perfolatium), planta medicinal com ação analgésica que age nas dores no corpo típicas da dengue; fósforo, mineral que protege as funções hepáticas normalmente comprometidas pelo vírus, além de reduzir náuseas e vômitos; e um preparado do veneno de uma espécie de cascavel (Crotalus horridus), que tem forte ação anti-hemorrágica.

A patente do remédio foi cedida por Marino a um laboratório farmacêutico, que o comercializa com o nome de Proden. Marino conta que esta é a primeira e única medicação já aprovada pela Anvisa para o tratamento da dengue. “Tivemos a aprovação em 2008 depois de a fórmula ter sido testada no Laboratório de Pesquisa de Fármacos da Universidade Federal do Amapá, demonstrando que os ratos submetidos ao complexo homeopático apresentaram uma elevação do número de plaquetas de 200.000/ml para 600.000/ml”, explica.

A fórmula também pode ser manipulada em farmácias homeopáticas e tem dosagens diferentes para prevenção e tratamento da dengue. Segundo Marino, para prevenção, devem ser tomadas cinco gotas do remédio, uma vez por semana, durante o período que durar a epidemia. No caso do tratamento, a orientação é que sejam tomadas cinco gotas, quatro vezes ao dia, por 10 dias consecutivos.

Vidros contendo medicamentos homeopáticos
Na homeopatia, substâncias potencializadas e diluídas em água produzem efeito contrário ao dos remédios alopáticos

O tratamento no Brasil

“Milhares de pessoas tomam esse medicamento semanalmente durante todo o período de epidemia há muitos anos. Em 2006, com a criação da Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC), pelo Ministério da Saúde, me senti a vontade pra usar o medicamento no município inteiro de Rio Preto, em São Paulo, com o apoio do secretário de saúde”, relata Marino. Hoje o tratamento não faz mais parte do programa oficial da secretaria do município porque as gestões seguintes alegaram que a terapia preventiva poderia confundir a população e que as pessoas deixariam de prestar atenção aos criadouros do mosquito.

Desde então, outras experiências foram realizadas no país com o medicamento. A cidade de Macaé, no Rio de Janeiro, foi palco da mais significativa ação registrada com a fórmula no país, com a distribuição gratuita de 156 mil doses preventivas do remédio para a população, entre abril e maio de 2007. A incidência da doença no primeiro trimestre de 2008 caiu 93% em comparação com o período correspondente no ano anterior, enquanto no resto do Estado do Rio de Janeiro houve um aumento de 128% dos casos.

Em 2013, em meio a pior epidemia de dengue da história do Estado de Goiás, 25 municípios apostaram no medicamento homeopático para prevenção da doença. Neles, foi registrada uma queda de até 65% nos registros de novas infecções em comparação ao ano anterior. Os resultados da ação, liderada pela Secretaria Estadual de Saúde, levaram outros 75 municípios a aderir à campanha no ano passado.

A polêmica do paracetamol

O tradicional analgésico paracetamol foi a única droga recomendada pelo Ministério da Saúde para tratamento dos sintomas da dengue até 2001, quando, em razão do aumento de graves lesões hepáticas em casos de dengue tratados com o fármaco, decidiu-se por acrescentar também a dipirona como opção.

Para Renan Marino, causa estranheza a indicação hegemônica por tantos anos do paracetamol na dengue mesmo com a ausência de estudos que mostrem a viabilidade e a segurança dessa orientação. “Hoje sabemos que o principal órgão afetado na dengue é o fígado. Logo, é um total contrassenso usar o paracetamol, medicação altamente tóxica para o fígado em casos como estes”, alerta o homeopata.

O médico tem uma opinião contundente a respeito da mortalidade na dengue. Para ele, não procede a teoria segundo a qual os casos graves e hemorrágicos ocorreriam em indivíduos com histórico anterior de dengue por um dos quatro sorotipos conhecidos. “O que faz a diferença na dengue é tão somente tomar ou não tomar paracetamol. Nada mais. Como orientação geral, sugere-se o consumo de grandes quantidades de líquidos para garantir a hidratação, repouso, alimentação leve e tomar apenas dipirona para ajudar no controle da febre e dores”, recomenda.

Foto: Shutterstock