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Haicai: a poesia do momento presente

Poemas curtos com três versos exprimem a essência zen, a consciência do momento presente

Vincepal / Flickr: Vincepal / CC BY 2.0

"Zazen, a meditação zen-budista, também é arte", diz Francisco Handa, monge do templo Busshinji

Zen e arte

A relação entre o zen-budismo e as artes deixou profundas marcas na cultura oriental, especialmente a japonesa. Da cerimônia do chá ao ikebana (arranjo floral), passando pelo shodo (caligrafia) e pela poesia, o zen-budismo encontra na expressão artística uma importante dimensão de sua prática.

A essência do zen é a consciência do momento presente, a infinitude do aqui-agora e a iluminação na vida diária. Valorizando a simplicidade, a espontaneidade e a harmonia, a arte zen busca a integração ao fluxo natural do universo. Ao longo da história da prática, e inclusive na atualidade, são incontáveis os mestres, monges e leigos que se dedicaram a expressar de maneira poética o pensamento zen.

Ele ensina que o universo revela-se totalmente novo a cada instante. A matéria poética do zen é este instante presente, que não se pode agarrar, no qual a linguagem ainda não interferiu. A poesia zen expressa a identidade e a unidade de sujeito e objeto a cada instante, é o dharma, a mente de Buda manifestando-se espontaneamente em cada fenômeno.

Ryokan, monge zen do século 19, compôs grande número de poemas a esse respeito:

“Chega o outono e as noites
Cada vez mais frias – Tempo de remendar os trapos
Dizem as vozes dos insetos
Em minha porta”

"Ao colher violetas
Pela margem da estrada
Esqueci e deixei
Minha caneca de esmola
Que esmolava por mim”

Francisco Handa, monge zen-budista do Templo Busshinji (SP) e poeta, explica que a prática em si é uma arte - “fazer zazen, a meditação zen-budista, também é arte e o mesmo se refere às cerimônias, e toda arte fala da coisa mais próxima da verdade”.

Dogen Zenji, o primeiro patriarca do zen no Japão, compôs extensa e reconhecida obra filosófica e também lançou mão, com frequência, de poemas que apontavam a mente zen:

“O pássaro aquático
em suas idas e vindas
não deixa rastros
mas não se esquece sua presença!”

“Tendo procurado no mais profundo
das montanhas longínquas
achei o meu lar.
Meu lar, onde tinha sempre vivido.”

“As ondas são calmas.
O vento vai morrendo
num barco abandonado.
A lua da meia-noite
alta e brilhante.”

“A flor do pessegueiro desabrocha
ao vento primaveril.
Não deixa um traço sequer
de dúvida
em suas folhas e ramos.”

(Tradução: Francisco Handa)

Haicai

Talvez seja no haicai, forma poética de três versos de 5, 7 e 5 sílabas, que se encontre a essência da poesia zen. Por sua natureza e simplicidade, o haicai oferece uma forma literária em que o praticante pode expressar aquilo que, originalmente, é inexprimível: a experiência da unidade de todos os fenômenos, a consciência plena no momento presente. Não se trata de criar imagens, metáforas, jogos de palavras, mas sim de “fotografar” um momento em que a divisão entre sujeito e objeto desaparece e se pode presenciar a unidade de todas as coisas.

Haja hoje para tanto ontem

No Brasil, o escritor e tradutor Paulo Leminski (1944-1989) é o mais popular autor de haicais. 

"amar é um elo
entre o azul
e o amarelo"

(Paulo Leminski)

Momento presente

Francisco Handa explica que “haicai é viver intensamente o momento presente, com aquilo que está à nossa volta. No budismo, fala-se que devemos nos iluminar com os dez mil dharmas [todos os fenômenos, a realidade como é]. Não se compõe o haicai de ontem, nem o de amanhã. O mesmo se refere ao zen: o momento presente!”

Desse espírito livre de conjecturas e julgamentos é que floresce a poesia do momento presente, expressa pelos grandes haicaístas:

"Um pequeno sapo
Subindo uma folha de bananeira,
Tremendo."

(Kikaku, 1660-1707) (1)

"Entre a relva
Uma flor desconhecida
Floresce branca"

(Shiki, 1869-1902) (1)

"Debaixo d’água
Sobre as rochas descansando
As folhas caídas"

(Joso, 1661-1704) (1)

A vida diária

Para o zen-budismo, não há distinção entre prática e iluminação -- o caminho de Buda apresenta-se no cotidiano, na realidade como ela é. Nesse sentido, a vida diária é, ao mesmo tempo, samsara (o ciclo do sofrimento) e nirvana (a libertação do sofrimento). A arte, para o zen-budista, está inserida nessa identidade entre ilusão e iluminação, em que o homem deixa de ser centro do universo ou algo separado da natureza. Ele é resultado da incessante prática do zazen, o “apenas-sentar”, em que se abandonam naturalmente o pensamento e as ações intencionais e permite-se que a natureza se expresse livre de ideias preconcebidas e longe de categorias intelectuais. Parafraseando Guimarães Rosa, “a iluminação está em toda parte”:

"Pequena borboleta
Enfeitando meus cabelos
Por um momento."

(Clície Pontes)

"O chofer de táxi
Meu pai, também, nos dias quentes,
Assobiava assim."

(Paulo Franchetti)

"A pedra atirada ...

Fundo lago de outono
desmorona o céu."

(Francisco Handa)

O haicai se confunde com a vida, sintetiza Francisco Handa. “Simplesmente compomos e não pensamos a respeito. Da mesma forma, respiramos, mas esquecemos que estamos respirando. Respiramos apenas. Compomos haicai apenas”. Assim como o zen, o haicai ensina “que o calor é muito quente; que a chuva molha; que a chuva de primavera é agradável; que a lua cheia de outono é imensamente redonda. O óbvio nos parece tão absurdo....”.

Os poemas dessa matéria forma retirados da Caqui | Revista Brasileira de Haicai

Foto 1: Takashi.M / Flickr: Takashi.M / CC BY 2.0
Foto 2: whologwhy / Flickr / CC BY 2.0

Foto 3: Steve Johnson / Flickr: Steve A Johnson / CC BY 2.0